terça-feira, 3 de junho de 2014

O inocente


Em 1976, quando a pena de morte voltou a vigorar nos Estados Unidos, houve um acalorado debate legislativo em Oklahoma para determinar qual seria a melhor forma de execução. O estado conquistou a glória duvidosa de ser o primeiro no país a adotar oficialmente a injeção letal, método considerado mais "humano" do que a cadeira elétrica, o fuzilamento ou a câmara de gás. O ex-jogador de beisebol Ronald Williamson esteve muito perto da agulha. O dia de sua morte foi marcado para 27 de setembro de 1994. A menos de um mês da data, uma corte federal revisou o seu caso e suspendeu a execução. Alcoólatra, com graves problemas mentais e dado a pequenos trambiques, Ron, como era conhecido pelos amigos, estava muito longe de ser uma personalidade modelar – mas tampouco era um assassino. Sua condenação foi resultado de uma conjunção de falhas judiciais. A triste história de Ron foi reconstituída com um detalhismo exaustivo pelo americano John Grisham, 51 anos – autor de consagrados thrillers jurídicos como O Cliente –, em seu primeiro livro de não-ficção, O Inocente (tradução de Pinheiro de Lemos; Rocco; 384 páginas; 45 reais). A obra é uma reportagem duramente objetiva, com poucos vôos ensaísticos e quase nenhuma opinião explícita do autor. A história narrada por Grisham, porém, é um argumento poderoso para os que acreditam que a pena capital é incompatível com qualquer padrão civilizado de justiça.
Grisham só tomou conhecimento do caso ao ler o obituário de Ron no The New York Times, em 2004 (o ex-condenado morreu em liberdade, de cirrose hepática). "Nem em meu momento mais criativo eu poderia conceber uma história tão rica", diz o escritor no final do livro. Apesar dessa rica história, O Inocente demora para engrenar. No primeiro capítulo, o tom de relatório policial despe de qualquer emoção o crime violento que seria atribuído a Ron – o estupro e assassinato de Debbie Carter, uma garçonete de 21 anos. O leitor brasileiro, para quem as estatísticas do beisebol podem soar esotéricas, vai se aborrecer com o segundo capítulo, no qual se resume a medíocre carreira esportiva de Ron. Mas, a partir do momento em que o caso entra nos tribunais, Grisham está no seu território. Ele demonstra como o sistema judiciário pode ser pervertido pela má-fé e pela negligência de seus profissionais.
O assassinato foi cometido em Ada, cidade de 16.000 habitantes no interior de Oklahoma, em 1982. Embora ninguém jamais houvesse visto Ron na companhia da vítima, ele foi o bode expiatório perfeito para uma polícia truculenta sob a pressão de apresentar resultados – qualquer resultado, mesmo falso. Dennis Fritz, professor de uma escola secundária e amigo de Ron, também se viu implicado injustamente. Foi condenado à prisão perpétua. O caso no tribunal se baseou em evidências fajutas e depoimentos de criminosos coagidos pela polícia. Ironicamente, o verdadeiro assassino de Debbie foi uma das ilibadas testemunhas de acusação. A facilidade com que o júri popular se deixou persuadir por argumentos claudicantes é assustadora.
Ron ficaria confinado por mais de dez anos no corredor da morte da penitenciária de McAlester, conhecida entre os presos como o Big Mac. Foi inocentado em 1999, junto com Fritz, graças a testes de DNA, que não existiam na época do primeiro julgamento. Os dois ganharam uma ação milionária de reparação contra o estado de Oklahoma. É pouco perto do que passaram. A descrição do cotidiano no corredor da morte, com sua espera angustiante por recursos judiciais que se arrastam por anos, está entre as páginas mais envolventes – e tétricas – do livro.Não existe parâmetro humano pelo qual o sofrimento psicológico imposto aos que entram na fila da morte seja admissível. Que um inocente possa passar por isso é uma monstruosidade moral.
Veja 22/11/2006

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