domingo, 6 de março de 2016

Campo de refugiados

Encantada com a narrativa de O que é o Quê, aprendi que há realidades urgentes que não são televisionadas ou noticiadas com a mesma frequência que a "novidade". Significa que a tragédia de hoje nos é contada somente hoje e achamos que ela se resolveu. Não é verdade.
Temos guerras civis, temos catástrofes, tragédias, desastres ambientais em cada ponto do planeta e as consequências duram anos e mais anos.
E deixamos de acompanhar o desfecho daquela "novidade" por termos outras novas tragédias.
Ou, simplesmente, porque não gostamos de ouvir sobre as desgraças alheias.

Com o relato da vida de Valentino, um menino perdido do Sudão, tive uma pequena noção do que são os campos de refugiados:

"No Ocidente, imagina-se que os campos de refugiados sejam algo temporário. Quando são mostradas imagens dos terremotos no Paquistão, e os sobreviventes são vistos em suas imensas cidades de barracas cinzentas, esperando comida ou socorro antes da chegada do inverno, a maioria dos ocidentais acredita que esses refugiados logo poderão voltar para suas casas, que os campos serão desmantelados em menos de seis meses, talvez em um ano.
Mas fui criado em campos de refugiados. Morei em Pinyudo durante três anos, em Golkur por quase um ano e em Kakuma durante dez anos." pg. 401
Pinyudo - Etiópia
Golkur -
Kakuma - Quênia

respeitados os direitos autorais

"Os turkana, um povo de pastores que ocupava o distrito de Kakuma havia mil anos, de repente teve de dividir sua terra - ceder quatrocentos hectares em segundos - com dezenas de milhares de sudaneses, e mais tarde somalis, com quem compartilhavam poucas semelhanças culturais. Os turkana se ressentiam da nossa presença, e os sudaneses, por sua vez, se melindravam como os quenianos, que pareciam ter ocupado todos os cargos remunerados do campo, executando e sendo pagos por tarefas que nós, sudaneses, éramos mais do que capazes de realizar em Pinyudo. pág 401

"O que era a vida em Kakuma? Seria mesma vida? Havia controvérsias a respeito. Por um lado, estávamos vivos, o que significava que tínhamos uma vida, que estávamos comendo e podíamos cultivar amizades, aprender e amar. Mas não estávamos em lugar nenhum. Kakuma era a mesma coisa que lugar nenhum. No início, disseram-nos que kakuma era uma palavra queniana que significa "lugar nenhum". Qualquer que fosse o significado da palavras, aquilo ali não era um lugar. Era uma espécie de purgatório, mais ainda que Pinyudo, que pelo menos tinha um rio onde sempre havia, água, e outras semelhanças com o sul do Sudão que havíamos deixado para trás. Mas Kakuma era mais quente, mais ventosa, muito mais árida. Era uma terra de pouco mato e poucas árvores; não havia florestas aonde ir buscar material; parecia não haver nada em um raio de muitos quilômetros, então nos tornamos dependentes da ONU para tudo." pág 404
Lei 9610/98
 

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