quinta-feira, 31 de março de 2011

Caminhada nas alturas


Recebi um arquivo em powerpoint e, desta vez, abri. Simplesmente porque vinha de um amigo sob o título "sugestão para uma caminhada".
As imagens são fantáásticas, adoreeeeei!
À 600 metros de altura a vertigem é certa!
Trata-sede uma rocha conhecida como O Preikestolen (literalmente “púlpito de rocha”), atração mais famosa de Stavanger, na Noruega.
Um percurso de pouco menos de 2 horas para levá-los a 600 metros de quota, num abismo sobre o fiorde Lysefjorden.
No youtube encontraram vários vídeos na pedra encaixada e a prática de jump.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Keynes

Época 19/02/2010
O historiador Robert Skidelsky conta por que o economista virou ídolo mundial. E a parte da teoria que todos esquecem

Marcos Coronato

Mais gasto público e mais poder para o governo. A receita soa como música para governantes e passou a ser repetida por aí com mais desenvoltura no mundo pós-crise, que questiona a liberdade e a eficiência dos mercados. Para esses governantes, o britânico John Maynard Keynes (1883-1946) virou o mais venerável dos economistas. Keynes defendia não apenas uma atuação governamental firme, mas também a responsabilidade nas contas públicas, a inflação sob controle e o poder da livre-iniciativa. Testava suas teorias como funcionário público de alto escalão – e como especulador. Nesse tema, poucos exibem a autoridade do lorde britânico Robert Skidelsky, um historiador que lançou em setembro, no Reino Unido, o livro Keynes – O retorno do mestre.

ENTREVISTA - Robert Skidelsky
QUEM É
Robert Skidelsky tem 70 anos, ensina política econômica na Universidade de Warwick e faz parte da Câmara dos Lordes do Reino Unido
O QUE FEZ
Entre 1983 e 2000, publicou uma premiada biografia em três volumes de John Maynard Keynes, um dos mais importantes economistas de todos os tempos
O QUE FAZ
Seu livro Keynes – O retorno do mestre sairá no segundo semestre pela Editora Civilização Brasileira

