domingo, 31 de dezembro de 2017

A Forma da Água


The Shape of Water (A Forma da Água, no Brasil) pode ser o filme de consagração de Guillermo del Toro, que tem grandes chances de se juntar aos compatriotas Alfonso Cuarón e Alejandro G. Iñárritu na lista de vencedores do Oscar. Geralmente a Academia foge de filmes de fantasia, mas seria impossível deixar de lado um filme deste calibre, extremamente sensível.
Del Toro reúne aqui paixões e interesses. Sua conhecida cinefilia desta vez é trabalhada em torno de uma história clássica do estilo “A Bela e a Fera”, com toda contextualização da Guerra Fria. Elisa Esposito (Sally Hawkins) trabalha no setor de limpezas de uma instalação secreta do governo. Muda, ela mantém uma rotina diária metódica. Certo dia, o chefe da base, Richard Strickland (Michael Shannon), sai de um laboratório sangrando – e quando Elise é enviada junto de sua amiga, Zelda (Octavia Spencer) para limpar o local, ela acaba descobrindo uma criatura única – e logo começa a criar uma bonita relação de amizade.
É impressionante analisar o apelo visual dos filmes de Del Toro. O diretor cria mundos completos com um design de produção impecável. No caso de The Shape of Water, os tons cinzentos do complexo de inteligência se destacam. Se a ideia original era filmar o filme em p/b, o diretor de fotografia Dan Laustsen apresenta o melhor trabalho de sua vida ao usar em quase todo o filme apenas uma fonte de luz para lembrar o fundo do mar. O azul e o filtro cinzento, nestes casos, geralmente são balanceados com o âmbar – enquanto o vermelho é usado para destacar o amor ou a violência.
Mas sem sombra de dúvidas o destaque todo de The Shape of Water está envolvido na incrível capacidade de Hawkins dar vida a uma personagem muito forte. A atriz, que mantém papeis extremamente coerentes em sua filmografia até aqui e ainda vive com a injustiça de não ter sido nomeada ao Oscar pela sua excelente participação em Happy-Go-Lucky (2008), entrega ao espectador uma atuação de luxo. Mesmo muda – e com linhas de diálogo que aparecem em uma sequência de sonho muito bem orquestrada – é lindo ver a forma como conduz Elisa no projeto-paixão de Del Toro. Aliás, se Jean Dujardin venceu o Oscar de melhor ator neste contexto, por qual motivo Sally não pode sonhar?
Esteticamente belo, The Shape of Water tem o desenrolar de uma poesia refinada, cujo final não pode ser previsto. Grande parceria de Del Toro com a Fox Searchlights, apresenta uma cena inesquecível que provavelmente será lembrada dentre os filmes produzidos nesta década.

Estava Escrito

Doutor Bernardo, um rico industrial, nunca aceitou o casamento de Renato, seu único filho e herdeiro, com a jovem Helena, uma moça pobre do interior. A vida do casal não melhorou mesmo depois que Helena deu à luz duas lindas crianças, que se tornaram netas muito queridas, mas que não fizeram diminuir o preconceito e o ódio do sogro pela nora. Numa noite, após severa discussão com Helena, Bernardo é assassinado em casa. Helena é acusada pelo crime, julgada, condenada, mesmo sendo inocente. Ela perde o amor de Renato, a convivência com os filhos pequenos e passa 20 anos presa, enquanto o verdadeiro assassino continua solto. Agora ela quer justiça. Quer recuperar tudo o que perdeu e colocar o verdadeiro criminoso na cadeia. Você se envolverá nesse enigma e junto com Helena tentará descobrir quem é o verdadeiro assassino. Nesse magnífico romance que traz à tona temas fortes, polêmicos, dramas intensos e muitos ensinamentos espirituais, o espírito Hermes, mais uma vez pela psicografia de Maurício de Castro, vem nos chamar à responsabilidade dos nossos atos e ensinar a melhor maneira de ser, de viver e encontrar a verdadeira

sábado, 30 de dezembro de 2017

Valter Hugo Mãe

Bom dia!!
Uma amiga me indicou Valter Hugo Mãe.
Iniciei a leitura com muita dificuldade, sem concentração.

Aí, então...
Ele me fisgou...
Uauu! que livro... que autor...
Assim como José Saramago é um estilo de escrita sem parágrafos, sem letra maiúscula, onde os diálogos se misturam sem indicação, sem pausa.
Basta insistir e se apaixonar, assim como fisgou Isabela Lapa.
Vale muuuuito!

É uma obra de maturidade a que agora chegará às mãos dos leitores, conseguida pela grande capacidade de criar personagens que este autor sempre revelou, aqui enredadas nas questões da velhice, da sua ternura e tragédia, resultando num trabalho feito da difícil condição humana mesclada com o humor que, ainda assim, nos assiste. A máquina de fazer espanhóis é uma imagem livre do que somos hoje, consequência de tanto passado e dúvidas em relação ao futuro. É um livro de reflexão sobre a fidelidade na amizade ou no amor.
No país dos silvas poucos serão os que escapam a pensamentos paradoxais de profundo amor pela nação misturados com uma ancestral dúvida sobre se não estaríamos melhor como cidadãos do país vizinho.
Entre o dramático da vida, com a idade a descontar o tempo, e o hilariante da casmurrice e senilidade, este romance é um retrato dos homens que perduram depois da violência mais fracturante. É um retrato delicado e sensível da terceira idade, com o que acarreta de ideias confusas sobre o passado e sobre o presente.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Uma Vida Pequena

