quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Francisco Azevedo

Delícia de narrativa a de Francisco Azevedo em Arroz de Palma.
Lembrei de Mia Couto e suas expressões apaixonantes.


Seguem alguns trechos:

Éramos crianças de pés no chão. Não por falta de sapatos, mas porque assim vivíamos. Leonor, Nicolau e Joaquim tinham pangarés -  cavalos dados pelo senhor Avelino e que eles, de tão alegres e agradecidos, nunca lhes olharam os dentes. Eu, por escolha, tinha o Poeta - o vira-lata mais inteligente que conheci. Meus irmãos cavalgavam pelas colinas da fazenda. Eu e o Poeta caminhávamos. Sempre preferi me deslocar assim, mais perto do mato e da terra. Talvez para me compensar os vôos da alma. O Poeta conseguia ir ainda mais perto do chão que eu, volta e meia farejando a trilha que iria pisar. Eu achava lindo vê-lo abrir caminhos pelo cheiro. E me perguntava: "Será que é porque a alma dele voa mais alto que a minha?" Por várias vezes tentei a proeza, mas meu nariz, incompetente, logo se cansava. Meus joelhos, ralados, me chamavam às falas e me lembravam a condição de caminhante bípede. O Poeta olhava para mim como quem consola. "Não fica triste. Cada um é do jeito que é". Eu lhe dava razão. A natureza sabe o que faz. E lá íamos os dois pelas trilhas. Às vezes, curiosos. Às vezes, de olhares dados.

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