sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Trechos de obras, boas obras

A História Secreta, de Donna Tartt:

"A organização cronológica da memória é algo interessante. No período anterior ao meu primeiro final de semana na casa de campo, as recordações daquele outono se apresentam distantes e imprecisas. Daquele dia em diante, entram em foco, nítidas, perfeitas. Os manequins rígidos com quem travei conhecimento inicial espreguiçaram-se, bocejaram e ganharam a vida. Foram necessários meses até a remoção completa do véu de mistério e novidade, obstáculo para que eu os visse objetivamente. (...)"  pág 83

" 'Sabe', Francis disse, ao sairmos, 'certa vez cometi o erro de perguntar a Bunny se ele pensava no pecado.'
'E o que ele disse? ', Camila perguntou.
Francis riu. 'Ele disse: Claro que não. Eu não sou católico.' " pág 510.

Era normal, portanto, que sentissem sua falta, até que o pranteassem - é penoso quando alguém morre numa escola como Hampden, onde estávamos tão isolados, tão forçados a conviver. Surpreendeu-me, todavia, a demonstração generalizada de pesar que ocorreu quando seu falecimento tornou-se oficial. Pareceu-me não apenas gratuito, mas até vergonhoso, dadas as circunstâncias. Ninguém se importara muito com o desaparecimento, nem mesmo no final da busca, quando já se esperava que as notícias, quando surgissem, seriam ruins. Para o público, a busca não passou de uma inconveniência descomunal. Mas, com a divulgação da notícia de sua morte, as pessoas se comportaram de modo frenético. Todo mundo, de repente, o conhecera; todos ficaram arrasados de dor; todos iam tentar superar aquilo e levar a vida adiante, que jeito. "Ele teria desejado que fosse assim." Ouvi a frase a semana inteiro, na boca de gente que não tinha a menor ideia do que Bunny desejava. Funcionários da universidade, carpideiras anônimas, estranho que se amontoavam e choravam na porta dos salões de jantar. A Junta Diretora, num comunicado, disse que "em harmonia com o espírito incomparável de Bunny Corcoran, bem como em consonância com os ideais humanistas e progressivas de Hampden College", uma doação generosa seria feita, em nome dele, ao Movimento pelas Liberdades Civis Americanas - uma organização que Bunny abominaria, caso soubesse da sua existência.  pág 353, 354

(...) Naquele dia, discutia-se a perda do ego, as quatro loucuras divinas de Platão, a loucura em suas diversas manifestações; ele começou a falar sobre o fardo do ego, como o chamava, e o motivo primordial que levava as pessoas a desejar a perda do ego.
"Por que uma vozinha obstinada, dentro de nossas cabeças, nos atormenta tanto?", disse, olhando em torno da mesa. "Quem sabe por nos lembrar de que estamos vivos, de que somos mortais e possuímos uma alma individual - que nos amedronta tanto entregar e, no entanto, nos leva ao desespero, mais do que qualquer outra coisa? Não é dor, porém, que nos dá consciência do ego? É terrível descobrir, na infância, que o indivíduo vive isolado do mundo inteiro, que ninguém e mais nada pode sofrer a dor da sua língua queimada ou joelho ralado, que os sofrimentos e pesares pertencem apenas a cada um. Mais terrível ainda, quando crescemos, é aprender que nenhuma pessoa, por mais que nos ame, pode nos compreender verdadeiramente. Nossos egos nos tornam muito infelizes, e por isso sentimos tanta ansiedade para perdê-lo, não concordam? Lembram-se das Erínias?"
"As Fúrias?", Bunny disse, os olhos faiscantes, perdidos atrás da franja caída. 
"Exatamente. E como levavam as pessoas à loucura? Aumentavam o volume do monólogo interior, ampliavam características já existentes ao exagero, faziam que as pessoas fosse elas mesmas até o nível insuportável. " pág. 43

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