domingo, 30 de setembro de 2012

Discriminar aquele que não gosta de ler

Concordo com Jaime Bulhosa do site Pó dos Livros!
Leia que interessante a comparação entre o livro (para quem não gosta de ler) e o placebo...

"Quando me fazem uma das perguntas mais frequentes numa livraria: «queria um livro para alguém que não gosta de ler», imediatamente penso que é o equivalente a pedirem-me uma cerveja sem álcool, um café sem cafeína ou um cigarro electrónico sem nicotina, isto é, um livro sem enredo, sem personagens, sem sentimentos, sem emoções, sem ideias. O pior é que se abre uma multiplicidade de hipóteses das quais não posso fugir, os livros editados para pessoas que não gostam de ler são, paradoxalmente, a maior fatia da oferta que existe no mercado. Basta passear um pouco por uma grande superfície e verificar a grande quantidade de livros iguais no seu aspecto estético e temático, para perceber que essa é a lei que impera. Não quero parecer elitista ao criticar a opção de se ler esse tipo de livros, é legitimo fazê-lo. Mas sejam quais forem os prazeres de desfrutar de um livro, enquanto objecto que nos permite levitar para outro mundo, esta não pode ser a única abordagem da leitura. Um livro pode, de facto, mudar a nossa vida. Não é o trabalho de um escritor uma espécie de instrumento óptico que é oferecido ao leitor para lhe possibilitar encontrar aquilo que, sem a ajuda do livro, nunca teria conseguido sentir sozinho? Não será um livro a descoberta do eu através dos outros? Já Marcel Proust dizia que é sempre mais interessante citar os outros do que nos citarmos a nós próprios. Para Orhan Pamuk um livro, para além do seu enredo e das personagens, tem que ter uma ideia central, aquilo a que Pamuk chama o centro do livro ou desígnio do livro. A função de um livro não é apenas a de nos dar prazer, ou seja, um analgésico, de efeito efémero, que ajuda a minimizar a solidão ou a passar o tempo enquanto viajamos de autocarro ou de comboio; pode, pelo contrário, criar-nos angústia, medo e dúvida, mas também nos pode dar respostas. Porém, parece que a maioria das pessoas quer apenas um sucedâneo, um placebo, algo que simplesmente as distraia e seja inócuo. É uma opção."
Jaime Bulhosa

Uma opção que não pode sofrer discriminação!

Nenhum comentário:

Postar um comentário