Candidato ao Prêmio Pulitzer de Literatura de 2016, Uma vida pequena é um dos livros mais surpreendentes, desafiadores, perturbadores e profundamente emocionantes das últimas décadas
Quando quatro amigos de uma pequena faculdade de Massachusetts se mudam para Nova York em busca de uma vida melhor, eles se veem falidos, sem rumo e amparados apenas por sua amizade e por suas ambições. Willem, lindo e generoso, é aspirante a ator; JB, nascido no Brooklyn, é um pintor perspicaz e às vezes cruel que busca de todas as formas ingressar no mundo das artes; Malcolm é um arquiteto frustrado que trabalha numa empresa de renome; e o solitário, brilhante e enigmático Jude funciona como o centro gravitacional do grupo. Com o tempo, o relacionamento deles se aprofunda e se anuvia, matizado pelo vício, pelo sucesso e pelo orgulho. No entanto, seu maior desafio, como cada um passa a perceber, é o próprio Jude, um litigante extremamente talentoso na meia-idade, porém, ao mesmo tempo, um homem cada vez mais atormentado, a mente e o corpo marcados pelas cicatrizes de uma infância misteriosa, e assombrado pelo que teme ser um trauma tão intenso que não só não será capaz de superar mas que vai definir sua vida para sempre.
Com uma prosa magnífica e genial, Hanya Yanagihara criou um hino trágico e transcendental do amor fraterno, uma representação magistral da dor física e psicológica, e uma análise da verdade nua e crua que permeia a tirania da memória e os limites da resistência humana.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Mudbound: Lágrimas sobre o Mississippi

"De tirar o fôlego." - The Washington Post 
"Um belo romance. Uma magnífica representação da fúria e do terror do racismo." - Publishers Weekly 
Um amor proibido, uma traição terrível, uma agressão selvagem. Um romance de força impressionante, que nos faz mergulhar nas contradições do Mississippi pós-Segunda Guerra Mundial. Ao descobrir que o marido, Henry, acaba de comprar uma fazenda de algodão no Sul dos Estados Unidos, Laura McAllan, uma típica mulher da cidade, compreende que nunca mais será feliz. Apesar disso, ela se esforça para criar as filhas num lugar inóspito, sob os olhos vigilantes e cruéis de seu sogro. Enquanto os McAllans lutam para fazer prosperar uma terra infértil, dois bravos e condecorados soldados retornam do front e alteram para sempre a dinâmica não só da fazenda, mas da própria cidade. Jamie, o jovem e sedutor irmão de Henry, faz Laura de repente renascer para a vida, enquanto Ronsel, filho dos arrendatários negros que trabalham para Henry, demonstra uma altivez que não será aceita facilmente pelos brancos da região. De fato, quando os jovens ex-combatentes se tornam amigos, sua improvável relação desperta sentimentos violentos nos habitantes e uma nova e impiedosa batalha tem início na vida de todos. Alternando a narrativa entre vários pontos de vista, este premiado romance oferece ao leitor diferentes versões dos acontecimentos. Os personagens, lutando por sentimentos de amor e honra num lugar e época brutais, se veem dentro de uma tragédia de enormes proporções e encontram redenção onde menos esperam.

Um "intocável" no topo - casta indiana

Realmente, a Índia surpreende, encanta, fascina.
Alex, que já viajou por mais de 70 países nos fala da Índia onde viveu por um período.
Fico imaginando como seria bom conversar (conversar e conversar) com ele. O quanto ele poderia me contar...

E após ler a obra O Sândalo fiquei ainda mais tentada a adquirir a coleção Povos e Civilizações.
Com tantas obras para reler, peço: - me seguuuuura!



quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Quis e Quiz

E todos os dias tenho dúvidas.

Quis é a forma conjugada do verbo querer no pretérito perfeito do indicativo, na 1.ª ou 3.ª pessoa do singular: Eu quis, ele quis. 
Quiz é um substantivo masculino, sinônimo de questionário: Eu respondi ao quiz
Assim, as duas palavras existem na língua portuguesa e estão corretas. Os seus significados são, contudo, diferentes.
Quis = verbo querer 
Toda a minha vida eu quis vir aqui.
Quiz = questionário
Eu já respondi a esse quiz, mas ainda não sei o resultado.

Tudo Tudo e Nós

Tudo Tudo e Nós
Sinopse: Madeline Whittier tem uma doença rara que a impede de sair de casa. Mas Maddy leva uma vida tranquila até ao dia em que Olly se muda para a casa ao lado. De repente, torna-se impossível para Maddy ignorar o fascínio do exterior
O site Magazine dá dicas de 33 livros para ler antes de assistir às adaptações ao cinema.






O Boneco de Neve
Sinopse: Detective Harry Hole investiga o desaparecimento de uma mulher cujo lenço cor-de-rosa é encontrado num boneco de neve que é colocado no pátio da casa, na noite do desaparecimento. Hole suspeita que este desaparecimento esteja relacionado com um assassino em série.