ÉPOCA – Para quem não é economista, como o senhor apresentaria Keynes? E por que falar em “retorno”?
Robert Skidelsky – Apesar de os principais livros dele terem sido escritos antes da Segunda Guerra Mundial, eles ainda são muito relevantes para o debate que temos neste momento sobre os estímulos econômicos, como e quando suspendê-los, e sobre como reconstruir o sistema econômico para evitar que catástrofes ocorram novamente no futuro. Ele tem muito a dizer sobre três pontos: a explicação da crise, o estímulo pós-crise e a reforma necessária.
Em vários lugares, mas principalmente no mundo anglo-americano, Keynes foi considerado fora de moda nos anos 80. A ideia que se estabeleceu era: governos fazem parte do problema, não da solução, e a economia estará muito melhor se eles interferirem menos. Ganhou influência a escola clássica de economia da Universidade de Chicago, que reviveu a crença nos mercados ótimos, autorregulados. Agora, acho certo falarmos em “retorno” de Keynes.
ÉPOCA – Ele afirmava ser impossível prever crises e ciclos econômicos. Então, como poderia nos ajudar?
Skidelsky – Ele disse que não se podem prever os ciclos, e enfatizo em meu livro a extrema importância da incerteza para Keynes. Com que frequência, onde e quando os colapsos vão ocorrer nós não sabemos. Mas sabemos quanto os mercados são propensos ao colapso por causa da incerteza. Podemos dizer que o sistema tende a sofrer disfunções graves. Para protegê-lo da possibilidade dessas disfunções, devemos considerar as reformas. O sistema deveria reduzir as chances de os colapsos ocorrerem.
ÉPOCA – E depois que o colapso já ocorreu? Há alguma lição em Keynes?
Skidelsky – Após os anos 80, a nova era dos mercados autorregulados e ao mesmo tempo moderados durou dez anos. Depois, começamos a nos encaminhar para a quebra econômica. A lição é que mercados desregulados não são autoajustáveis. Eles não buscam o pleno emprego. As teorias dos mercados eficientes, dos preços justos e das expectativas racionais não têm sentido. Elas são visões idealizadas dos mercados, e não observações sobre como eles realmente funcionam. Cabe aos governos procurar o pleno emprego.
Quando um mercado sofre um grande choque, ele não se recupera rapidamente, não recupera a produção, não ajusta preços automaticamente, não retoma o rumo para o pleno emprego. A não ser que algum estímulo seja dado, as condições do colapso podem se prolongar por muito tempo. Tivemos experiências sobre isso. Muitos economistas acreditam que, se não tivéssemos adotado medidas de estímulo ao redor do mundo, teríamos ficado atolados na Grande Depressão (após a quebra de 1929) . Se você tem um grande choque, deve adotar medidas de reação para impedir uma depressão econômica – mas, mais importante, precisa adotar medidas para tentar impedir, tanto quanto possível, que outro choque ocorra no futuro. Por isso, precisamos reformar o sistema bancário e manter um fluxo estável de investimento público. Precisamos de alguma redistribuição de renda, para aumentar o poder total de compra, e da reforma do sistema financeiro internacional, para evitar que problemas de balanço de países cresçam demais. Há uma enorme agenda de reformas, resultante do que aconteceu. Grande parte dela está na obra de Keynes.
ÉPOCA - Ele é frequentemente citado por quem defende governos maiores e mais fortes. De acordo com o senhor, ele via com suspeita cargas tributárias superiores a 25% do PIB. A do Brasil está acima de 35%. O que ele diria?
Skidelsky – Acho que devemos nos perguntar: o que queremos que o governo faça? Os 25% do PIB eram a norma, uma base razoável no tempo dele. Ele ficaria feliz em aceitar cargas maiores hoje, dependendo da missão dada ao governo pela sociedade. O que podemos nos perguntar é: o que a teoria keynesiana sugere como missão do governo? E a resposta é: manter uma alta demanda agregada, uma economia em crescimento. Keynes queria que os governos se orientassem também pela produção e pelo emprego, não só pelo controle da inflação. Há diversas ferramentas possíveis para isso: investimento público, parcerias público-privadas, taxas de câmbio, taxas de juro baixas. As medidas envolvem a expansão das atribuições macroeconômicas do governo, mas não envolvem sempre maior gasto público.
ÉPOCA – Ele se preocupava com a eficiência do gasto público?
Skidelsky – Talvez ele não tenha imaginado que o gasto público seria tão corrupto quanto se mostra hoje em muitos países. Mas já havia (no tempo dele) evidência de que grande parte desse gasto não seria eficiente. Temos de comparar esse gasto às perdas causadas por colapsos econômicos. O governo não é perfeito nem os mercados.
ÉPOCA – Como o senhor avalia a reação dos EUA e do Reino Unido à crise?
Skidelsky – Depois que a crise aconteceu, eles reagiram na direção correta, em comparação com o que foi feito entre 1929 e 1932. Naquela época, os governos erraram ao permitir o colapso econômico porque acharam que não tinham muito o que fazer a respeito. Desta vez, eles aumentaram a oferta de dinheiro e seus déficits para incentivar o gasto privado. Talvez eles não tenham agido com a intensidade que deveriam. Talvez, por isso, a recuperação seja tão débil e ainda enfrentemos a possibilidade de outra recessão.
ÉPOCA – Keynes atuou como especulador, perdeu e ganhou dinheiro no mercado desse jeito. Por que ele desistiu?
Skidelsky – Ele concluiu que não era possível acertar as altas e baixas. No tempo dele já havia modelos matemáticos tentando prever o comportamento do mercado, e os especuladores já tentavam comprar e vender no momento certo. No fim das contas, pouquíssimos especuladores se saem bem, como George Soros. Keynes se transformou num investidor de longo prazo, do tipo que compra e mantém o que comprou. Aí ele ganhou dinheiro de verdade.

terça-feira, 29 de março de 2011

Um conto

Se o título poderia ser outro (?!), mais criativo, acredito que sim...
Mas, Questão de Interpretação foi o título que escolhi há 10 anos...
E o mais gostoso foi ver o sorriso se formando nos rostos das pessoas que liam meu primeiro conto...
Nem Mastercard paga!

Eu fiz questão de contar, uma a uma...
Foram 122. Isto significa 61 pares de meias.
Aqui em casa, lavar as meias sempre foi um dilema. A gente olha nas gavetas: tem pouca, pensamos: “às compras, vamos comprar mais meias”.
Só que chega uma hora em que a consciência pesa e... Dá pra imaginar quantas meias estão sujas relembrando as vezes que fomos à rua, “às compras”.
O dia de sábado amanheceu ensolarado e resolvemos as três, juntas, dar um jeito nas meias...
Pensando no lema “a união faz a força”, juntamos as três num único tanque. Uma molhava, outra passava sabão e outra esfregava. Revezávamos, ainda, de outra maneira: uma enxaguando, colocando no amaciante, outra na máquina para centrifugar e outra no varal para secar.
E o melhor de tudo foi o papo que rolou...
“Pelo menos, ficamos fortinhas...”
“Que ótimo exercício para o peitoral...”
“É, a gente não devia deixar acumular, não dá pra ver o fundo do tanque...”
“Perceberam, crianças, como minhas meias são limpinhas? Eu não ando pelo carpete de meias.”
“É, mãe. Tem razão. Está precisando lavar o carpete.”
13.10.2000

segunda-feira, 28 de março de 2011

Blogueiro denuncia e sofre atentado

Advogado que critica governos e policiais é atingido por quatro disparos, três deles na cabeça
POR ISABEL BOECHAT

