sábado, 21 de fevereiro de 2015

Ser ou se sentir livre?!


Respeitando os direitos autorais de Cheryl Strayed em sua obra Livre  (tradutora Débora Chaves), preciso transcrever alguns trechos. Preciso externar o turbilhão de sentimentos que me proporcionaram as palavras reclamando palavras. É como defino as obras literárias: um monte de palavras reclamando palavras. Um monte de sinônimos (ou antônimos) numa busca incessante de traduzir sensações e descrever cenários e personagens.
 
E foi ontem mesmo que chorei, chorei e chorei. Simplesmente porque fui levar minha bicicleta para a oficina - uma revisão adiada por 15 meses. Um misto de ansiedade, medo, lembranças, excitação, receio, promessa, alegria, recomeço e conquista.

E já decidi que neste ano de 2015 farei uma caminhada como a de Cheryl, mesmo em proporções menores porque preciso estar sozinha... :) 
Porque preciso estar só... entendo que estas palavras podem chocar, porém não é esta minha intenção.  Só uso palavras fortes para contar sobre uma urgência.
Tudo pode ser diferente daqui a 3/4 meses. Pode ser que conclua (na volta) que não era exatamente o que imaginava; que as sensações foram outras e que estive com desconhecidos durante todo o percurso.
Só preciso ir...

Pag 145
A partida eles me deixou melancólica, embora também sentisse uma espécie de alívio qdo eles desapareceram entre as árvores escuras. Eu não precisava pegar nada na mochila; queria apenas ficar sozinha. A solidão sempre pareceu ser meu verdadeiro lugar, como se não fosse um estado de espírito e sim um quarto onde eu pudesse me refugiar e ser quem eu realmente era. A solidão radial no PCT mudou essa percepção. A solidão não era mais um quarto, mas o mundo inteiro, e nunca tinha ocupado antes. Viver livremente desse modo, sem um teto sobre a minha cabeça, fez com que o mundo me parecesse ao mesmo tempo maior e menor. Até então não tinha realmente entendido a vastidão do mundo – não tinha sequer entendido como um km podia ser tão vasto –, até que cada km fosse observado em velocidade de caminhada. E apesar disso tinha também o oposto, a estranha intimidade que vim a ter com a trilha; o caminho de pinheiros piñon e de flores-de-mico que encontrei naquela manhã e os riachos rasos que cruzei pareciam familiares e conhecidos, embora nunca os tivesse percorrido ou atravessado antes.

Pág. 280
Isso era o meu pai: o homem que não me criou. Isso sempre me impressionou. Repetidas vezes. De todas as coisas loucas, seu fracasso em me amar da maneira que deveria sempre foi a coisa mais louca de todas. Mas naquela noite, quando assistia ao anoitecer depois de cinquenta e tantas noites no PCT, passou pela minha cabeça que eu não precisava mais ficar impressionada com ele.
Havia tantas outras coisas impressionantes neste mundo.
Elas se abriram dentro de mim como um rio. Como se eu não soubesse que podia respirar e então respirasse. Eu ria com a alegria disso e no momento seguinte estava chorando minhas primeiras lágrimas na PCT. Chorei, chorei e chorei. Não estava chorando porque estava feliz. Não estava chorando porque estava triste. Não estava chorando por causa de minha mãe ou de meu pai ou de Paul. Estava chorando porque estava plena. Desses cinquenta e tantas dias difíceis na trilha e dos 9.760 dias que tinham vindo antes deles também.
Eu estava entrando. Eu estava saindo. A Califórnia se estendia atrás de mim como um longo véu de seda. Não me sentia mais uma idiota completa. E não me sentia uma porra de uma rainha amazona fodona. Eu me sentia determinada, humilde e forte por dentro, como se estivesse segura neste mundo também.

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