quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Mais uma sugestão de Luiz Guilherme de Beaurepaire

De Filipe Ribeiro de Meneses | Editora Leya
Uma das biografias mais sensacionais que eu tive o privilégio de ler nos últimos tempos: “Salazar – Biografia Definitiva” do historiador Filipe Ribeiro de Meneses, da Editora Leya. O livro nos apresenta a história de Portugal ao longo dos 40 anos de ditadura salazarista e muito mais, mostra como funcionava a mente desse personagem histórico e a lógica que permeava sua prática política. Um personagem pouquíssimo conhecido entre nós. E, certamente, para muitos das novas gerações seja apenas “um nome”.
Não sou a favor de ditaduras. Ditadura, nunca mais. Mas a figura de Salazar se tornou quase mítica, ao despertar veneração e rancores profundos, em discussões mais acirradas até hoje. Quando vi o livro pensei “ … encontrei a oportunidade de entender não apenas essa figura polêmica, mas também a história de Portugal”. E fui!
Demorei duas semanas e meia para ler esse calhamaço de 667 páginas. Lembro-me que após a leitura desse livro, fiquei tão encantado com toda a história e conhecimentos adquiridos, que esse passou a ser um dos meus livros mais indicados e vendidos por mim, na Livraria onde trabalhava. Mas apesar de todo meu encantamento, sentia uma enorme dificuldade em colocá-la no papel em função do verdadeiro banquete de detalhes que essa obra apresenta. Um “livraço” sob todos os aspectos!
Lançado em 2011, somente agora, um ano depois, me sinto capaz de tentar escrever sobre esse livro e apresentá-lo de forma concisa. Pois a minha vontade é sair teclando e fazer um resumo de duzentas páginas – no mínimo. Mas aqui, nesse espaço, procuro não ceder a tentações.
O trabalho de Filipe Ribeiro de Meneses durou sete anos, um projeto acadêmico e financiado pelo governo Irlandês. Atualmente, ele leciona na Universidade de Maunooth, Irlanda. Esse trabalho tem o mérito de ser uma das mais exaustivas biografias já publicadas nesse país. As investigações foram feitas no Arquivo Oliveira Salazar, acompanhada de uma extensa bibliografia em outras línguas. A ênfase desse livro está na estratégia e no pensamento político.
Mas, afinal, quem foi Salazar?
Para alguns, um fascista cruel, responsável pelo atraso democrático que o país viveu por 40 anos. Para outros, um homem que conseguiu equilibrar as finanças de Portugal, livrando-a de uma falência considerada certa. Os anos se passaram e as contaminações tanto vindas da direita como da esquerda cederam a análises mais equilibradas, sem exageros de culpas, tendendo para uma análise histórica mais isenta. Mas como esse homem se manteve no poder por tantos anos? Essas e outras perguntas você vai saber lendo a essa bela obra.
O autor nos apresenta Salazar não como um monstro, muito menos um patriota altruísta, tão pouco como herói nacional, mas como um líder autoritário, de propósitos firmes e decisões pragmáticas. Para obter o status de grande estadista era necessário que houvesse certo consenso, e quanto a isso não existia a menor unidade de pensamento. Salazar foi uma figura que dividiu opiniões em todos os seus quarenta anos de poder.
O livro começa nos revelando uma pesquisa realizada pelo canal RTP, chamado “os Grandes Portugueses”. Um programa que era uma cópia da BBC, e sua fórmula alcançou vários países onde se pedia aos telespectadores que votassem e selecionassem uma lista de dez portugueses na Internet – e o grande vencedor foi Salazar.
O próprio historiador justifica a taxa de audiência do programa como baixa e apenas 160 mil votos haviam sido validados. E Salazar abocanhou 41% dos votos. O resultado provocou ondas de protestos em todo país, a natureza do programa, os critérios foram questionados, mas nada que contribuísse para uma instabilidade da ordem vigente. A vida seguiu e tudo foi esquecido, assim como o tal programa de TV.
A vida privada de Salazar não nos oferece muitos detalhes, provavelmente oriunda da pouca documentação disponível. Mas vamos ao que sabemos.