Rio - O advogado Ricardo Gama, de 40 anos — autor de um blog na Internet em que faz críticas pesadas a autoridades estaduais e municipais, policiais e milicianos —, sofreu um atentado, na última quarta-feira, dia 23 de março, pela manhã, na Rua Santa Clara, em Copacabana. Ele foi atingido com três tiros na cabeça e um no pescoço, quando caminhava na calçada. De acordo com testemunhas, os disparos foram efetuados por ocupantes de um Ford Ka prata.
O blogueiro foi socorrido por pedestres e levado para o Hospital Copa D’Or, onde passou por cirurgias. Até o fim da noite, seu estado de saúde era considerado grave. Para o delegado Bruno Giladerte, da 12ª DP (Copacabana), a principal hipótese é de que o crime tenha relação com as críticas que Gama fazia na Internet.
“Temos ali várias pessoas que poderiam ter se sentido ofendidas ou mesmo que poderiam ter como objetivo silenciar o que ele vinha escrevendo”, afirmou o delegado. Agentes estiveram em prédios da rua à procura de imagens de câmeras de seguranças em que os bandidos apareceriam.
Candidatura
Ano passado, Gama tentou uma vaga de deputado estadual pelo Partido da República (PR), liderado pelo deputado federal e ex-governador Anthony Garotinho. Amigo do blogueiro e ex-candidato ao governo estadual, Fernando Peregrino contou que o advogado chegou lúcido ao hospital. Ele acredita em crime político.
“Foi um atentado para matar mesmo. Vários tiros disparados em sua cabeça. Quem faz isso faz com motivações. Ele critica pessoas poderosas, mexe com instituições poderosas. Acreditamos, sim, em uma retaliação e um aviso aos demais que fazem o mesmo. Para nós, foi um crime político com dois objetivos: calar a boca do Ricardo e avisar aos que fazem denúncias contra as políticas de segurança, governamentais e sobre a milícia, que fiquem calados”, afirmou Peregrino.
O ‘aviso’, na opinião dele,seria dirigido a Garotinho e ao coronel Paulo Ricardo Paúl, ex-corregedor da PM, que também faz críticas ao governo em seu blog.
Repercussão na Internet
Ricardo Gama ficou famoso na Internet ao postar em seu blog vídeo em que o governador Sérgio Cabral chama de “otário” um jovem, durante visita a obras do PAC, em Manguinhos.
A fama do polêmico blogueiro fez o atentado ganhar rápida repercussão em microblogs e sites de relacionamento, ontem. Internautas comentaram o crime e mandaram mensagens e orações para Gama.
O coronel Paúl, que esteve no hospital, disse que ainda é cedo para falar em conotação política.

Endorfina contra a dor de cabeça

Veja, 28 maio de 2008.

Numa crise de cefaléia, não é o cérebro que dói. Doem o couro cabeludo, os músculos, os ossos da face, as meninges (membranas que recobrem o cérebro) e as artérias da base do crânio, que se dilatam no processo inflamatório. De todas essas estruturas, as mais sensíveis são os músculos da cabeça e os vasos sanguíneos. Eles são mais vulneráveis aos estímulos dolorosos porque abrigam fibras nervosas ultradelicadas. Já os tecidos cerebrais não doem por uma razão simples: são desprovidos de nervos. O cérebro é indolor a ponto de cirurgias como as que tratam a epilepsia e a doença de Parkinson serem feitas com o paciente acordado.

A dor de cabeça pode aparecer na forma de latejamentos, formigamentos ou pressões. Na enxaqueca, ela é associada à vasodilatação. Na cefaléia do tipo tensional, sua origem é muscular. A dor, para existir, independentemente do tipo e da procedência, necessita de terminações chamadas nociceptores. No caso das cefaléias, os nociceptores estão, principalmente, na rede de nervos que se estende no couro cabeludo, na face e na região do pescoço. No processo químico e elétrico que as desencadeia, entram em ação substâncias químicas que se alternam na função de estimular ou de tentar suprimir sinais dolorosos. Está comprovado que as pessoas que sofrem de dores de cabeça severas e outros tipos de dores crônicas têm níveis mais baixos de um analgésico natural, a endorfina.

domingo, 27 de março de 2011

Jon Krakauer

Época, 28 de março de 2011
A anatomia de uma morte estúpida
"Onde os homens conquistam a glória" conta a história de um astro em ascensão no futebol americano que morreu na guerra do Afeganistão
Peter Moon


