segunda-feira, 23 de junho de 2014

Crônica

Quero envelhecer assim... respeito mútuo... 

 

 

Elegância: moda para todas as estações

por Joanita Gontijo
Revista VOX Objetiva
Durante três anos, eles foram meus vizinhos ‘de porta’. Nós nos encontrávamos quase todos os dias. Não sei ao certo a idade deles, mas Dona Joana e Seu Chico estavam perto dos 80 anos. Foram muitos cumprimentos: ‘bom dia!’, ‘como vai?’ e ‘fique com Deus’ durante nossa convivência. Algumas vezes, consegui enganar o relógio para desfrutar do prazer de conversar ao pé da escada com eles. Falávamos de problemas do condomínio, como o milésimo conserto do portão da garagem, e sobre assuntos pessoais. Comemorei com o casal a aprovação da neta mais velha deles no vestibular; lamentei quando um dos filhos deixou a capital para viver no interior e rezei por Seu Chico, quando ele teve pneumonia.

Adorava nossas breves prosas e a elegância do casal. Não falo de paletós bem-cortados ou de vestidos com caimento perfeito. Sequer me refiro aos bons modos e à delicadeza com que sempre fui tratada. O que me fascinava era o encantamento entre eles. Quando Chico falava, Joana se calava para prestar atenção em cada sílaba. Seus olhos e ouvidos tinham a curiosidade de uma aluna sentada na primeira fila, ansiosa pelo final da história contada pelo professor. As palavras de Joana faziam o mesmo efeito em Chico que, com olhar de partilha, aplaudia secretamente as ponderações da esposa. Não concordavam em tudo, mas eram respeitosos em seus argumentos contrários. Faziam graça dos defeitos um do outro e riam juntos se olhando nos olhos.

Há bastante tempo não os vejo, mas se os encontrasse e tivesse poderes mágicos, empacotaria a elegância deles para distribuir a vários casais que entendem bem pouco do assunto. Inclusive, fiz parte dessa lista de maltrapilhos. Refiro-me a homens e mulheres que, mesmo juntos, se comportam como inimigos sociais.

Outro dia dividi a mesa de um bar com um casal que tinha acabado de chegar da Europa. O que deveria ser um relato divertido se tornou uma disputa velada sobre o lugar mais bonito, o melhor vinho, o atendimento do hotel, o tamanho da fila no museu e a temperatura registrada em Paris. Ao fim daquela viagem romântica, a diversidade de opiniões, sensações e impressões não enriqueceu a narrativa. Muito pelo contrário. As diferenças tornaram a conversa um campo minado, onde explodiram rancores e inseguranças. Esse triste espetáculo da disputa pela última palavra e da busca desmedida pelo convencimento alheio é constrangedor para os protagonistas e para a plateia. Houve vezes em que quase cobrei consulta por me sentir uma terapeuta apaziguando conflitos.

Meu pai diz que não sabemos se um relacionamento vai dar certo. Afinal, o parceiro ideal não se diferencia por ter uma estrela na testa. Mas um bom sinal é observar se entre vocês há harmonia. Caso os tons e as texturas do discurso não combinem nem mesmo diante do público, é melhor mudar o figurino ou o figurinista. Não importam as tendências: a deselegância está sempre fora de moda!

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