domingo, 14 de setembro de 2014

De bordel para motel

"De bordel para motel não existe apenas uma mudança de sílaba. Você, hoje, liga uma televisão moderna, e corre o risco de ter de frente uma bunda, com remelexo provocante. O palavrão virou moda. Aquilo que, há vinte anos, era condenável, mesmo nos jornais, ou nas revistas, como a exibição do sexo, já entrou no rol das banalidades. Eu não condeno nem repilo. Limito-me a reconhecer que é assim. Muitas mães, mesmo nas casas austeras, colocam na bolsa das filhas adolescentes, juntamente com o batom e o vidrinho de perfume, as camisas-de-vênus. Filhas solteiras, com aprovação dos pais, já levam para o próprio quarto o namorado, e passam a noite com ele. Embora sejam muitas as exceções, tudo mudou. Tudo. E eu reconheço que me falta autoridade para censurar. Limito-me a estranhar. Ontem, recebi do Sul um dos jornais austeros, de grande tiragem, com duas páginas assinaladas a traços de lápis vermelho, dando destaque aos anúncios de moças e rapazes a se oferecerem para os atos sexuais mais absurdos, e a domicílio. E eram moças e rapazes de dezenove, de vinte anos! Com fotografia! Lindas jovens, realmente."
"Longe daqui, pude ver que o mundo novo não é mais o meu mundo. Fiquei para trás. Mas sem me revoltar. Quando fechei o meu bordel, não o fiz por protesto. Não. O mundo mudou, mesmo na minha área. A moral de agora é outra. Não há mais palavrões - diz-se o que se quer, sem ofender a orelha de ninguém. Os que protestam contra isso, indignados, não estão protestando - estão exibindo a certidão de idade. São velhos, e disso estão dando a prova."
Voz de Hortênsia, dona de um bordel na obra de Josué Montello, Sempre serás lembrada, de 1999.

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