A Montanha Entre Nós 
Sinopse: Depois do seu voo ter sido cancelado devido a mau tempo, dois estranhos, o Dr. Ben Payne e a escritora Ashley Knox, arriscam e embarcam num avião charter. Todavia o avião despenha-se e eles têm de aprender a viver na floresta.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

A gente e Agente

Estas duas formas - agente e a gente - estão corretas e existem na língua portuguesa. Seus significados, porém, são diferentes e devem ser usadas em situações diferentes. 
A gente, escrito separado, é uma locução pronominal equivalente ao pronome pessoal reto nós:
  • a gente vai;
  • a gente espera;
  • a gente quer;
  • a gente pode;
  • a gente sabe.
Agente, escrito junto, é um substantivo comum e se refere à pessoa que faz algo:
  • agente secreto;
  • agente da polícia;
  • agente imobiliário;
  • agente de execução;
  • agente da passiva.

A gente = nós

A gente é uma locução pronominal formada pelo artigo definido feminino a e pelo substantivo gente, que se refere a um conjunto de pessoas, à população, humanidade, povo. 
A expressão a gente é semanticamente equivalente ao pronome pessoal reto nós e gramaticalmente equivalente ao pronome pessoal reto ela, devendo assim o verbo ser conjugado na terceira pessoa do singular. 
Exprime um sujeito indeterminado, ou seja, as pessoas que falam (nós) ou as pessoas em geral (todos). Esta expressão deverá ser utilizada apenas numa linguagem informal.

Exemplos com a gente

  • A gente vai à praia depois do almoço.
  • Ontem, a gente falou com ele, mas ele continuava triste com a situação.
  • Toda a gente sabe que um dia tem vinte e quatro horas.

Agente = pessoa que age

Agente tem sua origem na palavra em latim agens e se refere ao sujeito da ação, ou seja, à pessoa que atua, opera, faz. Indica principalmente um administrador de uma agência, um intermediário em negociações comerciais, um agente secreto ou um guarda policial. Pode indicar também aquilo que origina ou impulsiona algo.
Agente é, assim, sinônimo de procurador, gestor. gerente, agenciador, intermediário, negociador, espião, investigador, policial, motivo, causa motivador, causador e promotor, entre outros.

Exemplos com agente

  • Aquele agente da polícia conseguiu prender o ladrão.
  • O agente da passiva equivale ao sujeito da voz ativa.
  • A agente secreta está em missão num país estrangeiro.
Agente é um adjetivo e um substantivo de dois gêneros porque apresenta sempre a mesma forma, quer no gênero feminino, quer no gênero masculino: o agente - a agente.
Quer saber mais sobre esta dúvida e aprender de forma fácil e rápida? Assista ao vídeo para aprender de forma rápida e fácil!

A Costureira e o Cangaceiro - Entre Irmãs

Diário Pernambucano
Breno Pessoa entrevista a autora Frances Peebles em out 2017

Frances Peebles fala sobre romance histórico e adaptação cinematográfica assinada por Breno Silveira

Entrevista // Frances Peebles

Fora a mudança no título, esta nova edição tem alguma alteração? 
É a mesma tradução (o livro foi escrito originalmente em inglês). A única coisa que a gente mudou foi o nome do cangaceiro (líder do bando). Era para ter sido, desde o começo, Carcará, um pássaro típico no interior. 
Mas na primeira tradução era Falcão, outro pássaro. Pedi a mudança, mas foi só uma palavra mesmo. 

Sentiu dificuldade na hora de escrever sobre coisas tão características da região em outro idioma? 
A versão do livro em inglês tem muitas palavras sem tradução. Cangaceiro, cangaço, caatinga, cariri, sertão, rapadura etc. Resolvi colocar essas palavras todas em português, porque não existem em inglês. 
Queria que o leitor no exterior fosse aprendendo esse português, tão rico. Em geral, isso funcionou. 

O que lhe motivou a escrever uma trama ambientada em Pernambuco, depois de tanto tempo longe do estado? 
Eu visitava muito a fazenda em Taquaritinga do Norte e também o Recife. Sempre fui rodeada pelo folclore do cangaço. 
Sempre gostei. Quando amadureci mais, vi que não existia uma história das mulheres no cangaço. Pesquisei, 
fui em vários sebos, comprei vários livros, mas realmente não existia. Era uma vida difícil, de muita 
convivência com a natureza, mas também muita violência, muita dor, separação dos filhos, esse tipo de coisa. 
Por isso queria contar a história das mulheres e, também, queria que uma delas fosse para a cidade. 
Queria mostrar que, para ter coragem, você não precisa pegar em uma arma. E a Emília também tem muita coragem para tomar suas decisões, levar a vida que se quer. Queria mostrar esses dois lados. 

Qual a importância da representação feminina na arte? 
Quando você não tem exemplos (femininos), isso afeta sua percepção de mundo. É importante, não só em livros e filmes, ver mulheres fortes, que tomam decisões, que também erram etc. É importante para meninas e mulheres. 
Somos 50% da população, precisamos ser representadas. Como escritora, cada romance é como um casamento. 
Tenho que ficar com esses personagens cinco ou seis anos. Me pergunto: ‘será que essa história é boa, que quero passar tanto tempo com essa personagem?’. Para mim, não importa se é masculina ou feminina, mas, sim, se é interessante, se ela vai ser emocionalmente realística. Quero que a personagem tome as decisões; eu não faço o enredo, é a personagem que faz. 

Acompanhou a adaptação cinematográfica de perto? 
Eu não vi o roteiro e não participei, porque confiei plenamente em Breno e Patrícia Andrade (roteirista). 
O elogio mais sincero que um artista pode receber é quando sua obra é inspiração para outra obra. 
Esse filme é nosso, mas é independente de mim. O que acho bonito é que eles gostaram, respeitaram e amaram os personagens, tanto quanto eu. E eu senti isso e tinha toda confiança do mundo. Eu tenho que respeitar a obra deles, não entendo de cinema. 


