quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O Arroz de Palma por Francisco Azevedo

Identifiquei-me com muitas das falas deste autor.  É interessante eu falar exatamente assim: - Meu HD não cabe tantas informações! Esqueci, não me lembro...
Mas, sempre, sempre, ao me encontrar com amigos com os quais fiz as chamadas travessuras, jamais nos cansaremos de repetir (e repetir,  e repetir ) cada detalhe de nossos passeios. E com certeza será assim daqui a 20 anos, rs. 
Chamada memória afetiva.

Trecho do livro O Arroz de Palma, de Francisco Azevedo:
O jardineiro cuida do jardim. O mato toma conta. O que prefere o jardim? A memória do jardineiro que cuida ou a liberdade do mato que toma conta? Eu cuido da mente. O esquecimento toma conta. O que prefere a mente? A memória do velho que cuida ou da liberdade do esquecimento que toma conta? A memória pode ser bela, mas pesa, eu sei. O esquecimento é leve. Pode até ser alívio. Tantas histórias de família e de amigos se perdem. Para sempre? Para sempre. Nunca mais? Nunca mais. É triste? Muito. Para sempre e nunca mais são medidas de tempo que me amedrontam e, às vezes, entristecem. A memória efetiva do mundo vai se apagando, enquanto os dados do planeta cabem todos no computador. Não há nada que você possa fazer, Antonio. É assim e pronto. Cada morte, seja lá de quem forma, é acervo riquíssimo de experiências e sensibilidades que se queima. O incêndio é bom, é útil, é necessário? Falo da memória que emociona, não da memória que envaidece. Nos preocupamos muito com a perda desta última. Sentimo-nos humilhados quando esquecemos o nome do autor consagrado, o título do romance ou da famosíssima peça de teatro. Esta perda de memória, para mim, é lição de humildade. Mostra que a máquina não tem jeito, é falha mesmo. Me faz bem à saúde, porque me vai aquietando o ego. Quero acreditar que com o tempo nos tornamos seletivos. Vamos retendo a informação que nos é importante. Os excessos, o cérebro naturalmente apaga, ou deleta, como diria Bernardo. Mas a memória afetiva é diferente. Quando conto ao meu neto casos vividos por mim, e por pessoas que me são queridas, ou que me foram passados por meus pais ou Tia Palma, não aspiro à posteridade. Bem ou mal falado, meu nome irá além de umas poucas gerações. Pretendo apenas cuidar do meu jardim. Depois, será a vez do mato tomar conta. Mas tudo a seu tempo. pág 82/83

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