quarta-feira, 16 de julho de 2014

Tulipas por Moacyr Sclair

Na obra Na noite do ventre, o diamante Sclair conta na voz de Spinoza a história das tulipas:

"o nome vinha da palavra turca tulbent, turbante. O  primeiro carregamento de tulipas chegara à Antuérpia quase um século antes, em 1562.
- A flor transformou-se em moda, e logo em mania. Todo o mundo queria tulipas... Novas variedades eram criadas constantemente e vendidas por preços altíssimos. As pessoas desfaziam-se de suas casas e de seus bens para poder comprá-las. Um médico famoso, Claes Pietersz, chegou a mudar o próprio  nome para Nocolaes Tulp, e adotou a tulipa como símbolo. Tu o conheces, creio; é o doutor Tulp que Rembrandt retratou em A lição de anatomia. Estranhas histórias aconteciam naquela época. Foi o caso de um rico comerciante que pagou uma fortuna por um bulbo da tulipa Semper Augustus. Sabes o que aconteceu? Um homem que trabalhava para ele viu aquele bulbo e, achando que era uma cebola, comeu-o junto com um arenque. Podes imaginar o desespero do comerciante...
Um acesso de riso interrompeu-o: riu tanto que chegou a perder o fôlego. Ainda ofegante, continuou: 
- Mas isto não foi o pior. O pior foi a especulação. Já não se comprava a flor propriamente dita; as tulipas eram vendidas enquanto ainda estavam sendo cultivadas, sob a forma de notas promissórias - comércio no ar, portanto. Neste mercado maluco até pessoas pobres, humildes apostavam suas economias. E então a bolha estourou: o preço das tulipas despencou, arruinando muitas gente, mas deixando uma lição preciosa sobre as ilusões que perturbam os seres humanos. 
E arrematou:
- As tulipas não tiveram culpa de nada, Rafael. O que enlouqueceu as pessoas foram as fantasias, aquelas fantasias que Platão descreveu em sua caverna. Fantasias que todos temos nos obscuros desvãos da mente. Esta não passa de um verdadeiro labirinto de túneis escuros, povoados por fantasmas, espectros e também imagens sedutoras. É preciso iluminar esse labirinto com a luz da razão. E aí descobriremos que tulipa é apenas uma flor, uma bela flor, não uma promessa de fortuna."

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