Quando você viu as atrizes caracterizadas, elas pareciam diferentes do que você imaginava? 
É uma ótima pergunta. Nunca na minha vida eu pensei que um livro meu iria virar filme. Só por isso, sinto uma gratidão enorme. Eu vivi com essas personagens por anos, na minha imaginação, antes de publicar o livro. 
Claro que no livro elas parecem diferentes. Se você ler o livro a aparência delas é um pouquinho diferente. 
Mas acho que a produção captou o espírito delas. A Marjorie Estiano tem uma delicadeza e uma força que a Emília também tem. E a Nanda Costa, quando vi as fotos delas, eu chorei. A Nanda tem no olhar dela uma força, ferocidade, que, realmente, são de Luzia. Tem um desenho que fiz em 2002, quando comecei a escrever o livro, e ela tinha uma trança e aquele olhar. E vi uma foto com a trança e o mesmo olhar. Fiquei arrepiada, foi uma experiência diferente e muito boa. Apesar de não serem exatamente como eram na minha imaginação, as duas eram, para mim, Emília e Luzia. 

Assista também a entrevista em Conversa com Bial - emocionante!

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Fala Sério, Mãe!




Letícia Lima nos conta.

Durante a Bienal do Livro, que acontece no dia 5 de setembro, Larissa Manoela e Thalita Rebouçasdividirão a fala no debate Falando sério com Larissa Manoela, que tem como objetivo divulgar o filme Fala Sério, Mãe!, baseado no best-seller homônimo de Rebouças, que estreia nos cinemas brasileiros no dia 28 de dezembro. O bate-papo acontece às 12h, na Arena #SEMFILTRO, com capacidade para 400 pessoas.

Além de divulgar o longa, Thalita vai falar sobre a nova edição do livro que chegará às prateleiras pela Rocco, com capa que faz referência ao filme e trecho inédito. Larissa e Thalita também irão comentar cenas do filme, propondo uma interatividade com a plateia por meio da brincadeira O Mico da Vida. Os participantes receberão cartazes autografados por Ingrid Guimarães, Larissa Manoela e Thalita Rebouças, além de marcadores de livros.

Fala Sério, Mãe! é dirigido por Pedro Vasconcelos, e traz a doce e intensa relação entre Maria de Lourdes (Larissa Manoela) e sua mãe, Angela Cristina (Ingrid Guimarães), ao longo de diferentes fases da vida. Com doses de emoção e humor, o filme retrata as principais queixas e frustrações de Ângela Cristina e a rebeldia e o sentimento de opressão vividos por Malu. O longa ainda mostra como a relação mãe x filha pode se inverter ao longo dos anos: Malu, que antes era uma criança indefesa e que necessitava de cuidados, quando cresce mostra seu lado protetor e amigo por Angela Cristina, que revela uma faceta mais vulnerável.

Thalita Rebouças não só escreveu o livro que inspirou o longa: ela também colaborou com o roteiro, ao lado de Dostoiewski Champagnatte, Ingrid Guimarães, Paulo Cursino e Pedro Vasconcelos, e participou do filme no papel de uma vendedora de loja. No elenco, o filme conta ainda com Marcelo Laham(Armando), João Guilherme Avila (Nando), Cristina Pereira (Dona Fátima), Raphael Tomé (Mamá), Giovana Rispoli (Alice) e Carolina Dumani (Malena), além das participações especiais de Fábio Jr. e Paulo Gustavo.

Fala Sério, Mãe! tem produção da Camisa Listrada, coprodução da Fox International ProductionsTelecineGlobo Filmes e Focus Entretenimento, e distribuição da Downtown Filmes/Paris Filmes.

domingo, 24 de dezembro de 2017

sábado, 23 de dezembro de 2017

Que ninguém nos ouça

Doçura, inteligência, graça, suavidade lembra? Também imaginei que estivessem em extinção, mas descobri que seguem vivos nas páginas de "Que ninguém nos ouça". Não que seja uma literatura para mocinhas inocentes: o assunto muitas vezes é barra. Nem Leila, nem Cris saltaram de um conto de fadas. Porém, mesmo quando confidenciam a parte trash de suas trajetórias, a delicadeza continua mantendo o tom. Amargas? Nem que quisessem. Nem que tentassem. É o único talento que elas não têm. 

Duas mulheres incomuns e com experiências singulares: só pelo voyeurismo consentido, já valeria dar uma espiada nessa troca de e-mails entre as duas. Porém, basta abrir a primeira página para perdermos a ilusão de que teremos algum controle sobre a leitura. É a Leila e a Cris que seguram o leitor nas mãos: fisgado e rendido, ele ficará preso até a última linha, quando então retornará à vida acreditando novamente na espécie humana. 

Martha Medeiros

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Que livro é este????

Uma amiga me emprestou... e comentou que várias pessoas que o haviam lido comentavam: "- Que livro é este??????"
Assim cheio de interrogações!
E o diziam com satisfação, alegria, na verdade, surpresas com o conteúdo.
É diferente, é inédito, é lindo! É exatamente surpreendente!
Adoreeeei!

Leia do início ao fim. Só acredite! E, ao final, me conte o que achou...


