quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Champollion - quem foi?



Diante do grande e antigo Templo de Dendera, no Alto Egito, aqueles quinze homens sentiram-se petrificados. O luar brilhava através do pórtico, iluminando as centenas de hieróglifos e figuras entalhadas nas superfícies de arenito duro do templo. O chefe da expedição, Jean-François Champollion, mantinha um ar de calma, mas estava intimamente admirado. Desde menino ele havia sonhado com o Egito Antigo. Depois de ter estudado todos os livros sobre o Egito que conseguira, ele passara a conhecer esse país tão bem que vivia nele em seus sonhos e imaginações. Agora, em 1828, esse francês, curador do museu e professor de História, com 38 anos de idade, pisava o solo de uma terra que, embora antes distante, era como um lar para ele. Para os outros homens da expedição, Champollion, com sua pele escura e usando veste e turbante, parecia um habitante daquela antiga região. Eles o chamavam de "o egípcio".

Quando Champollion contemplou os belos e solenes hieróglifos inscritos nas colunas e paredes de Dendera, começou a fazer uma leitura deles... a primeira pessoa a fazer isso num período de quase dois mil anos. A misteriosa história daquela terra antiga começou a jorrar diante de seus próprios olhos. As lendas de poderosos reis, sacerdotes e deuses, foram contadas novamente. A terra dos mortos tornava-se viva!

Mas esse conhecimento concedido a Champollion não viera facilmente. Muitos outros haviam tentado adquirir os segredos do Egito. E por vezes tinham quase desvendado os mistérios, mas obstáculos imprevistos tinham-nos levado a desistir, desanimados. O que tornava Champollion diferente era sua genialidade lingüística e sua compulsiva e persistente paixão de conhecer o Egito. Ele conhecia mais de doze línguas, muitas delas do Oriente Próximo. Era uma das poucas pessoas, no começo do século dezenove, que conheciam o copta, língua que sucedeu ao egípcio antigo. Mas o que Champollion tinha acima de tudo era a disposição de seguir sua própria intuição, de abandonar a tradição quando ela era restritiva ou errônea. Ele teve de rejeitar conceitos que datavam de 2000 anos, à época de Heródoto, segundo os quais os hieróglifos seriam uma escrita puramente simbólica e pictórica. A revolução de Champollion consistiu em reconhecer a qualidade alfabética daqueles sinais.

A chave dessa revolução encontra-se agora no Museu Britânico, em Londres. Trata-se de uma pedra de basalto negro, muito desgastada e quebrada, entalhada com três formas de escrita: hieroglífica egípcia, demótica egípcia, e grega. Essa pedra foi descoberta perto da cidade de Rosetta (ou Rashid) — daí seu nome — durante a desastrada campanha de Napoleão no Egito, em 1799. Embora tenha sido um fracasso militar, essa expedição foi um sucesso arqueológico, já que os 150 eruditos e artistas que acompanhavam o exército de Napoleão catalogaram e desenharam os remanescentes do glorioso passado do Egito. E tropeçaram em um mundo desconhecido; mas os eruditos perceberam que, assim que fossem decifrados os hieróglifos da Pedra de Roseta, eles poderiam então conhecer alguma coisa daquela antiga civilização. Claramente, os dois textos egípcios eram traduções do grego. Seguramente, eles pensaram, seria simples decifrá-los. Mas não seria assim. Mais de vinte anos de infrutíferas sondagens e conjecturas passariam antes que o erudito francês, Jean-François Champollion pudesse anunciar ao mundo, em 1822, que resolvera o enigma.

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