terça-feira, 26 de maio de 2015

Peregrinação em Rotas Brasileiras

Para onde vou minhas férias?

Mônica Campos, em artigo publicado no site Associação Brasileira dos Amigos de Caminho de Santiago me dá algumas dicas.
Nas últimas décadas, houve um 'boom' de circuitos para peregrinação no Brasil: Caminho do Sol (SP), Caminho da Luz (MG), Caminho da Fé (MG/SP), Caminho das Missões (RS), Passos de Anchieta (ES), Nos Passos do Padre Ibiapina (PA). É um fenômeno que tem suas raízes no descobrimento que os brasileiros fizeram da rotas do Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, a partir da leitura do livro O Diário de um Mago de Paulo Coelho. São várias rotas possíveis no Caminho à Santiago de Compostela: Caminho Francês, Caminho Português, Via de la Plata, Caminho do Norte, Caminho Aragonês etc. O Brasil é o país de fora da Europa que mais envia peregrinos a Compostela. Há até uma Associação dos Amigos do Caminho de Santiago (AACS-Brasil) com sede no Rio de Janeiro e regionais em todo o Brasil que ajuda na preparação de quem vai peregrinar na Espanha realizando reuniões, caminhadas, palestras e depoimentos de quem já foi para partilhar a experiência.
E parece que a experiência de caminhar pelas rotas de fé "jacobeas" (Jacob=Tiago) incorporou-se à espiritualidade das pessoas que por lá foram, a ponto de muitos criarem associações e rotas de peregrinação no Brasil.
Passos de Anchieta é o nome do roteiro que reconstitui a trilha habitualmente percorrida pelo Padre Anchieta nos seus deslocamentos da Vila de Rerigtiba, atual cidade de Anchieta, à Vila de Nossa Senhora da Vitória onde cuidava do Colégio de São Tiago. São 4 dias caminhando ao longo de uma extensa faixa litorânea de Anchieta a Vitória  no total de 100km, com uma jornada média de 4 a 5 horas de caminhada. 
O Caminho das Missões, no Rio Grande do Sul, é relacionado ao mito indígena da Terra Sem Males e as missões jesuíticas que foram utilizadas para catequizar e colonizar a América Latina. Há 3 roteiros para caminhadas, que depende da cidade por onde começa a  peregrinação: 3 dias a partir de São Miguel das Missões, percorrendo 72km, 7 dias a partir de São Nicolau, totalizando 170km e por fim, 13 dias, saindo da cidade de São Borja perfazendo 325km. Todos finalizam na cidade de Santo Ângelo.
O Caminho do Sol é fundamentalmente inspirado no Caminho de Santiago. A cidade de Águas de São Pedro fundada no dia 25 de julho, dia Santiago, e local onde termina a peregrinação, tem como padroeiro o santo e apóstolo Tiago, em decreto promulgado por Dom Moacyr Vitti em 2003, bispo da diocese de Piracicaba. Em matéria do "Mais Você", programa de Ana Maria Braga na rede Globo, o Caminho do Sol foi descrito como "a versão paulista do Caminho de Santiago".
O idealizador do Caminho da Luz, Albino Neves, depois de peregrinar em Santiago, Palestina, Roma, Jordânia e Fátima (Portugal) foi intuído a criar o Caminho da Luz, uma rota de peregrinação que tem início em Tombos (Portal de Minas), onde está situada a quinta maior cachoeira em volume de queda d'água do país, e é concluído no Pico da Bandeira, o terceiro mais alto do país e o primeiro mais alto acessível. "São 195 quilômetros percorridos pelas montanhas de Minas em 7 dias de caminhada (ou em menos, se de bicicleta ou a cavalo), passando por fazendas centenárias, matas, cachoeiras, santuários e antigas estações ferroviárias."
O Caminho da Fé termina no Santuário de Aparecida do Norte, padroeira do Brasil e é a rota mais extensa dos caminhos brasileiros, alcançando 497km a partir da cidade de Descalvado no interior do estado de São Paulo, num circuito que também passa pelo território mineiro.
Nos Passos do Padre Ibiapina é o caminho mais recente, desenvolvido a partir e outubro de 2003, implementado com o aporte financeiro do Sebrae-Paraíba. Padre Ibiapina é exemplo de fé e obras, com as próprias mãos e ajuda do povo nordestino construiu escolas, casas, igrejas, hospitais, cemitérios, açudes, obras de assistência, entre outras coisas. São 4 roteiros ou percursos de 1 a 3 pernoites, dependendo da rota escolhida.