'outros jeitos de usar a boca' é um livro de poemas sobre a sobrevivência. Sobre a experiência de violência, o abuso, o amor, a perda e a feminilidade. O volume é dividido em quatro partes, e cada uma delas serve a um propósito diferente. Lida com um tipo diferente de dor. Cura uma mágoa diferente. Outros jeitos de usar a boca transporta o leitor por uma jornada pelos momentos mais amargos da vida e encontra uma maneira de tirar delicadeza deles. Publicado inicialmente de forma independente por Rupi Kaur, poeta, artista plástica e performer canadense nascida na Índia – e que também assina as ilustrações presentes neste volume –, o livro se tornou o maior fenômeno do gênero nos últimos anos nos Estados Unidos, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos.

Entenda melhor a obra lendo a resenha de Isabela


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

As Leituras de Cabeceira da Família Cash

O filme Capitão Fantástico conta a história de um pai que cria seus seis filhos de forma alternativa. Vivendo no meio de uma floresta no interior dos Estados Unidos, a família tem o que se pode chamar de educação doméstica, que neste caso implica em treinamentos físicos intensos e leitura de livros complexos para todas as crianças.

Os Irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski

“Se Deus não existe, tudo é permitido?”. A frase, atribuída ao último romance escrito por Dostoiévski e um dos maiores clássicos da literatura mundial, não é citada literalmente no texto do autor russo, mas define o espírito moral do debate provocado pela obra, que em Capitão Fantástico é lida por Rellian, filho do meio de Ben que tem um papel importante no desfecho do filme. Romance filosófico e policial, trata da complexa relação entre o devasso Fiódor Karamázov e seus três filhos: Aliócha, puro e místico; Ivan, intelectual e atormentado; e Dmitri, orgulhoso e apaixonado. Analogamente, há uma forte correspondência entre as histórias de Os Irmãos Karamázov e Capitão Fantástico.

Armas, Germes e Aço: Os Destinos das Sociedades Humanas, de Jared Diamond

O livro de Jared Diamond, professor de Geografia e Fisiologia da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), que recebeu o prêmio Pulitzer de melhor livro de não-ficção de 1998, é lido por Kielyr, uma das filhas do meio de Ben Cash, personagem de Mortensen no filme. A obra busca explicar como as populações da Europa e da Ásia conseguiram sobreviver e conquistar outras civilizações ao longo da história, ainda que refute qualquer tipo de superioridade intelectual ou moral dessas populações. O autor argumenta que diferenças de poder e tecnologia entre sociedades humanas são originadas primariamente por diferenças ambientais, como, por exemplo, a influência geográfica, que pode facilitar o comércio entre povos diferentes.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Bardo Thodol, livro dos mortos tibetano

"Bardo Thödol" é provavelmente uma adaptação budista de uma tradição tibetana anterior ao século VII, ditada por mestres budistas moribundos, que transmitiam suas experiências aos discípulos, que as reuniram e consignaram por escrito, culminando neste texto. É um ritual baseado na ioga, e visa principalmente um tratamento racional do ciclo da existência samsárica (ou fenomênica) entre a morte e o renascimento; da descrição dos diferentes estados de existência; e dos seres que povoam o Universo; ensinando também, destarte, a via da Libertação. Neste livro apresentamos, para o estudo do leitor, também um resumo das doutrinas iogues relacionadas com o texto do Bardo Thödol, os Sete Livros de Sabedoria do budismo mahaiana, e os Hinos de Abinavagupta.



"Tibet é muito enigmático". São palavras da palestrante diretora da Novo Acrópole Brasília, profª. Lúcia Helena Galvão .

Veja no youtube.

Conhecimento é como uma faca afiada. Depende de quem o detêm.
(...) o homem que caminha para a sabedoria deixando passos/rastros a serem seguidos.
(...) todo o processo de evolução do ser humano é fazer com que sua mente seja como um diamante: forte, determinada, sólida em seus princípios, mas transparente e luminosa.
Em outras palavras: tremendamente resistente e limpa.
Qualquer coisa que te aconteça pode ser favorável.
"O bom piloto que sabe onde está o seu porto, maneja suas velas que para que qualquer vento lhe seja favorável."

Pensamento circular - um vício...
quando você tenta mudar (melhorar), o seu pensamento "ruim" fica procurando uma brecha pra entrar...

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Assassino dos Romanov

As circunstâncias são duvidosas.
As provas não inconsistentes.
Então, a ficção histórica criou muitos livros sobre os Romanov.
Escritos supondo a sobrevivência de uma das princesas - Anastácia ou Tatiana.

Aí, vem a questão: ler ou não ler tantas obras? Quais os livros serão realmente bons? 
O cenário é real, é História!
E a observação de cada autor diverge em questões, no mínimo, interessantes. 
Se eu tiver tempo para todos eles, assim o farei.



Resenha de A Filha da Tsarina:  Após setenta anos escondendo sua verdadeira identidade, chegou o momento de Daria Gradov contar ao mundo um grande segredo. Ela é na verdade a grã-duquesa Tatiana, sobrevivente do massacre que matou sua família. Filha do tsar Nicolau II e da tsarina Alexandra, ela é a única herdeira da dinastia Romanov. Em uma narrativa permeada por eventos históricos, A filha da tsarina contrapõe o esplendor da vida imperial e a pobreza devastadora dos camponeses, em uma Rússia de grandes transformações. Testemunha da história, Tatiana relata os acontecimentos que remontam a luta de uma família para fugir da morte iminente.