Nascido em 1889, em Vimieiro, interior de Portugal, Salazar viveu e cresceu em uma família modesta. Seu futuro, por ser de uma família pobre, estava traçado: o seminário e o sacerdócio. Mas quis o destino que seu futuro acabasse na Universidade de Coimbra e não no seminário, em Viseu. Foi na Universidade de Coimbra que sua ascensão foi meteórica. Um momento histórico complicado, instável e violento fez a data de “5 de outubro de 1910”, um ano de mudanças radicais. A monarquia foi catapultada e a nova República instaurada. Essa experiência foi marcante para este militante pertencente a organizações cristãs.
Influenciado pelas encíclicas de Leão XIII, combateu o anticlericalismo republicano de uma forma comedida. O que não traduzia em um retorno a monarquia. A defesa da Igreja representava não a volta à monarquia, mas aos ataques dos republicanos à Igreja. A defesa da Igreja era fundamental a seus propósitos. A primeira lição para se entender Salazar é sobre sua formação religiosa, fundamentada no catolicismo que guiou sua construção e sua visão de mundo. Com o fracasso político, econômico e financeiro da Primeira República, Salazar ganha o espaço para ser a alternativa política frente à instabilidade.
Logo após o caos que pôs fim a Primeira República, uma ditadura militar foi instaurada em 28 de maio de 1926. Salazar, que tinha um olhar sagaz, enxergou a oportunidade que se abria para ele naquela turbulência do país. Logo, começou a publicar artigos em jornais onde mostrava a incompetência técnica das lideranças militares incapazes de fazer o país se desenvolver. Seu remédio era amargo, implicava em autonegação e austeridade. Autonegação? Austeridade? Tudo isso tem elementos cristãos contra o materialismo desenfreado que apenas corrompia a vida, para isso, como um bom pastor, pregava “a simplicidade da vida pública”. Uma terapêutica de seminário. Ao aceitar em 1928 a pasta das finanças, Salazar estava consciente que jogava uma cartada importante. Segundo Filipe Ribeiro de Meneses, a “batalha do orçamento” seria o grande passo para se construir o Estado Novo.
Tentar rotular politicamente a natureza desse Estado Novo não é o foco da discussão levantada pelo autor. O Estado Novo só conseguiu se firmar graças a “ditadura das finanças” orquestrada por seu compositor, entre 1929 e 1932, onde algumas vitórias importantes aconteceram, como o controle do déficit fiscal que era um problema crônico da República adquiridos, entre 1914 e 1918, ou seja, na Primeira Guerra Mundial.
Nesse livro, o autor reproduz os dilemas de Salazar sobre a natureza do seu regime.
“Deve o Estado ser tão forte que não precise ser violento? Ou avançar para reconciliação do Estado com a nação? “
Como já foi dito, Salazar tinha uma formação cristã. Segundo ele, alguns limites morais e espirituais para a ação do Estado precisavam ser demarcados. O fascismo, o nazismo, o antissemitismo, não faziam parte de seu menu político, pelo contrário, eram-lhe estranhos. O que não significava que esse mesmo regime não prendesse e punisse severamente seus opositores, mas a ideia tanto vinda da direita como da esquerda de que a política deveria dominar todos os aspectos da existência humana passava longe de Salazar. O salazarismo se tornou uma forma de fazer política em que a desmobilização ativa da política trazia mais benefícios do que problemas. Retirar a política das ruas, dos jornais e das preocupações diárias dos indivíduos era a forma de esvaziar os conflitos, era a garantia de paz no país e da sobrevivência do regime.
Em 1933, a Constituição consagrou que Salazar era, finalmente, o primeiro ministro de Portugal, e daí em diante um cenário sombrio se instalava. A prioridade absoluta era a sobrevivência do regime. O regime e a nação eram indissociáveis. E por ironia do destino, a grande ameaça interna era o Movimento Nacional Sindicalista, que influenciado pelas ideias do Duce Mussolini, declarava seu apoio incondicional a Salazar, mas cobrava a festa do fascismo: aparições, discursos inflamados, juras pela nação. Só que Salazar não gostava desse tipo de coisa. Seus aparecimentos públicos não eram algo sistemático, pelo contrário, não faziam parte de seu temperamento que era reservado, sua oratória, nas palavras de Marcelo Caetano, seu fiel colaborador, tinha “uma voz de velha”.
A reação de Salazar aos Camisas Azuis do Nacional Sindicalismo foi de liquidação, respondeu com violência. Cooptou os moderados para o regime e reprimiu os radicais. Salazar em 1930 já vislumbrava, como já foi dito, um cenário confuso. E para sua sobrevivência política, ele não perdia muito tempo com os radicais, simplesmente os eliminava.
