quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Livros Livres

Reportagem:


TEXTO Ronaldo Bressane 
ILUSTRAÇÃO Valentina Fraiz

Se todo artista tem de ir aonde o povo está, o mesmo se pode afirmar de muitas bibliotecas – que, em vez de ficar paradinhas, estão indo catar o leitor na rua. Essa ação combate um bizarro paradoxo: apesar de o mercado editorial colocar grande quantidade de livros nas livrarias, muita gente não dispõe de grana nem de incentivo para ler uma publicação. Assim, em localidades inóspitas, e mesmo no mais descolado bairro de uma cidade como São Paulo, algumas ações propuseram um caminho inverso: são as bibliotecas que vão atrás dos leitores.
O professor Luis Soriano Borges viaja pelos confins da Colômbia para distribuir livros a bordo de seus dois burros – Alfa e Beto. Ele começou seu bibliopériplo nos anos 1990, ao zanzar por comunidades do Caribe colombiano, emprestando cerca de 70 volumes. Depois de contar sua história a um radialista, Borges recebeu quase 5 mil exemplares – hoje ele está prestes a construir sua própria biblioteca. Os itens mais populares são os de aventura para crianças, mas Borges também distribui obras de seu xará argentino, dicionários e revistas Time-Life antigas. Até hoje, só não devolveram aos burros de Borges um exemplar de Como Água para Chocolate, de Laura Esquivel, e um manual de educação sexual – além dessas perdas, uma edição de Brida, de Paulo Coelho, foi roubada por bandidos de estrada. Projeto semelhante ocorre em Alto Alegre do Pindaré, a 239 quilômetros de São Luís (MA): é o Jegue-Livro. Uma vez por mês, um jegue com jacás (cesto feito de fibra vegetal), conduzido por jovens leitores, sai às ruas e se instala à sombra de uma árvore para oferecer leitura ao povo. Enquanto o bichinho se refresca, são frequentes à sua volta as leituras em voz alta.
Em um movimento curioso de imitação em série, muitas cidades do Brasil vêm aderindo à moda de ocupar ônibus e caminhões com bibliotecas para levar livros a comunidades carentes – lugares onde a única diversão e agremiação social são oferecidas por bares e igrejas evangélicas. Em Campo Grande (MS), o Sesc inventou, em 2008, o BiblioSesc, projeto que emprestou 6 mil dos 7 mil impressos de que dispõe, entre literatura nacional e estrangeira, infantis, jornais e revistas, só em seu primeiro ano. O serviço é itinerante, pois se utiliza de um ônibus. E o empréstimo é gratuito. Estranho? Para quem já frequenta bibliotecas não – mas muita gente tem vergonha ou medo de visitar uma livraria e acha que, para emprestar um livro, é preciso pagar alguma taxa e ter documentação em dia. Daí essas iniciativas exigirem apenas o compromisso de devolução. Numa volante do Ceará, um ônibus leva a locais remotos, como Tejuçuoca, Saboeiro e Aiuaba, literatura brasileira e estrangeira, biografias, cordel, manuais de educação sexual, livros de administração e de história, jornais e revistas. O leitor faz seu cadastro na hora, recebe uma carteirinha e pode, ainda, acessar a internet e participar de atividades lúdicas com os funcionários.
Mas não só em paragens longínquas é descomplicado acessar livros. Em São Paulo, duas iniciativas bem diferentes têm chamado a atenção dos leitores desavisados. Robson César Correia de Mendonça, ex-morador de rua, tinha vontade de ler, mas impedido de entrar em espaços para leitura – geralmente por portar sacos plásticos com roupas e objetos pessoais e não ter documentos – sonhou com uma situação diferente. Ao plantar uma árvore na frente da biblioteca Mário de Andrade, Mendonça conheceu Lincoln Paiva, presidente do Instituto Mobilidade Verde (IMV), que lhe deu a ideia de um serviço movido a pedal. Paiva descolou para ele um triciclo com freios a disco na traseira e caçamba com capacidade para transportar 150 quilos de livros. Mendonça, cuja obra favorita é A Revolução dos Bichos, de George Orwell, acredita que “a leitura é pouco para que essas pessoas mudem a situação de abandono, mas já é um início na tentativa de transformar sua vida, assim como aconteceu comigo”. Ele afirma que deveria haver mais “biciclotecas” espalhadas em São Paulo, uma vez que a população de rua da cidade é composta de cerca de 20 mil pessoas.
No boêmio bairro paulistano de Vila Madalena, Paiva lançou o Bibliotáxi. “Aproximei o taxista da comunidade e, pelos livros, as pessoas podem compartilhar coisas e ser mais colaborativas”, afirma. A ideia é singela e radical: no banco de trás de um táxi, no ponto da Rua Wisard com a Fradique Coutinho, uma caixa com 15 obras está à disposição do passageiro – que nem precisa devolvê-las. Porém, livres como os táxis, os exemplares acabam misteriosa e espontaneamente retornando ao automóvel, que está cada vez mais abarrotado de doações.

Nenhum comentário:

Postar um comentário