· Vencedor do Romantic Times Reviewer’s Choice Award na categoria melhor romance histórico.
· Carolly Erickson já teve mais de 25 livros publicados, entre eles biografias, romances históricos e não ficção.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Milton Hatoum

Nove anos após a publicação de Órfãos do Eldorado, Milton Hatoum retorna à forma da narrativa longa em uma série de três volumes na qual o drama familiar se entrelaça à história da ditadura militar para dar à luz um poderoso romance de formação.

Nos anos 1960, Martim, um jovem paulista, muda-se para Brasília com o pai após a separação traumática deste e sua mãe. Na cidade recém-inaugurada, trava amizade com um variado grupo de adolescentes do qual fazem parte filhos de altos e médios funcionários da burocracia estatal, bem como moradores das cidades-satélites, espaço relegado aos verdadeiros pioneiros da capital federal, migrantes desfavorecidos.

Às descobertas culturais e amorosas de Martim contrapõe-se a dor da separação da mãe, de quem passa longos períodos sem notícias. Na figura materna ausente concentra-se a face sombria de sua juventude, perpassada pela violência dos anos de chumbo. 

Neste que é sem dúvida um dos melhores retratos literários de Brasília, Hatoum transita com a habilidade que lhe é própria entre as dimensões pessoal e social do drama e faz de uma ruptura familiar o reverso de um país cindido por um golpe.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Alias Grace (2017) Nova Serie Netflix - Trailer Legendado



Depois de O conto da aia, que deu origem à prestigiada série The handmaid’s tale e alcançou o status de bestseller mais de 30 anos após a publicação original, outro romance de Margaret Atwood vai ganhar as telas, desta vez pela Netflix, e volta às prateleiras com nova capa pela Rocco. Inspirado num caso real, Vulgo Grace conta a trajetória de Grace Marks, uma criada condenada à prisão perpétua por ter ajudado a assassinar o patrão e a governanta da casa onde trabalhava, na Toronto do século XIX. Com uma narrativa repleta de sutilezas que revelam um pouco da personalidade e do passado da personagem, estimulando o leitor a formar sua própria opinião sobre ela, Atwood guarda as respostas definitivas para o fim. Afinal, o que teria levado Grace Marks a cometer o crime? Ou será que ela estaria sendo vitima de uma injustiça?

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Hibisco Roxo

Protagonista e narradora de Hibisco roxo, a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país.

Durante uma temporada na casa de sua tia, Kambili acaba se apaixonando por um padre que é obrigado a deixar a Nigéria, por falta de segurança e de perspectiva de futuro. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance que mistura autobiografia e ficção, também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, traçando de forma sensível e surpreendente, um panorama social, político e religioso, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente.


Agbogho Mmuo ou Maiden Spirits são desempenhos anuais realizados durante a estação seca na área de Nri - Awka , na parte norte do território tradicional de Igbos . Realizados apenas por homens que usam máscaras , os disfarces imitam o caráter de meninas adolescentes, exagerando a beleza e os movimentos das meninas. O desempenho é sempre acompanhado por músicos que cantam e tocam tributos para donzelas reais e espirituais.
As apresentações mostram uma imagem ideal de uma donzela de Igbo. Este ideal é constituído pela pequenez das características de uma jovem e a brancura da sua aparência, o que é uma indicação de que a máscara é um espírito. Essa brancura é criada usando uma substância de giz utilizada para marcar ritualmente o corpo na África Ocidental e na diáspora africana . A substância calcária também é usada no projeto uli , criada e exibida na pele de mulheres Igbo. A maioria das máscaras espirituosas de solteira são decoradas com representações de pentes de cabelo e outros objetos, inspirados nos penteados cerimoniais do final do século XIX. Estes penteados incluem penteados elaborados e cristas que pretendem adicionar beleza à máscara.
Este estilo de arte é apresentado no livro Purple Hibiscus escrito por Chimamanda Ngozi Adiche

Diáspora africana - O termo foi aplicado historicamentepor quem? ] em particular aos descendentes dos africanos ocidentais e centrais que foram escravizados e enviados para as Américas através do comércio de escravos atlânticos entre os séculos XVI e XIX, com suas maiores populações no Brasil , nos Estados Unidose no Haiti .

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

O Intruso

Tradução de Leonardo Fróes

Na década de 1940, quando o Sul dos Estados Unidos pegava fogo por conta dos conflitos raciais, Lucas Beauchamp, um fazendeiro “negro que tratava as mulheres de madame”, é encontrado inconsciente, com uma arma recém-disparada na mão e um cadáver sob o corpo. Acusado de assassinar um homem branco, ele jura ser inocente. A população, no entanto, quer linchá-lo, sem julgamento. Por mais que a cadeia que o prende – e também o protege – seja reforçada, a fúria irracional dos racistas não tem limites. Um crime tão hediondo precisa ser vingado com sangue.

