segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Técnicas diferentes para livros ambientados no passado ou nos dias atuais

Foi neste texto, extraído das últimas páginas da obra Roubada, que me encantei com a possibilidade de escrever. Técnicas diferentes para cada cenário - dias atuais ou passado.
*devidos créditos autorais à Editora Novo Conceito.
 
Lesley Pearse é uma das escritoras mais queridas do Reino Unido, com fãs em todo o planeta e mais de 2 milhões de livros vendidos até hoje.
Uma autêntica contadora de histórias e mestre em criar tramas envolventes, que mantêm os leitores encantados do começo ao fim, Lesley apresenta aos seus leitores personagens inesquecíveis, impossíveis de ser ignoradas. Não é fácil definir um gênero ou fórmula especifica - seus livros, sejam romances policiais, como Till we meet again, romances históricos, como Never look back, sejam o emotivo e emocionante Trust me, baseado no escândalo da vida real das crianças migrantes britânicas enviadas para a Austrália no período pós-guerra, envolvem completamente os leitores.
 
A verdade é mais estranha que a ficção, e a vida de Lesley está tão recheada de drama quanto os seus livros. Ela tinha três anos quando sua mãe morreu em circunstâncias trágicas. Seu pai estava em alto-mar, e foi somente quando um vizinho viu Lesley e seu irmão brincando no jardim sem casacos que se levantou a suspeita: a mãe havia morrido há algum tempo. Com o pai servindo nos Fuzileiros Reais, eles passaram três anos em orfanatos sombrios antes que ele voltasse a se casar (com uma nova esposa que era um verdadeiro dragão, uma ex-enfermeira do Exército). Lesley e o irmão foram trazidos de volta para casa para se juntar a duas outras crianças que ficavam sob a guarda da família. O impacto da mudança e da incerteza constantes nos primeiros anos de Lesley se reflete em um dos temas recorrentes em seus livros - o que acontece com aqueles que sofrem traumas emocionais na infância. Ela teve uma infância extraordinária e, em todos os seus livros, Lesley combinou magistralmente a dor e a infelicidade de suas primeiras experiências com um dom singular de contar histórias.
Quando criança, sua necessidade desesperada de amor e afeição certamente foi a razão de ter escolhido mal os homens com quem se relacionou na juventude. Presença constante em festa durante a década de 1960, Lesley fez de tudo - foi baby-sitter, bunny girl e designer de roupas. Morou em quitinetes emboloradas enquanto trabalhava longos períodos como um "Dolly bird", com minissaias de 25 centímetros. Ela se casou com seu primeiro marido aos 20 anos - um casamento que não durou muito - e conheceu o segundo, John Pritchard, que tocava trompete em uma banda de rock, pouco tempo depois. Seu romance de estréia, Georgia, foi inspirado em sua vida com John, os bares de Londres , seus gerentes desonestos, e vários músicos que ela conheceu naqueles anos, incluindo David Bowie e Steve Marriot da banda Small Faces. A primeira filha de Lesley, Lucy nasceu neste período, mas o estilo de vida inconstante de John e o fato de ter uma criança pequena em casa fizeram com que o casamento fracassasse. Eles se separaram quando Lucy tinha 4 anos.
Aquele foi um ponto de mudança na vida de Lesley - ela era jovem e estava sozinha, com uma filha pequena para criar - mas, em outra reviravolta do destino, Lesley conheceu seu terceiro marido, Nigel, enquanto viajar para Bristol para uma entrevista. Eles se casaram alguns anos depois e tiveram duas filhas, Sammy e Jo. Os anos seguintes foram os mais felizes de sua vida - ela coordenou um grupo de teatro, começou a escrever contos e abriu uma loja de presentes e cartões em Clifton, na região de Bristol. Escrever à noite, cuidar da loja durante o dia e encaixar todas as outras tarefas do lar nas brechas que apareciam, juntamente com as necessidades do marido e das criança, foi difícil.
"Uma estranha compulsão não me deixava parar de escrever, mesmo quando parecia não haver esperança naquilo", ela diz. "Eu escrevi três livros antes de Georgia, e depois surgiu Darley Anderson, que se ofereceu para ser o meu agente. Mesmo assim, mais seis anos de decepções e imensos períodos reescrevendo material se seguiram antes de finalmente encontrarmos uma editora."
Houve mais problemas, entretanto, quando a loja de Lesley faliu na recessão da década de 1990, deixando-a com uma montanha de dívidas e com o orgulho ferido. Seu casamento de 18 anos havia chegado ao fim, e, aos 50 anos, ela sentia que havia chegado ao fundo do poço. Parecia que ela estava de volta à estaca zero, em um apartamento velho, e sequer tinha dinheiro para que sua filha mais nova pagasse o ônibus até a escola.
"Escrever foi o meu passaporte para sair daquela vida", diz ela. "Meu segundo livro, Tara, foi indicado para o prêmio de Literatura Romântica do Ano, e eu sabia que estava a caminho do sucesso."
A própria vida de Lesley é uma rica fonte de material para os seus livros. Seja ao escrever sobre as dores do primeiro amor, a experiência de ser uma criança indesejada e vítima de abusos, adoção, rejeição, medo, pobreza ou vingança; ela conhece tudo isso em primeira mão. Ela é uma guerreira, e com a sua longa luta pelo sucesso veio a segurança. Ela hoje possui uma casa antiga em uma bela vila entre Bristol e Bath, a qual está sendo renovada, e um refúgio à beira de um riacho em Cornwall. Suas três filhas, seu neto, amigos, cães e o jardim lhe trouxeram muita felicidade. Ela é presidente da filial de Bath e West Wilsthire da Sociedade Nacional para a Prevenção de Crueldade contra as Crianças - a instituição filantrópica mais próxima do seu coração.
 
