terça-feira, 28 de março de 2017

Uma Mente Inquieta

JAMISON, Kay Redfield. Uma mente inquieta: memórias de loucura e instabilidade de humor. São Paulo: Martins Fontes, 1996. 267p.

Ana Lúcia Machado1



"Até que ponto nossos sentimentos extraem sua cor do mergulho no mundo subterrâneo? Quer
dizer, qual é a realidade de qualquer sentimento?"
Virgínia Woolf (citada por Jamison)


capa do livro é vermelha (atenção-paixão), traz impresso um comentário do The New York Times Book Review, com a temática sobre a doença maníaco-depressiva. Entendemos que um relato quase sempre se faz na primeira pessoa e, é desta forma que a narrativa se desenvolve. A autora, -professora-associada de Psiquiatria da "The Johns Hopkins University of Medicine", com formação inicial em psicologia, é hoje autoridade internacional em transtorno bipolar do humor (anteriormente denominado psicose maníaco-depressiva - PMD).
A professora Jamison, escreve um livro caprichoso de relatos pessoais, pois vive a experiência dupla de ser cientista na área da psiquiatria e sofrer os transtornos do humor. A história delineia-se numa narrativa comovente, que apreende o leitor comum e com muita propriedade, faz o mesmo com o leitor atento às temáticas da saúde-doença mental.
Contar sua própria vida, enquanto sofredor de um transtorno psíquico, não é novidade literária. Vários títulos no Brasil e no mundo se sucedem com esta intenção. Citando alguns: Memórias de um doente dos nervos, de Daniel Paul Schreber; A vida íntima de uma esquizofrênica, de Bárbara O'Brien; Anjo Carteiro: a correspondência da psicose e Memórias do Delírio: confissões de um esquizofrênico, de L.F. Barros.
A autora, conta suas histórias familiares esclarecedoras de certo contexto relacional onde as emoções se desvanecem ou se excedem: seu pai, também com transtorno de humor, a mãe, presente nos dolorosos momentos, as ligações fraternais. Aos vinte e oito anos de idade detonam vivências incontroláveis de exaltação do humor (mania), e de episódios depressivamente intensos, culminando anos mais tarde com uma tentativa de suicídio. A caracterização de sua personalidade vai sendo descrita, com todos os seus esforços no meio acadêmico (concursos, teses, pesquisas, chefia de ambulatórios), a sua constante tendência em abandonar o lítio, único medicamento capaz de mantê-la "estável" emocionalmente, a confiança em seu médico, os inúmeros amigos e confidentes que congrega, embora sempre esbarrando no preconceito e no estigma clássicos de uma doente mental.
A família, a carreira universitária, as viagens de estudo, as consultas, os esportes, a literatura, são dispostos num relato ancorado na paixão. O livro ganha uma conotação de romance, pura emoção, aos se descortinar a fala do coração. A autora se permite viver intensamente os relacionamentos afetivos, casamento, paixão, se mostrando uma amante vivaz, num tom belo de essências de desejo.
No viés do sofrimento psíquico, há dor nas cenas de alucinações, nos delírios, na apatia, na aceleração. Pertinente a construção de sua consciência em relação à psicoterapia e ao lítio, são depoimentos exemplares para outras pessoas com sofrimento semelhante e, para nós profissionais de saúde mental, orientadores da importância de certos tratamentos.
No início, e em parte do final do livro, Jamison esclarece os motivos porque decidiu escrever sua própria história, tornando pública uma vivência conflitiva e penosa. Seu tributo é a desmistificação da loucura: "Há uma distinção sutil entre o que é considerado maluquice e o que é considerado "inadequação"- palavra horrenda porém condenatória - e apenas um fio separa o fato de se ser considerado cheio de entusiasmo ou um pouco inconstante e ser rotulado pejorativamente de "instável".


1 Assistente do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Disciplina Enfermagem Psiquiátrica

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