Outra obra de William Faulkner

Filmes baseados em Faulkner

Títulos em português do Brasil
  • 1933 Levada à Força (Story of Temple Drake, direção de Stephen Roberts); baseado em Santuário
  • 1949 O Mundo Não Perdoa (Intruder in the Dust, direção de Clarence Brown); baseado em O Intruso
  • 1958 O Mercador de Almas (The Long Hot Summer, direção de Martin Ritt); baseado em A Aldeia e nos contos Cavalos Malhados e Barn Burning
  • 1958 Almas Maculadas (The Tarnished Angels, direção de Douglas Sirk); baseado em Pylon.
  • 1959 A Fúria do Destino (The Sound and the Fury, direção de Martin Ritt); baseado em O Som e a Fúria
  • 1961 Santuário (Sanctuary, direção de Tony Richardson); baseado em Santuário
  • 1969 Os Rebeldes (The Reivers, direção de Mark Rydell); baseado em Os Desgarrados
  • 2013 Último Desejo (As I Lay Dying, direção de James Franco); baseado em As I Lay Dying
  • 2014 O Som e a Fúria (The Sound and the Fury, direção de James Franco); baseado em O Som e a Fúria

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Colson Whitehead

Geledés, Instituto da Mulher Negra

29/05/2017


‘Voltei do Brasil decidido: me tornaria um escritor’, diz Colson Whitehead

Vencedor das mais recentes edições dos prêmios Pulitzer e National Book, como melhor livro de ficção, “The underground railroad — Os caminhos para a liberdade”, lançado agora no Brasil, não teve um parto fácil. A ideia de uma narrativa centrada nas terríveis relações étnicas nos EUA já estava na cabeça de Colson Whitehead antes mesmo de ele publicar seu primeiro livro, “A intuicionista”, em 1999. Mas o autor não se sentia preparado para a tarefa.


