quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Melhores 10 contos

Sugestão de Jaime Bulhosa, do blog Pó dos Livros
1.º - Bartleby, Herman Melville
2.º - O Capote, Nikolai Gogol
3.º - O Alienista, Machado de Assis
4.º - O Poço e o Pêndulo, Edgar Alan Poe
5.º - A Tortuosa Esperança, Villiers
6.º - O Duelo, Anton Tchekhov
7.º - O Nariz, Nikolai Gogol
8.º - O Ovo de Cristal, H. G. Wells
9.º - Passeio Nocturno, Rubem Fonseca
10.º - O Sacristão, Somerset Maugham
O livro Bartleby, o escriturário, escrito por Herman Melville, é um exemplo disso. O autor de Moby Dick conta a história do escrivão Bartleby, através de um advogado de Wall Street, que o emprega como copista.
Apesar do escritório ter outros dois copistas não menos excêntricos, que se alternam diariamente nos períodos de mau humor, o narrador concentra o foco em Bartleby. Ele inicialmente parece ser um profissional capaz e reservado. Nada se sabe sobre ele, onde trabalhou, de onde veio, onde mora, se é casado, tem família ou mesmo qual sua idade. Até certo momento, isso desperta curiosidade, mas não importa, porque quieto no seu canto, ele faz o seu trabalho de maneira eficiente e sem incomodar os colegas.
O pacato Bartleby passa a ser considerado um problema depois que resiste a idéia de checar uma cópia que ele mesmo fez. Sem qualquer constrangimento, simplesmente diz: “prefiro não fazer”. E só. Não explica o porquê, nem inventa desculpas. A situação se complica ainda mais quando Bartleby anuncia que prefere não mais trabalhar. Ainda assim, ele continua no escritório, em pé, olhando para a parede de tijolo do prédio vizinho.
Sem ver nas negações um indício de protesto, nem de desafio a sua autoridade, o advogado sente-se desarmado para lidar com a melancolia do silêncio de Bartleby. Por ser ele quem conta a história, a reação dos leitores acompanha os passos do narrador. Primeiro vem a curiosidade, depois a solidariedade e por fim a impotência seguida de rejeição.
Aos poucos, Melville vai pingando gotas de mistério em torno de Bartleby. O narrador não o vê comendo nada além de balas de gengibre, depois descobre que ele nunca sai do escritório e dorme por lá mesmo. A excentricidade do copista, porém, torna-se ainda mais intrigante quando ela se mistura com a admiração do advogado pelo funcionário. Ele tenta ajudar, compreender as razões de Bartleby, mas não consegue romper a solidão do funcionário.
Ao perceber que a presença dele começa a incomodar seus clientes e colegas, o narrador começa a tomar providências. Manda o copista embora, oferece ajuda financeira, mas nada adianta. Até que ele próprio resolve mudar o endereço do escritório. Bartleby fica, lembrando um pouco a inconveniência do personagem de Paulo Miklos no filme O Invasor, mas sem qualquer cheiro de maldade.
Com sutileza, Melville constrói Bartleby como a antítese de uma época onde os valores materiais e o trabalho adquiriram status de indispensável, e a ganância passou a ser uma qualidade. Seu personagem, sem nem precisar falar, consegue inverter essa lógica e colocar os leitores diante de um paradigma – quem tem a vida mais absurda? Em meio aos monstros, terroristas e assassinos das histórias de hoje, a renúncia silenciosa do inofensivo Bartleby é a que causa mais destruição.
Thiago Corrêa, no blog Vacatussa

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