quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Leitura de emocionar

Trecho do livro O Arroz de Palma:
Antônio e Isabel estão no Central Park em NY sentados admirando os transeuntes. Vieram visitar seus filhos Nuno e Rosário.
Quem eu crescer quero escrever como Francisco Azevedo... Reescrever, acrescentar nos entrelinhas!

(...) De repente, surgido assim do nada, um negro alto, envergando impecável paletó de antílope, passa pelos jovens e continua devagar em nossa direção. Traz com ele dois ou três livros. Professor, talvez. Agora, de onde está, noto que tem carisma, presença e feições de guerreiro bíblico. Com naturalidade, mantém o olhar - olhar franco, direto, que inspira confiança. Isabel vira a página da revista, muda espontaneamente a atenção para o que está em volta. Dá com ele já bem próximo. Gesto gratuito, de lá e de cá, não sei por que cargas d'água, nos cumprimentamos com amáveis sorrisos. Não sorrisos rotineiros, como se nos conhecêssemos, não. Sorrisos surpresos, sim, dos que, de algum modo, se reconhecem. Afinidade de almas. Sinto vontade de convidá-lo a ser sentar conosco. Por pudores antigos, não ouso. Se fôssemos crianças... 
(...)
Rosário está apaixonadíssima. O quê?! Rosário apaixonadíssima?! Custo a crer.
- Sério! Um brasileiro, dez anos mais novo que ela. Muito legal, ele. Mas não diz que te contei. Ela vai ficar uma arara se souber que eu estraguei a novidade.
- Alguma semelhança como brucutu?
- Não!!! Pelo amor de Deus! Nada a ver! O Damião é um gentleman.
- Damião? Belo  nome.
- É, Damião. Está fazendo pós-graduação em Administração de Empresas. Em Yale, tá bem?
- Minha filha, 39 anos, apaixonada... E por um homem bem mais jovem... Damião...Ora veja só!
- Confesso que também me espantei. Mas fico feliz por ela, sabe? Rosário estava precisando de um novo amor. E lhe digo, meu pai, esse veio para valer. 
Não me esqueço do arremate nem do entonação do Nuno. Bruxo. Quando mexe o caldeirão desata a ver coisas do arco da velha. 'E lhe digo, meu pai, esse veio para valer". E veio. Como veio! Agora, aqui nesta cozinha, tantos anos depois, ainda sinto na pele o susto que Isabel e eu levamos quando Rosário nos apresentou o falado Damião.Não sei se susto. Talvez, mais emoção que susto. Uma emoção boa, um não entender admirado e confortável, um sentimento de gratidão à vida, tudo perfeitamente misturado pelo Deus do azul ou seja lá Quem, assim maiúsculo. Antes do aperto de mão, o aperto no coração pelo encontro, ou melhor, pelo reencontro. Pelo mistério que ali, naquele instante se tornava maior.
- Pai, mãe, esse é o Damião.
- Nós já nos conhecemos, minha filha.
- Como assim?!
- É verdade, Rosário. Seus pais e eu já nos conhecemos. 
Um nós na garganta me vem. Teatral, exagero. 
- Estivemos juntos há alguns dias. No Central Park!
Isabel, curiosa, riso materno, é mais precisa.
- Juntos, não digo. Mas bem próximos, pelo menos. Nos cumprimentamos até.
Isabel toma a iniciativa de lhe beijar o rosto, feito filho. Eu, totalmente envolvido pelo mistério, aperto-lhe a mão com força de um engate de vagões de trem. Ele corresponde. O encaixa convicto das mãos nos mata saudades ancestrais e desconhecidas. Com sisos de nervosismo sincero e infantil, ficamos os dois a balançar demoradamente os braços, mãos perfeitamente conectadas, amigas de longa data. Será?

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