sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Posfácio obra de Conn Iggulden

"A maior alegria que um homem pode ter é conquistar seus inimigos e persegui-los. Montar seus cavalos e tomar suas posses, ver o rosto de seus entes queridos cobertos de lágrimas e apertar nos braços suas mulheres e filhas" Gêngis Khan

Os acontecimentos da juventude que criaram Gêngis Khan são uma leitura extraordinária. Pouquíssimos relatos contemporâneos sobreviveram, e até o mais famoso deles, "A história secreta dos mongóis", quase foi perdido. O original encomendado por Gêngis, em sua língua, não sobreviveu aos séculos. Felizmente foi feita uma versão fonética em chinês, e é a partir desse escrito que temos a maior parte do que sabemos sobre Temujin dos borjigin - os lobos azuis. Uma tradução para o inglês, feita por Arthur Waley, tornou-se minha principal fonte para O Lobo das planícies.
Ainda que o significado exato do nome seja questionado, Temujin-Uge foi um tártaro morto por Yesugsei, que então deu ao filho o nome do guerreira derrotado. O nome tem semelhanças com a palavra mongólica para ferro, e este é o significado geralmente aceito, mas pode ser apenas coincidência. Temujin nasceu segurando um coágulo de sangue, o que teria amedrontado as pessoas que procuravam esse tipo de presságio. 
Temujin era alto para um mongol, como "olhos de gato". Mesmo em meio a um povo rijo, ele era conhecido pela capacidade de suportar o calor e o frio, e era indiferente aos ferimentos. Tinha domínio completo do próprio corpo em termos de resitência. Como povo, os mongóis têm dentes e visão excelentes, cabelo preto e pele avermelhada e se acreditam parentes das tribos nativas americanas que atravessaram os estreio de Bering enquanto  este estava congelado, e assim entraram no Alascas há cerca de 15 mil anos. As semelhanças enres esses povos são espantosas.
Na Mongólia atual, a maioria da população ainda caça com arco ou fuzil, cria ovelhas e cabras e revencia os pôneis. Pratica o xamanismo e qualquer local elevado é marcado com pedaçoes de pano azul para homenagear o pai céu. O enterro no céu - isto é , colocar os corpos para serem despedaçados por pássaros selvagens em lugares altos - é como eu o descrevi.
O jovem Temujin foi levado à antiga tribo de sua mãe, os olkunt'ut, para arranjar uma esposa, mas usa mãe, Hoelun, foi tomada do outro mdo de arranjar uma mulher. Yesugei e seus irmãos a sequestraram do marido. Yesugei quase  com certeza foi envenenado por inimigos tártaros, mas os detalhes extatos são escassos. 
Com seu pai morto, a tribo escolheu um novo cã e abandonou Hoeleum e sete filhos, até mesmo Temulun, um bebê. Não inclui um meio-irmão, Begutei, nesta história, já que ele não representou um papel importante e que o original era longo demais ou complexo demais. Eelk é muito mais simples do que "Tarkhurtia-kiriltudh). O mongol não é uma língua fácil de se pronunciar, mas vale mencionar que les não têm o som de "k", de modo que Khan seria dito como "Raan". Kublai Kahn, o neto de Gêngis seria pronunciado como "Rup-Lai Raan". É verdade que Gêngis talvez fosse mais bem grafado como "Tchinggis", mas "Gêngis"é como aprendemos e o que soa bem para mim. 
Não se esperaria que Hoelun e seus filhos sobrevivessem, e é graças a essa mulher extraordinária o fato de mos nenhum deles ter morrido no inverno que se seguiu. Não sabemos exatamente como sobreviveram à fome e à temperaturas que chegavam a vinte graus negativos, mas a morte de Bekter mostra como chegaram ao limite naquele período. Dito isso, meu guia na Mongólia dormia com seu dil, em temperaturas muito baixas, de modo que o cabelo estava grudado no chão congelado, ao acordar. É um povo duro, e até hoje pratica três esportes: luta, arco e montaria, excluindo todo o resto.
Temujin matou Bekter mais ou menos como descrevi, mas foi Khasar, e não Kachiun, que disparou a segunda flecha. Depois de Bekter roubar comida, os dois garotos o emboscaram com arcos. Para entendermos esse ato, acho que primeiro deve ser necessário ver nossa família passar fome. A Mongólia é uma terra que não perdoa. O menino Temujin nunca foi cruel, e não há qualquer registro de ele jamais sentir prazer na destruição dos inimigos, mas era capaz de ser absolutamente implacável.
