segunda-feira, 29 de abril de 2013

Pó dos Livros

Que blog gostoso! Parabéns, Jaime Bulhosa!!
Transcrevo aqui uma postagem pra lá de interessante:

Um dia ainda editamos um livro, com a chancela Pó dos livros, só com as cartas que encontramos dentro dos livros usados. Esta é outra de muitas pérolas que vamos aos poucos juntando. A carta datada do ano de 1963 demonstra bem o servilismo do «operariado» que «era», no mínimo, vexatório. Se não acreditam leiam:

Caro e muito respeitado Mestre;

O meu filho da idade de nove anos, e que é também seu assíduo e obediente aluno, Pedro, não poderá ir à escola hoje, visto que é obrigado a substituir seu pai, que é, como sabe, porteiro da fábrica do senhor X.

Na última lição, o senhor fez o favor de dar como exercício ao nosso Pedro o seguinte problema: quanto tempo levará um homem a dar duas voltas e meia em redor dum campo que tem quatro quilómetros de comprimento e três de largura, dado que esse homem faz exactamente três quartos de quilómetro por hora?

Ora, respeitado senhor e mestre, nem o pobre Pedro, nem seu pai, que é porteiro do senhor X, nem eu própria, que sou uma sua humilde criada, não conseguimos resolver o problema.

Como, no entanto, estamos dispostos a dar uma educação e uma instrução perfeitas ao nosso filho único, depois de reunido o conselho de família encarámos a solução seguinte, para a qual pedimos e esperamos a sua alta aprovação.

O Pedro vai substituir hoje seu pai, nas funções de porteiro da fábrica. Seu pai, meu esposo, irá logo de manhã a um campo vizinho, para lhe medir, em primeiro lugar, o comprimento e a largura. Em seguida, com o seu relógio na mão – que é um relógio comprado no melhor relojoeiro da cidade e garantido por dois anos –, fará exactamente três quartos de quilómetro por hora em volta desse maldito campo, até que tenha feito duas vezes e meia a volta completa, para comunicar ao nosso querido filho Pedro o tempo que gastou.

Visto sermos simples operários e que cada minuto é precioso para nós, venho rogar-lhe, caro e muito respeitado Mestre, a sua benevolência no sentido de dar, de futuro, ao nosso querido filho único Pedro, só problemas que ele possa resolver sentado à sua banca de trabalho e sem ser necessário que ele ou seu pai dêem tantas passadas.

Sua criada, humilde e devotada,

Maria X

Nenhum comentário:

Postar um comentário