quinta-feira, 29 de junho de 2017

Clarice Lispector

O diálogo abaixo foi criado a partir de uma colagem de depoimentos e crônicas, uma vez que Clarice já era falecida.
1989 - Para Gostar de Ler volume 9 - Contos - Editora Ática


Antes de ler e escrever eu inventava

- Qual a sua origem?

- Nasci na Ucrânia, numa aldeia que não existe no mapa, Tchetchelnik,e vim com dois meses para o Brasil, para o Recife. Minha primeira língua foi o português. Muitas pessoas pensam que eu falo com sotaque por ser russa de nascimento. Mas é que eu tenho a língua presa. Há a possibilidade de cortar, mas meu médico falou que dói muito. Tem uma palavra que não posso falar, senão todo mundo cai pra trás: aurora.

- Como começou a interessar por histórias?

– Antes de aprender a ler e a escrever, eu já fabulava. Inventei junto com uma amiga minha, muito passiva, uma história que nunca terminava, porque quando eu dizia: “Então todos estavam mortos”, ela replicava: “Não tão mortos assim”. Então eu continuava a história.
– Cada escritor tem o seu jeito de escrever. Qual o seu?
- Eu trabalho do modo mais esquisito do mundo: sentada numa poltrona, com a máquina no colo. Por causa de meus filhos. Quando eles eram pequenos, eu não queria que tivessem uma mãe fechada num quarto a que não pudessem ter acesso. Então eu me sentava no sofá, com a máquina no colo, e escrevia.
– Em que você se baseia para escrever os seus textos?
– Meus romances, meus contos me vêm em pedaços, anotações sobre as personagens, tema, cenário, que depois vou juntando mas que nasceram de uma realidade interior, vivida ou imaginada, sempre muito pessoal.
– E os livros? Quando começou a se interessar por eles?
– Quando eu era criança, durante muito tempo pensei que os livros nascessem como as árvores, como os pássaros. Quando descobri que existiam autores, pensei: também quero fazer um livro.

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