Sobre Roubada
Qual foi a sua inspiração para Roubada e a garota sem nome na praia?
Eu estava caminhando por uma praia com meus cachorros um dia e imaginei encontrar uma garota que o mar tivesse trazido até a praia. Aquilo me levou a pensar em todas as diferentes razões pelas quais ela poderia estar naquela situação - ter caído de um navio, ter sido jogada ao mar ou ter tentado se matar. E aí, é claro, eu tentei imaginar o que a teria levado a fazer isso.
Uma característica importante da história de Lotte e Dale é como elas se conheceram enquanto trabalhavam juntas em um navio de cruzeiro. O que a levou a escolher este cenário no navio?
Um dos possíveis cenários que idealizei foi o de uma garota que havia sido empurrada de um navio de cruzeiro. Então, comprei uma passagem em um navio que iria à América do Sul, na esperança de encontrar alguma inspiração. Infelizmente, nunca gostei de escrever sobre pessoas que são ricas de verdade, e aquele cruzeiro estava cheio delas. A maior parte daquelas pessoas era tão entediante quanto água parada! A minha atenção então se voltou para os funcionários e a tripulação. Eles tinham que trabalhar por longos períodos, tinham de ser dinâmicos e agradáveis o todo o momento, e a maioria deles só ficava naquela vida até conseguir dinheiro o bastante para financiar seu sonho pessoal de ter seu próprio salão de beleza ou de cabeleireiros. Gostei de muitas daquelas jovens - elas eram corajosas, divertidas e empreendedoras. Gostava de como elas faziam amizades com outras pessoas da equipe de funcionários, e também do fato de elas não reclamarem da vida. Assim, há muito tempo, já havia criado os personagens de Lotte e Dale. Tudo que eu tinha de fazer era descobrir outra maneira para que o corpo aparecesse na praia.
Lotte parece ser muito frágil e bonita, e mesmo assim ela se revela uma pessoa forte, uma rocha que dá todo o apoio que Dale precisa. Você acha que as pessoas sempre superam as expectativas?
Quase sempre. Eu também descobri que aqueles que tiveram as infâncias mais difíceis são as pessoas mais corajosas, bondosas e criativas de todas.
Roubada se passa nos dias atuais, embora muitos de seus livros sejam ambientados no passado, em períodos históricos fascinantes. Os dois tipos de romances exigem técnicas muito diferentes para serem criados?
Certamente que sim. De certa forma, é mais fácil escrever um livro ambientado nos dias de hoje porque ele não precisa da mesma quantidade de pesquisa, mas eu prefiro escrever romances históricos. Parte disso é o fato de eu adorar história. Para mim, não é problema ler dúzias de livros, visitar museus e bibliotecas, especialmente visitar lugares como a Crimeia e o Alasca para recriar eventos que aconteceram ali há muito tempo.
Mas, além disso, há muito mais drama em cenários históricos, porque as pessoas comuns realmente tinham muitas dificuldades naquele tempo. A pobreza era terrível, não havia assistência médica, e quase nenhuma educação formal. Era a sobrevivência do mais forte. Para ilustrar este ponto, imagine que eu estivesse escrevendo dois livros lado a lado, ambos ambientados no mesmo apartamento, no subsolo de um prédio no East End de Londres; um nos dias atuais, e outro na virada do século. No livro histórico eu poderia ter uma mãe de seis filhos morrendo de tuberculose, o apartamento sem calefação e embolorado, as crianças forçadas a esmolar pelas ruas para conseguir comprar remédios e comida. Sabemos que apenas uma grande reviravolta do destino irá mudar a vida deles. A história nos dias atuais poderia ser tão melancólica quanto a histórica, se fosse sobre uma mulher jovem, usuária de drogas ou uma família de imigrantes que quase não sabe falar inglês. Ainda assim, todos perceberiam que, apesar de suas vidas serem tristes e problemáticas, eles não irão morrer de fome ou por falta de tratamento médico, devido à proteção do sistema de seguridade social. É ótimo para a humanidade, mas, em uma história, ele reduz os fatores de compaixão e medo.
Além de tudo, eu também tenho que me preocupar com a ciência da investigação forense nos livros atuais. Há cem anos, o crime era resolvido com a polícia trabalhando penosamente. Hoje, a polícia pode capturar alguém apenas encontrando um fio de cabelo na cena do crime. Eu acho que isso restringe as ideias.
Lotte, como vários personagens em seus livros, passou por dificuldade inacreditáveis, desde a infância, e mesmo assim continua corajosa. Foi este quesito que você utilizou para conceder o Prêmio "Mulheres de Coragem" de 2009. Pode nos falar mais sobre as mulheres que conheceu?
Eu conheci muitas mulheres maravilhosas que pensam muito mais nos outros do que em si mesmas, nunca reclamam. Algumas têm filhos com problemas sérios e permanentes de saúde, que precisam de cuidado 24 horas por dia, sete dias por semana. Outras perderam seus filhos devido a doenças ou lesões, e mesmo assim oferecem apoio e ajuda a outras mães com filhos doentes. Tivemos uma mulher maravilhosa que, embora ela mesmo estivesse doente, acometida por uma doença rara no sangue, trazia crianças da área de Chernobyl para a Escócia para que pudessem se tratar. Havia várias mulheres gravemente incapacitadas que estudaram duramente, contra todas as previsões, para obter qualificações. Assim, poderiam arranjar um bom emprego e se sustentar. Há muitas cuidadoras que são fonte de inspiração para outras pessoas, outras que tiraram seus parentes de uma vida de abuso de álcool e drogas, e outras que foram abusadas por seus parceiros, e que agora ajudam outras mulheres que estão passando pela mesma situação.

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