terça-feira, 16 de julho de 2013

Déficit de atenção

Eu com meus livros, sempre uma boa história, sempre uma viagem, um devaneio, rs
Na obra Dez Mulheres de Marcela Serrano encontrei um texto que ratifica o que já contei a vocês outrora.
Também no texto Um Ateliê, postado ontem: minha dificuldade em priorizar...

"Eu tenho déficit de atenção. É o nome que dão. |Pelo menos hoje em dia o problema se dignostica e pode ser medicado, antes nem isso. Dizem que é bastante hereditário e, como a minha velha não tem – e a Susy tampouco, graças a Deus -. eu atribuo, como tantas outras coisas , ao pai desconhecido e filho da puta que sumiu do mapa assim que a minha velha engravidou. O que é déficit de atenção É como uma amplitude da mente. Uma extensão que ecoa. Por exemplo, outro dia eu estava no trabalho folheando uma revista enquanto esperava a cera esquentar e li sobre um homem que tinha morrido, parece que o sujeito foi narrador, cantor, tradutor, engenheiro, trompetista de jazz, dramaturgo e autor de óperas. É óbvio, pensei, esse cara tinha déficit de atenção. Há mil coisas que eu gostaria de fazer e para as quais teria certa habilidade. Para começar, todas as atividades ligadas ao salão, ou seja, cabeleireira, manicure, massagista, reflexóloga, colorista, e também poderia ser uma ótima chef ou uma boa costureira ou bailarina ou instrutora de ioga e, se me provarem, uma boa pintora. Teria habilidade para todas essas coisas se me dedicasse a elas. Mas, claro, não dá tempo, tenho que ganhar a vida. Se tivesse nascido rica, teria um espaço como o cara da revista.

Sempre fui um pouco desajeitada, nunca me entendi bem com coisas finas nem femininas demais, e foi por isso que acabei virando depiladora e não manicure, porque quando pintava unhas borrava o esmalte (às vezes consigo, mas com muito esforço). Passei a vida tentando não ser desajeitada, com as coisas do corpo e também com as da mente. Como sou mais rápida que a maioria, ficava entendiada nas reuniões, por exemplo nos encontros de pais no colégio de Susy, achava as pessoas chatas, lentas, por mim eu passaria a vida correndo, feito o Papa-Léguas, chegando para ir logo embora, nunca para ficar. Desajeitada também porque me chamavam de distraída, porque perdia tudo, até as coias mais queridas, e, claro, devo ter parecido ingrata, arrogante. Mas não era. Eu vivia assustada com as críticas, todo mundo me censurava, a vovó, as professoras, os chefes, as amigas, porque eu fazia ou dizia coisas inadequadas. Enfim, continuo fazendo, agora um pouco menos porque já estou diagnosticada e medicada, mas, gostando ou não, ainda sou a mesma. Apesar do remédio, continuo fazendo milhares de movimentos inúteis, porque se estou procurando meu celular e vejo os óculos, eu me concentro neles e depois na xícara de café que preciso levar para a cozinha e, claro, não lembro mais por que tinha me levantado até que reparo no celular, na verdade só posso realizar uma ação qualquer sem me distrair tendo um deserto vazio pela frente. Tudo me distrai, os sons, as pessoas, as ideias que surgem na cabeça sem o meu controle. E, tudo bem, me canso mais que a maioria. A etiqueta das roupas me incomoda, então as arranco para não sentir. Tecnicamente, o problema é que eu processo mais estímulos do que sou capaz de assimilar, foi assim que me explicaram. É como nunca chegar ao destino em linha reta, e por isso eu me canso tanto. Mas nem tudo são notícias ruins, também sou mais criativa e imaginativa que os outros e certamente mais original, porque faço associações estranhas e daí podem sair boas ideias. E às vezes sou divertida, se me aguentarem.

Dizem que as pessoas com déficit de atenção costumam ser muito inteligentes. Não é o meu caso, tenho os meus recursos, mas não sou especialmente inteligente. Sou quase incapaz de me concentrar nas cosias sem divagar, vivo me dispersando, eu começo a falar sobre o salão de beleza e no minuto seguinte já é a Susy ou então resolvi comentar da roupa da mulher ali da frente ou me preocupar porque não paguei o gás. Não consigo me limitar a um assunto só.

Tenho uma cliente, Maria del Mar, que é uma das minhas preferidas e vai muito ao salão, mora a dois quarteirões. É uma mulher culta e instruída e sempre converso sobre as minhas coisas com ela, que também sofre do famoso déficit. Que ela chama de ADD, como dizem os gringos. Toma uma Ritalina por dia e vive a mil por hora. E define a coisa assim: é uma incapacidade de selecionar o que é urgente. Também diz que ser mulher equivale a sofrer de déficit de atenção. Nas suas palavras, a gama de estímulos que recebemos e tão alta que não conseguimos priorizar – ela adora essa palavra. Então as fraldas, as ações na bolsa, o medo da morte, estas três coisas têm a mesma importância, a mesma urgência. (Quando eu quero me fazer de interessante para um cara que me atrai, imito a María del Mar. Sou boa para imitar e para guardas as palavras dos outros, uso as dela para parecer esperta.)

Com o passar dos anos concluí que, de bobagem em bobagem, acabei sabendo muitas coisas, só que de um jeito confuso.

Acho que o tempo é diferente para mim. Para as pessoas normais, o tempo é como é, ou seja, curto. Para mim é longo. Sempre acho que tenho tempo de sobra e me organizo a partir desse pensamento e vivo assim, constatando todo dia que não deu certo, que não consegui."

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