segunda-feira, 29 de agosto de 2016

E a história se repete...

Sim. Constatei.
O autor Pat Conroy repete não apenas o cenário (Carolina do Sul, onde viveu).
Repete dramas (vergonha, ódio, tristeza, perdão), personagens (filhos menosprezados, solitários, violentados; pais traumatizados, severos), e psicoses (demência, esquizofrenia, depressão, alcoolismo).
Porém, ele atingiu o objetivo para mim importante neste momento: foi meu remédio, meu placebo.
Jaime Bulhosa definiu bem como pode ser a leitura para cada um: pode mudar sua vida ou simplesmente ser uma distração...

Trechos do livro O Príncipe das Marés:

Neste primeiro trecho me identifiquei como "boa cidadã, pagadora de impostos e omissa em causas grandiosas e humanitárias, ou mesmo em conscientização política".

- (...) Invejei nele a liberdade de se deixar levar pela fúria de suas crenças, armado com uma emoção que jamais vou conhecer ou sentir. Tenho inveja do fato de Luke alarmar todo o país com o frio arrebatamento que coloca em sua maldita fé. O motivo  pelo qual preciso detê-lo, Savannah, é porque, no mais profundo do meu ser, acredito na integridade de sua guerra particular contra o mundo. Por acreditar tão profundamente nela, o compromisso dele é um constante lembrete de tudo o que já cedi. Fui domado por hipotecas, prestações de automóveis, planos de aulas, crianças e uma esposa com sonhos muito mais ambiciosos que os meus. Estou vivendo numa comunidade, assistindo ao noticiário das sete e fazendo as palavras cruzadas do jornal, enquanto meu irmão come peixe cru e trava uma guerra contra um exército de ocupação que roubou o único lar que  tivemos. Não sou um fanático ou um sabotador, sou um bom cidadão. É isso que digo a mim mesmo. Tenho deveres e responsabilidades. Mas Luke me provou alguma coisa. Mostrou que não sou um homem de princípios, de fé ou mesmo de ação. Tenho a alma de um colaborador.  Tornei-me exatamente o tipo que mais odeio no mundo. Tenho um belo gramado e nunca recebi uma multa por excesso de velocidade.

Neste segundo trecho, me identifiquei com a depressão, com o isolamento preferido por aqueles ditos, de alguma forma, psicóticos. 

(...)  Seu espírito fora alienado para fora da carne. Havia uma imobilidade mineral em sua calma, uma qualidade imaculada no conjunto tenebroso de sua catatonia. O catatônico sempre me pareceu o mais santo dos psicóticos. Há integridade em seu voto de silêncio e algo de sagrado em sua renúncia aos movimentos. É o drama mais silencioso de uma alma inacabada, o próprio ensaio geral para a morte. Eu já vira minha irmã não se mexer anteriormente e a encarei desta vez como um veterano de sua incurável quietude. Na primeira vez, eu me desfiz e escondi o rosto entre as mãos. Agora, recordava algo que ela me dissera: que, bem lá no fundo de sua imobilidade e solidão, seu espírito estava cicatrizando-se nos lugares mais inatingíveis, minerando as riquezas e os minérios escondidos nas galerias mais inacessíveis de sua mente.

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