Recém-saído da Universidade de Harvard, Colson se empregou como crítico de TV no já decadente “Village Voice”. O ano era 1994, e os colegas do semanário o incentivaram a deixar o batente de lado, colocar uma mochila nas costas e visitar o outro país de dimensão continental das Américas cuja economia fora sustentada durante séculos por trabalho escravo.
A visita ao Brasil e, especialmente, a releitura, anos depois, de “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez, viraram peças cruciais no quebra-cabeças de “The underground railroad”. Tão brutal quanto fantástica, a narrativa recebeu elogios entusiasmados de Oprah Winfrey e do ex-presidente Barack Obama, ultrapassou a marca do milhão de exemplares vendidos depois de entrar no popular clube de livros da apresentadora, e vai virar série da Amazon, em adaptação de Barry Jenkins, diretor de “Moonlight: sob a luz do luar”, com produção da Plan B de Brad Pitt, ainda sem data de lançamento.
— Nunca havia saído do meu país e era um menino de 24 anos quando cheguei ao Brasil. Rio, Salvador e São Paulo foram as minhas três primeiras experiências de “estrangeiro” — conta Colson, que segue: — Não tinha grana alguma, e os brasileiros estavam ligados, curiosamente, nos EUA, onde acontecia a Copa do Mundo, que iriam vencer. A cada semana as pessoas ficavam mais animadas nas ruas, e eu me percebia um ser solitário, sem grana, hospedado em pensões simples, pensando em ideias que acabaria usando em meus livros. Voltei do Brasil decidido: me tornaria um escritor.
Comparações com Ralph Ellison e Thomas Pynchon
Críticos encontraram em “The underground railroad” parentescos com o “Homem invisível” (vencedor do prêmio National Books em 1953), do também afro-americano Ralph Ellison (1914-1994), e o “Arco-íris da gravidade” de Thomas Pynchon (que recebeu o mesmo prêmio em 1974). Colson, cuja dificuldade de falar sobre seu próprio trabalho é notória, prefere dizer que seu livro nasceu de algo igualmente caro a Ellison, Pynchon e García Márquez: o uso do fantástico para contar uma história recheada de temas sociais e políticos.
De certa forma, já havia sido assim em “A intuicionista”, quando ele se debruçou sobre a vida da primeira funcionária negra responsável pela fiscalização dos elevadores nos prédios de uma cidade que, nas palavras de John Updike (1932-2009), em uma laudatória crítica na “New Yorker”, “está para Nova York como a Gotham de Batman”. E “Zone one” (2011) é um romance humanista cuja ação se dá em pleno surto de um vírus que leva zumbis a dominar o planeta.
Há dois momentos de ruptura no mais festejado e premiado dos seis livros de ficção de Colson. E são eles que transformam decisivamente a história da terrível existência de Cora, disposta a fugir das sinas de sua mãe e avó, forçadas a colher algodão para senhores sulistas em uma plantationna Geórgia. O primeiro é quando o autor joga por terra a metáfora da “ferrovia subterrânea”, como os abolicionistas descreviam a rede de apoio que ajudou a esconder dezenas de milhares de escravos do sul em fuga em direção ao norte do país, antes e durante a Guerra de Secessão Americana (1861-1865). No livro, a ferrovia do século XIX tem túneis, trilhos, condutores e passageiros.
A segunda ruptura se dá quando Colson decide contar a experiência de Cora e de seu parceiro de fuga, Caesar, através das nuances das relações étnicas nos estados em que eles se escondem. É a geografia da infâmia — com capítulos intitulados, não por acaso, Geórgia, Carolina do Sul, Carolina do Norte, Tennessee e Indiana —, que oferece ao autor a possibilidade de explorar diversas facetas do racismo. O leitor é testemunha das torturas mais hediondas, do complicado sistema hierárquico nas sedes das fazendas e nos centros urbanos, mas também nas senzalas, e do arquitetar de futuros cidadãos de segunda classe em um processo contínuo e cada vez mais sofisticado de discriminação racial.
— É como se cada estado fosse uma América diversa, com estágios variados de brutalização dos negros, que não são uma massa compacta, vivem realidades diversas, sempre sob a sombra do racismo — diz Colson.
O autor escolheu uma protagonista para o livro justamente porque as mulheres estavam na base da pirâmide social da escravidão, ainda mais expostas à violência sexual, de senhores, capatazes e outros escravos. A lógica da reprodução também é especialmente perversa, já que filho, no modelo escravocrata dos EUA, viraria mais um bem para os senhores.
“The underground railroad” foi escrito em 2015, no fim da longa administração Obama. O livro dialoga, mas de acordo com Colson, “quase sem querer”, com um momento cultural marcado por produções recentes do cinema americano —“Django livre” (2012), “Doze anos de escravidão” (2013), os documentários “Eu não sou seu negro” (2016) e “A 13ª Emenda” (2016), além do próprio “Moonlight” (2016) — que buscam rediscutir as raízes e a permanência do racismo no país hoje manchado por uma enorme população carcerária afro-americana e por evidências de tratamento desumano de policiais a negros, denunciadas pelo movimento Black Lives Matter. O próximo livro do autor, em estágio inicial, tratará do tema de uma forma “menos direta” e se passará na Flórida dos anos 1960.
— Durante séculos, os EUA foram governados pela ótica da supremacia branca. Basta pensar na volta do nacionalismo caucasiano no diálogo político depois da emergência de Donald Trump para pensar que, de certa forma, eles ainda são. Tratar de racismo no século XIX ou nos anos 1960 é, no fim, lidar, invariavelmente, com o tema nos dias de hoje também. Isso está muito claro no que escrevo e na minha crença de que só há uma saída para nós: a educação.
“The underground railroad — Os caminhos para a liberdade”
Autor: Colson Whitehead
Tradução: Caroline Chang
Editora: HarperCollins
Páginas: 320
Preço: R$ 44,90
A certa altura do romance The Underground Railroad, do escritor americano Colson Whitehead, um homem que está ajudando a protagonista, a jovem Cora, a fugir da escravidão na Geórgia, embarca-a com seu companheiro de fuga em um trem clandestino, e os despacha com um conselho jovial: "Se quiserem ver do que é feita essa nação, é o que sempre digo, vocês têm de percorrer os trilhos. Olhem para fora à medida que acelerarem e vão ver a verdadeira face da América". Um satirista de olhar agudo e indignado, Whitehead esconde nesta singela frase duas provocações que servem também como chave para a leitura do romance. Como a ferrovia é toda subterrânea, o que Cora poderia ver pelas janelas do seu vagão seriam apenas trevas – uma descrição bastante precisa da condição da população negra em um país em que a escravidão é considerada legal. Ao mesmo tempo, a cada parada de Cora ao longo de sua fuga, uma fugidia segurança é logo substituída pela constatação de que não há lugar seguro para ela em Estados em que é propriedade alienada e sua própria humanidade é questionada.
Laureado com o Prêmio Pulitzer 2017, The Underground Railroad: os Caminhos para a Liberdadeestá saindo agora no Brasil pelo braço local da editora Harper Collins – que, no início deste ano, deixou de ser um selo da Ediouro e agora opera como editora autônoma. O romance narra a luta por liberdade de Cora, jovem cativa numa fazenda de algodão na Geórgia, cuja administração é dividida entre os dois irmãos Randall, os proprietários. Quando um deles morre subitamente e Cora se vê transferida, com o resto da fazenda, para as mãos do mais taciturno e cruel dos irmãos, ela aceita o convite de um escravo recém-chegado para fugir, desaparecendo na "ferrovia subterrânea" em direção aos Estados do Norte, onde a escravidão não é legalizada. No meio da tentativa, a fuga se complica, e Cora e seu parceiro de fuga, Caesar, são alvo da obstinada caçada movida por um caçador de recompensas com motivos aparentemente pessoais para não desistir de suas presas.
Ficção aborda chaga histórica
-lhes um teto e uma ajuda até a próxima "estação" – para a qual viajavam ocultos em vagões, em carroças de suprimentos ou mesmo a pé, por rotas vicinais pouco frequentadas. Organizadas como pequenas células subversivas, cada "estação" sabia muito pouco sobre as demais, apenas o suficiente para encaminhar os fugitivos à próxima parada.
Autor que se tornou fenômeno literário em 1999 com a publicação de seu romance de estreia A Intuicionista (lançado em 2001 no Brasil pela Companhia das Letras), Whitehead tem sua própria maneira de retratar essa ferrovia da liberdade. Se em seu primeiro livro ele descrevia uma realidade sutilmente paralela em que a manutenção de elevadores era um ponto crucial da sociedade, capaz de gerar acirradas disputas políticas e tramas conspiratórias, no universo descrito em The Underground Railroad a ferrovia subterrânea não é a metáfora para uma rede clandestina, mas uma estrada de ferro real, escavada no subterrâneo sob toneladas de rocha e terra: "O túnel, os trilhos, as almas desesperadas que encontravam salvação coordenando as estações e as grades de horário – aquilo sim era uma maravilha da qual se orgulhar", pensa Cora, ao comparar a construção de um dos ramais, supostamente também realizada por escravos, com o trabalho nas fazendas de seus patrões.
O tom entre fantástico e irônico que Whitehead burilou ao longo de seus livros anteriores é amenizado um tanto neste romance, em parte devido à gravidade do tema. Ao mesmo tempo, o cruzamento da sobriedade narrativa com a sucessão de episódios e personagens ao longo da fuga de Cora produz uma saudável inquietação. Afinal, por mais que Whitehead esteja inventando uma ferrovia escavada clandestinamente sob quilômetros de rocha sólida, são as partes mais horrendas da narrativa, aquelas dedicadas ao relato da chaga da escravidão, as mais reais – e, portanto, mais perturbadoras.