terça-feira, 24 de julho de 2012

Um crime de mestre

O filme consegue, surpreendentemente, adicionar algum fôlego a um gênero já tão desgastado.



Histórias de assassinatos e de tribunais todos já vimos aos montes. É, portanto, um desafio enorme agregar algo novo, um suspiro que seja, a esse tipo de filme. Um Crime de Mestre consegue. Sendo criativo dentro de um tema pouco original, a película apresenta personagens interessantes, bons diálogos e uma trama bem estruturada. Por isso, e apenas por isso, já consegue ser superior a quase todos os filmes de assassinatos ou de tribunais que por aí circulam.
A premissa inicial é logo apresentada: o engenheiro Ted Crawford (Anthony Hopkins) mata sua esposa e confessa o crime diante da polícia. Parece que será um caso dos mais óbvios e tranqüilos para o ambicioso Willy Beachum (Ryan Gosling) que, obviamente, está em sua última semana na promotoria – após ter obtido vaga em importante escritório de advocacia.
A trama, a partir daí, começa a ganhar em surpresa e em complexidade, o que, sem dúvida, prende fácil o interesse do público. As coisas não são bem o que pareciam, a tarefa de Beachum não é tão fácil – Crawford mostra que bolou um esquema engenhoso para se safar da situação. O conflito está armado, é dos mais interessantes. Surge uma relação interessante entre os dois personagens, um bom jogo psicológico que apenas é crível graças ao acerto do roteiro e às boas interpretações da dupla principal.
Ao ver Anthony Hopkins no papel de um assassino, é impossível não relacioná-lo ao seu louco mais famoso: o inesquecível Hannibal Lecter. A interpretação de Hopkins, mesmo de altíssima qualidade, não consegue se desvincular da figura de Lecter – mesmo que aqui ele seja muito mais debochado e menos ameaçador que o canibal. Esse fato, no entanto, não chega a prejudicar o filme.
Já Ryan Gosling surge como um novo talento. Rosto mais lembrado pela boa participação no interessante (e bastante visto) O Diário de uma Paixão (The Notebook), Ryan foi indicado ao Oscar pelo desempenho no (pouco visto) Half Nelson. Aqui, ele consegue dosar com habilidade os elementos que compõem seu personagem: a arrogância e a auto-suficiência do advogado invencível em contraposição a uma figura humana e falível. Mesmo que esse tipo pareça pouco original, o roteiro e a boa interpretração de Ryan conseguem dar novos matizes e criar um personagem novo, único, que não remete diretamente a algum outro que já se tenha visto.
Tal originalidade aparece em boa parte da trama, apresentada por um roteiro enxuto, objetivo e bem amarrado, que tem alguns deslizes leves (a relação com alguns personagens secundários e uma ou duas cenas pouco “engolíveis”), mas sabe evoluir bem até um fim convincente. Não é um roteiro perfeito, mas, sem dúvida, está acima da média. Outro ponto positivo do filme é o acerto no trabalho de Gregory Hoblit. Ele já nos havia presenteado com os surpreendentes As Duas Faces de um Crime (Primal Fear) e Possuídos (Fallen). Agora, exibe uma direção segura, com ótimo uso da iluminação, das cores, e de alguns ângulos que funcionam para tornar a trama mais interessante.
Se Um Crime de Mestre não é uma obra-prima ou um filme definitivo sobre assassinos, advogados e tribunais, sem dúvida é uma obra bem apresentada e eficiente. Tem tudo para não causar no espectador aquela desagradável sensação de ter jogado dinheiro fora ao pagar o ingresso. E isso, apenas isso, já o faz superior a quase todos os filmes que por aí circulam.
Por Rodrigo Rosp, em 14/05/2007

Nenhum comentário:

Postar um comentário