terça-feira, 25 de junho de 2013

Equador

Depois de Rio das Flores ganhei de presente a obra Equador, também do português Miguel Sousa Tavares.
Luiz Guilherme retrata bem o meu fascínio por ficção histórica:

Miguel Sousa Tavares é um autor que se consagra definitivamente a cada livro que lança. O livro “Equador” foi o primeiro livro a tornar-se um grande sucesso aqui no Brasil. Equador foi o fruto de uma longa maturação e investigação histórica que inspirou um romance fascinante vivido num período complexo da história portuguesa, no início do século XX e os últimos anos da Monarquia. É a revisitação histórica de um período crucial da história portuguesa (entre os anos de 1905-1908), coincidindo com a decadência da Monarquia, a alvorada da República, a grave crise política, social e econômica do Império Português Ultramarino, centrado, no que a este romance diz respeito, na exígua colônia de São Tomé e Príncipe. O romance pode ser definido como simplesmente excelente. E não sou eu apenas quem diz isso: são os seus próprios leitores. Vamos a ele.
Equador é a história de um homem, Luís Bernardo, descrito no começo do romance, no ano de 1905, através de um narrador onisciente como um homem de 37 anos, que trabalha no escritório de uma companhia de navegação em Lisboa que lhe foi herdada pelo pai e que de vez em quando tem um relacionamento amoroso baseados em “mini-séries”. Luís Bernardo é um amante das artes, da cultura e de belas mulheres. Graduado em direito em Coimbra dirige entediado as empresas que herdou do pai.
O seu interesse pela Questão Colonial, a fama de um bom conversador, as suas boas relações e sua fluência nos idioma inglês e francês, e membro de um clube, onde na maioria das vezes se defendem opiniões pragmáticas. Certa vez, ele chamou atenção através de dois artigos feitos por ele no jornal “Mundo” acerca da questão colonial. Nestes dois artigos, Luís Bernardo exigia uma política colonial moderna que atendesse ao comércio e a economia. A convite é chamado por El-Rei, D. Carlos a Vila Viçosa ao ser nomeado para o cargo de Governador Geral de São Tomé e Príncipe. Assim o narrador onisciente resume o perfil do protagonista.
Deste modo, assumindo o cargo de governador e a defesa da dignidade dos trabalhadores das roças, sairia honrosamente de um affair com uma mulher casada, porém não fazia idéia que este desafio o lançasse numa rede de conflitos e interesses com a Metrópole. Dotado de uma visão estratégica bem aguçada facilmente percebemos que as potências estrangeiras tentam, sob a capa de um “humanismo hipócrita”, eliminar a concorrência dos produtores portugueses de cacau, alegando o uso ilegal do trabalho escravo e incentivando o boicote à compra do cacau de São Tomé.
Sua missão era liderar a região mantida em um modelo de trabalho que oficialmente não era chamado de escravidão e atender às missões diplomáticas dignas de um chefe de Estado, como por exemplo, receber a visita em caráter de auditoria feita por um cônsul inglês, David e sua esposa Ann. Ele, político com uma imagem a reconstruir após uma missão mal sucedida na Índia, e ela uma loura que exalava sua libido pelos poros.
As ilhas de São Tomé e Príncipe foram cenário em que o romance trouxe à tona a discussão sobre a dominação portuguesa no território. A missão inglesa não era de caráter humanitário, mas econômico. Havia de fato, um tratado que exigia a extinção da exploração escrava humana na África pelo homem português, porque a ausência de custos em mão de obra escrava resultava no que os ingleses chamavam de concorrência desleal.
Na representação portuguesa havia uma contradição: Luís Bernardo era anti-escravista tendo inclusive – como já foi assinalado acima – publicado o seu ponto de vista na imprensa portuguesa; enquanto que é possível sugerir que o império português não se opunha (oficialmente) à exploração do homem.
Existe no romance e logo no seu início uma distância considerável entre o que se falava na dita Metrópole e o que se praticava nas colônias como visto em várias passagens do livro:

“- Se bem o que Vossa Majestade me disse, existe, de facto, uma forma de trabalho escravo em São Tomé. E o que se espera do novo Governador é que isso não seja visível aos olhos ingleses, de maneira a não se expor a represálias do nosso famigerado aliado. Mas, ao mesmo tempo, espera-se que nada de essencial seja mudado, de modo a não comprometer o funcionamento da economia local.
- Não, não é isso. Nós abolimos oficialmente a escravatura há muito tempo, e temos uma lei, datada de dois anos, que estabelece as regras para o trabalho contratado nas colônias e cujo regime não tem nada a ver com escravatura. Desejo que isto fique claro. Portugal não consente escravatura nas colônias. Isso é uma coisa; outra coisa é submetermo-nos ao que os ingleses, e não por razões primeiramente altruístas, querem achar escravatura e para que nós, não passa de trabalho recrutado, segundo hábitos locais, e que não têm necessariamente de coincidir com o que se faz na Europa. Ou alguém acredita, por exemplo, que um inglês trata seus criados na Índia como os trata na Inglaterra?”

O que isso quer dizer? O que está contido nesse diálogo acima? Simples. Portugal não escravizava os Africanos, apenas como poderemos dizer… Submetia-os a um regime de trabalho culturalmente aceito em seus territórios e não aceitos na Europa por não haver na cultura daquele continente modelo de trabalho semelhante. E como justificativa apelava-se mencionando os ingleses que agiam em seus territórios como, por exemplo, na Índia os mesmos meios que condenavam.
Ao se estabelecer em São Tomé e Príncipe devido a distância da Metropole evidenciam-se as transformações do protagonista em virtude das vicissitudes da realidade histórica na qual está inserido e que, aos poucos, vai percebendo com maior clareza. Mais tarde compreendeu que o seu sucesso dependia de sua capacidade discursiva, e não de ações em prol das mudanças concretas no sistema colonialista. O novo administrador deveria, assim, preparar a chegada do cônsul inglês desenvolvendo um trabalho de anuência dos colonos portugueses.
David Jamerson, o enviado inglês, chega ao arquipélago acompanhado de sua exuberante mulher Ann, e logo se estabelece uma fraterna amizade entre o trio, pois apesar de estarem em campos opostos, tinham em comum os mesmos princípios e uma aproximada formação cultural. Esse vínculo, no entanto, passa ser mal visto pelos lusitanos do arquipélago e pouco a pouco, Luis Bernardo vai se isolando politicamente. O clímax da situação se estabelece a partir da relação amorosa entre o governador e Ann: tornada pública gera o conflito que acaba por levar ao fracasso e o desfecho trágico do protagonista estabelecendo um paralelo com a morte da monarquia em 1908.
Um dos pontos mais fortes dessa obra é, precisamente, o percurso individual (no sentido interior) do personagem central, Luís Bernardo. Finalizo, sem nenhuma sombra de dúvida, afirmando que este romance é simplesmente espetacular.

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