quarta-feira, 7 de agosto de 2013

A Guerra Civil Espanhola começou em 1936 e logo se tornou um acontecimento mundial. Não só porque a Europa toda parecia um barril de pólvora prestes a explodir: na Espanha, Hitler e Stalin mediram forças, comunismo e fascismo se enfrentaram, soldados voluntários originários de muitas nações foram ao país defender a causa republicana. Não é errado dizer que, além de ter sofrido uma sangrenta guerra civil, a Espanha foi palco do último ensaio antes da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Contudo, ainda que tenha ganhado o mundo, uma guerra civil é uma batalha entre conterrâneos, entre grupos do mesmo país. E, no caso da Guerra Civil Espanhola, todo tipo de questão veio à tona de modo muito intenso: religião, conflito de classes, interesses corporativos, luta pela reforma agrária, ideias de supremacia cultural e de identidade nacional, utopias. Tudo isso somado às manobras dos interesses individuais mais mesquinhos. Neste livro, o historiador espanhol radicado no Brasil Josep M. Buades relata em detalhes o antes, o durante e o pós-guerra, sempre de forma equilibrada, evitando que convicções pessoais interfiram em seu trabalho de pesquisador. O autor escreve especialmente ao leitor brasileiro e, por isso, retrata também as consequências e repercussões que o conflito produziu por aqui. E nos lembra que, depois da Guerra Civil Espanhola, as guerras nunca mais foram as mesmas. Foram ainda piores.

Editora: Contexto

Trecho do livro A Guerra Civil Espanhola: o palco que serviu de ensaio para a Segunda Guerra Mundial

"As questões mal resolvidas
Laicismo versus catolicismo
A Igreja Católica (que, recordemos, era a anterior ao aggionamento do Concílio Vaticano II) opunha-se ao discurso liberal de separação entre Igreja e Estado, era contrária ao ensino público e laico e não digeria facilmente que outras confissões religiosas pudessem se expressar livremente em um país como a Espanha, de tradição marcadamente católica-apostólica-romana. Os republicanos de 1931 foram, sem sua relação com a Igreja, os epígonos do liberalismo progressista e exaltado do século XIX e cometeram mias ou menos os mesmo erros de seus antecessores em relação à questão religiosa.
Salvo a Constituição de Cádiz, que proclamou em seu texto que o catolicismo seria sempre a religião dos espanhóis, a ela esquerdista do liberalismo hispânico evoluiu para posturas cada vez mais anticlericais. Nesse quesito, era acompanhada por socialistas e anarquistas, que enxergavam a Igreja como um dos pilares do monarquismo e do conservadorismo e uma das principais causas do atraso do país. Por culpa da Inquisição, este havia ficado à margem da revolução científica dos séculos XVII e XVIII. A dura perseguição àqueles que pensavam diferente ou traziam ideias novas impediu que a Espanha acompanhasse as transformações do restante do continente. Enquanto em Oxford eram ensinadas as teorias de Newton, em Salamanca os teólogos da segunda escolástica ainda ocupavam cátedra. Nessa visão simplista do papel da Igreja no progresso científico e tecnológico, os jesuítas ocuparam o lugar do bode expiatório. Com seus hábitos de cor preta, sua disciplina e sua severidade, o jesuíta personificava o espírito tridentino que asfixiara o crescimento intelectual espanhol. Por isso, desde o Iluminismo, proposto no século XVIII, qualquer tentativa de reforma política culminava com a expulsão dos membros da Companhia de Jesus. A Segunda República não foi uma exceção, e os jesuítas tiveram que seguir mais uma vez o caminho do exílio." (pág 29, edição 2013)

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