Quando a tribo mandou homens de volta para ver o que acontecera com a família abandonada, estes encontraram resistência feroz e flechas disparadas pelos irmãos. Depois de uma perseguição, Temujin se escondeu no fundo de um matagal durante nove dias sem comida, antes que a fome acabasse obrigando-o a sair. Foi capturado, mas escapou e se escondeu num rio. A margem de gelo azul que descrevi não está em A história secreta, mas vi uma coisa assim nas minhas viagens pela Mongólia. Mudei o nome do homem que viu na água e não o entregou - de Sorkhansira para Basan. Foi Sorkahnsira que escondeu Temujim em sua iurta. Quando a busca fracassou, Sorkhansira lhe deu uma égua cor de alcaçuz com boca barnca, comida, leite e um arco com duas flechas, antes de mandá-lo de volta à sua família. 
A esposa de Temujin, Borte, foi roubada pela tribo merkit, e não pelos tártaros, como descrevi. Ele foi ferido durante o ataque. Ela ficou desaparecida por alguns meses, e não dias. Em resultado, a paternidade do primeiro filho, Jochi, jamais foi totalmente garantida E Temujin nunca aceitou completamente o garoto. Na verdade, foi porque seu segundo filho, Chagatal, recusou-se a aceitar Jochi como sucessor do pai, que mais tarde Gêngis nomeou o terceiro filho, Ogedal, como herdeiro.
O canibalismo, no sentido de comer o coração de um inimigo, era raro, mas não totalmente desconhecido entre as tribos da Mongólia. De fato, a melhor parte da marmota, o ombro, era conhecida como "carne humana". Neste sentido, também, há um elo com as práticas e crenças de tribos nativas americanas.
Togrul dos Keraites de fato recebeu a promessa de um reino no norte da China. Ainda que a princípio ele tenha sido mentor do jovem guerreiros, passou a temer a súbita ascensão de Temujin ao poder e fracassou numa tentativa de mandar mata-lo, rompendo a regra básica das tribos, de que um cã deve ser bem-sucedido. Togrul foi forçado ao banimento e morto pelos naimanes, aparentemente antes de o reconhecerem.
O fato de ser traído por aqueles em quem confiava parece ter incendiado um fagulha de vingança em Temujin, um desejo de poder que nunca o abandonou. Suas experiências de infância criaram o homem que ele se tornaria, que não se debraria nem permitiria o medo ou que fraqueza de qualquer forma. Não se importava com posses ou riquezas, só com o queda de seus inimigos.
O arco mongol de curva dupl e como eu descrevi, com um força de retesamento maior do que o arco longo inglês, que foi tão bem-sucedido dois séculos depois contra armaduras. A chave para a força é a forma laminada, com camadas de chifre fervido e tendões sobre a madeira. A camada de chifre fica na face interna, já que o chifre resiste à compressão. A camada de tendões fica na face externa, já que o chifre resiste à expansão. Essas camadas, grossas como um dedo, acrescentam força à arma até o ponto em que retesá-la é equivalente a levantar dois homens no ar pois dois dedos - a pleno galope. As flechas são feitas de bétula. 
O uso do arco foi o que deu a Gêngis Khan seu império - isso e sua incrível capacidade de manobra. Seus cavaleiros moviam-se muito mais rápido que as colunas blindadas modernas e por longos períodos; podiam sobreviver com um mistura de sangue e leite de égua, sem precisar de linhas de suprimentos. 
Cada guerreiro levava dois arcos, com trinta a sessenta flechas em duas aljvas; uma espada, se tivesse; um machado e um lima de ferro para afiar as pontas das flechas - presa à aljava. Além de armas, levava um laço de crina, uma corda, uma sovela para fazer buracos em couro, agulha e linha, uma panela de ferro, dois odres de couro para água, quatro quilos e mio de coalhada dura, para comer cerca de duzentos gramas por dia. Cada unidade de dez homens tinha uma iurta sobre uma montaria de reserva, de modo que era totalmente auto-suficiente. Se tivessem carne de carneiro seca, tornavam-na comestível amanciando-a sob a sela de madeira durante dias sem fim. É signficativo que a palavra em mongol para "pobre" seja formada pelo verbo "andar" ou "caminhar". 
Uma história que não usei é a de sua mãe, Hoelun, ter mostrado aos filhos como uma flecha podia ser partida, ao passo que um feixe delas se tornava resistente - a clássica metáfora para a força da união.
A aliança de Temujin com Togrul dos keraites lhe permiteiu transformar seus seguidores num grupo de ataque bem-sucedido sob a proteção de um cã poderoso. Se ele não tivesse passado a ver os jin como controladores de seu povo por mil anos, poderia ter permanecido como um fenômeno local. Mas, como aconteceu, teve a visão de uma nação que abalaria o mundo. As incríveis habilidades marciais das tribos mongóis sempre foram desperdiçadas umas contra as outras. A partir do nada, rodeado de inimigos, Temujim ascendeu para unir todas elas. 
O que viria em seguida sacudiria o mundo.
Conn Iggulden  

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