Entre os muitos testes pelos quais passou, Salazar passou foi com Franco, na guerra civil espanhola. O receio da contaminação republicana fez os nacionalistas se sublevarem. Salazar colocou algumas pré-condições para o apoio. Primeiramente, Portugal não poderia ser apenas um aliado diplomático, mas um aliado a altura, capaz de vê-lo como uma importante força frente à ameaça do comunismo, e como escreve o historiador Filipe Ribeiro Meneses:
“é o tratamento dos refugiados republicanos espanhóis que mais ensombra a reputação de Salazar neste período”.
Por quê? Todos que cruzavam as fronteiras eram devolvidos ao seu lugar de origem sofrendo as piores consequências de tal gesto.
Se o regime de Franco era uma ditadura de corpo inteiro, Salazar desenvolveu a sua própria autoridade a partir de uma ditadura militar. O ditador espanhol fomentou uma relação com Hitler, assinando em segredo o Pacto Tripartido , em 1940, enquanto Salazar lutou arduamente para preservar a árdua neutralidade durante a Segunda Grande Guerra. Franco deve muito a Salazar por não ter assumido uma postura mais agressiva contra os aliados. Não por que fosse um grande amigo de Franco, mas temia que as forças do Eixo encontrasse na Espanha a via preferível para uma possível invasão. Franco não caiu depois da guerra, devido às condições impostas por Salazar de desenvolver uma relação política que passasse além da formalidade diplomática, abandonando as tentações do Eixo.
A partir da guerra civil espanhola, a política de neutralidade de Salazar permaneceu inalterada. Era a forma encontrada para garantir a integridade do país. E na medida em que lemos a biografia ficamos sabendo da engenhosidade de Salazar para sobreviver à avalanche de acontecimentos e de escaramuças com aquela máxima: “a todos parecer amigo”, e mais do que isso, “esconder intenções” vendendo tungstênio às fábricas de armamentos nazistas, assim como ceder as bases militares dos Açores aos aliados.
Com o fim da guerra, um novo cenário se configurou. A guerra fria e os desafios de Salazar em sobreviver a dois blocos em luta. Ele entendia que a sua nova missão era evitar a contaminação comunista e os apelos da democracia parlamentar para seguir os ideários de Washington.
No entanto, essa relutância à democracia sinalizava a sua incapacidade de entender as transformações profundas do Ocidente. E com certeza essa incompreensão fora o seu fim, ou melhor, o princípio do seu fim. E este fim teve um nome: África.
As guerras africanas que tiveram início em 1961 foram na verdade uma visão idealizada sobre o papel de Portugal no mundo. As colônias representavam segundo ele, o papel civilizador de Portugal no mundo. Sem as colônias Portugal estaria perdido. Incapaz de entender um cenário com três guerras (Angola, Guiné Bissau, Moçambique) seu fim começava a ser traçado. Estava convencido de que detinha a fórmula para garantir a sobrevivência e a estabilidade de Portugal no século XX, através da preservação da cultura tradicional, religião, identidade histórica e do império.
Salazar morreu em 1970. Mas sua morte estava selada dois anos antes, quando sofreu um AVC do qual nunca se recuperou. Sua morte política começou com as guerras africanas, com a perda de Goa, Damão e Diu para União Indiana; com a frustrada tentativa de golpe perpetrada pelo seu Ministro da Defesa, Botelho Moniz.
Uma das queixas, recebidas por Salazar dos agentes do PIDE ( a uma espécie de Deops brasileiro) ao seu regime era o cansaço dessa paz de cemitérios gozados há tantos anos pelo povo português.
Reconheço que falta muita coisa para que essa resenha fique completa. Fiz o melhor que pude; o resto eu deixo com você leitor.
A “Biografia definitiva de Salazar” é uma obra simplesmente extraordinária. Não conta a história de um ditadorzinho desses que achamos nas latas de lixo da história, tem um muito mais a ser aprendido.
Essa biografia, certamente, ajudará aos leitores a entender Portugal, e a entender um pouco mais o Brasil. Afinal, a história nos uniu um dia e a Língua Portuguesa nos unirá sempre.
Esse livro merece um belo espaço na sua estante.
Do blog Bons Livros para Ler

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