Assim como não existe um único Caminho de Santiago, "senão uma rede de caminhos que levam a Santiago, alguns mais conhecidos e por isso mesmo melhor estruturados, outros menos divulgados e com pouca ou nenhuma oferta de albergue de peregrinos", conforme indica Paulo César Giordano, mestre em Ciências da Religião e estudioso sobre o Caminho de Santiago de Compostela, assim também no Brasil concretiza-se uma "rede de caminhos" ou "rede de peregrinações" formada por aqueles que foram caminhar na Espanha. Este parece ser um fenômeno brasileiro, relacionado principalmente a classe média e média alta da população brasileira.
Vários peregrinos que vão a Compostela também percorrem os caminhos do Brasil e concordam que há diferenças entre caminhar lá e aqui: "O Caminho de Santiago é o grande sonho de um peregrino", diz Djair do Rio de Janeiro. Djair também é experiente em caminhos brasileiros, já foi 4 vezes ao Caminho da Luz, 2 vezes ao Caminho da Fé e 1 vez ao Passos de Anchieta:
"Caminhar nos caminhos brasileiros também é muito bom. A gente conhece o povo do lugar. A simpatia e a hospitalidade de quem vive no interior deste Brasil. Vê como é o dia a dia desta gente que retira da terra o seu sustento. Tenho o prazer de ter uma prosa com o pessoal destes rincões. Tomamos uma cachacinha, tomamos um café, comemos um pedaço de aipim, etc.etc.Tudo colhido ali mesmo.Quando estou nos caminhos brasileiros procuro sempre conversar muito com o pessoal do lugar. Fiz muitos amigos com os sitiantes que moram à beira do caminho. Quando volto, em alguns lugares sou convidado para o almoço."
Mas nem tudo são flores pelos caminhos. Uma peregrina que prefere não se identificar, percorreu dois caminhos do Brasil: do Sol e da Luz. E faz críticas quanto à organização dos caminhos brasileiros:
"Os caminhos brasileiros quase sempre têm "donos". A gente precisa pedir autorização para fazê-los. O Caminho do Sol tem que se pagar pela autorização de caminhar, além da despesa com hospedagem e comida. A infra-estrutura é precária e não se pode caminhar o quanto o caminhante quer ou pode e sim o quanto é necessário para chegar até o ponto onde tem lugar para dormir e comer. Os "hospitaleiros" não são peregrinos e visam, antes de tudo, ao lucro. Nos dois caminhos a decepção foi maior que o prazer de caminhar. Depois disso, fiquei muito reticente quanto a voltar a caminhar por aqui."
Independente das contradições que existem peregrinar é uma experiência marcante carregada de símbolos. O padre Armindo dos Santos Vaz exprime a experiência da peregrinação da seguinte forma:
"A peregrinação amplia e enriquece com uma experiência de Deus mais intensa, festiva e emotiva, os limites da nossa habitual visão do mundo. Pessoas de várias culturas, etnias, línguas, idades e procedências, marcadas por múltiplas situações humanas de sofrimento e de esperança, convergem para um ponto comum, ao encontro do outro, para partilhar pedaços de vida e procurar na peregrinação algo que está para além do ordinário e finito da existência humana. Assim antecipam a humanidade ideal e a fraternidade universal, reunida no Espírito do único Deus. A peregrinação exprime simbolicamente a grandiosa realidade do povo de Deus, que se mobiliza na procura do Deus vivo".
Paulo César, depois de pesquisar os livros publicados pelos peregrinos brasileiros, revela algumas peculiaridades:
"Em vários momentos se observa com clareza os elementos próprios do discurso da Nova Era e dos novos movimentos religiosos. Expressões como "energia" e "sinais do Universo" são muito recorrentes nos relatos, e aparecem para explicar, sempre de maneira muito subjetiva, uma experiência de ordem transcendental, por exemplo. É interessante notar que, se formos fazer uma comparação com relatos de peregrinos estrangeiros, por exemplo, de peregrinos espanhóis, veremos claramente que existe uma maneira bastante peculiar de escrever sobre a experiência jacobea entre os peregrinos brasileiros, indicando, possivelmente, um reflexo de como os brasileiros se relacionam com sua espiritualidade."
É certo que o milenar Caminho de Santiago foi o grande propulsor dos novos ou redescobertos caminhos brasileiros. O tempo "dirá" se isto é só uma moda ou um modo de viver espiritualidade.

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