JORNALISMO DE GUERRA
Krakauer (acima) e um soldado afegão. Em 2004, o repórter
foi ao Afeganistão investigar a morte de Tillman

A vida do jornalista Jon Krakauer mudou em maio de 1996. Montanhista, ele escrevia sobre esportes radicais para a revista Outside. Estava no acampamento-base do Monte Everest, no Nepal, onde várias equipes se preparavam para atingir o cume. Uma equipe foi pega por uma tempestade. Oito montanhistas morreram congelados. Entre os sobreviventes, dedos e membros foram amputados. Krakauer foi testemunha da maior tragédia da história do Everest. Descreveu-a no fascinante best-seller No ar rarefeito (1997). Naquela ocasião, ele já trilhava o filão literário dos livros reportagens que investigam a vida e as circunstâncias da morte de personagens inusitados. Seus personagens são todos “gente de bem”, cuja vida é movida por sonhos e ideias. Tudo parece ir muito bem, até o momento em que algo vai mal – graças a uma opção errada ou ao destino.
Foi assim com o americano Chris McCandless, um jovem que abandona a civilização de consumo em 1990 para vagar como mochileiro pela América a caminho de um Alasca idílico e selvagem. Lá chegando, ele aprende da pior forma possível que a natureza pode ser selvagem, mas jamais idílica. Em Na natureza selvagem (1996), Krakauer retraça o périplo de McCandless até sua morte acidental por envenenamento num ônibus abandonado no meio do nada. Em seu novo livro, Onde os homens conquistam a glória – a odisséia de um soldado americano no Iraque e no Afeganistão (Companhia das Letras, 408 páginas, R$ 55), Krakauer, hoje com 56 anos, dirige seu olhar crítico para os conflitos no Iraque e no Afeganistão. Para discutir a falta de sentido e a perda inútil de vidas inerentes a qualquer guerra, Krakauer foi ao Afeganistão em 2004. Seu objetivo era investigar as circunstâncias que culminaram com a morte do “herói de guerra” Pat Tillman, um astro em ascensão no futebol americano. Em 2002, Tillman surpreendeu a namorada, a família, os amigos, os fãs e a imprensa ao trocar uma carreira promissora e milionária nos campos esportivos por uma profissão arriscada, mal paga e de curta duração nos campos de batalha. Tillman alistou-se no Exército e participou da invasão do Iraque, em 2003. “Eu queria cumprir meu dever patriótico, assim como meu pai e meu avô fizeram”, escreveu em seu diário, como soldado do 2o Batalhão Ranger.
Se a pacificação do Iraque nunca foi tarefa fácil nem segura, nada se comparava à terra arrasada, ao calor insuportável e às escaramuças sanguinárias dos guerrilheiros talebans, o cenário com que Tillman se deparou em 2004, quando seu batalhão foi deslocado para o Afeganistão.
Tillman tinha 27 anos. Desde os tempos de escola, era um garoto determinado. Quando cismava com algo, submetia-se a grandes sacrifícios, pelo tempo que fosse necessário, para alcançar seu objetivo. Essa determinação fez dele um líder nos campos esportivos. O mesmo espírito levou-o à liderança de um esquadrão em seu pelotão Ranger. Tillman se preocupava com a segurança e o moral dos companheiros. Nunca fugia ao perigo na hora de proteger ou resgatar um deles. Agia como um homem sem medo – ou melhor, agia como se não tivesse tempo para sentir medo. Sua determinação, seus valores morais e seu tremendo vigor físico faziam com que corresse como uma locomotiva desgovernada. Tillman era tão rápido que as balas traçantes disparadas pelos fuzis Kalashnikov AK-47 dos talebans pipocavam a poucos metros de seus calcanhares.
Os olhos dos inimigos não conseguiam acompanhar a movimentação veloz do ex-jogador de futebol. O mesmo não ocorreu com a mira dos M-16 empunhados por seus companheiros. Em 22 de abril de 2004, ao disparar colina acima para dar proteção a um comboio americano emboscado pelos talebans, Tillman foi confundido com o inimigo. Três soldados americanos descarregaram três pentes de três fuzis na direção daquele vulto no alto da colina. Tillman morreu na hora.
Sua morte chocou os Estados Unidos. Ele foi a primeira personalidade conhecida a morrer no Afeganistão. Seu corpo foi trazido de volta aos Estados Unidos e enterrado com honras militares. Tillman era um herói morto pelo inimigo. Para o governo Bush e seus falcões dentro e fora do Pentágono, a vida desperdiçada daquele jovem californiano simbolizava os sacrifícios que a nação deveria suportar na guerra contra o terror. A verdade sobre a morte por “fogo amigo” foi escamoteada. O governo mentiu. O Exército mentiu. E os companheiros de Tillman foram obrigados a se calar. Mas a história cheirava mal. Tinha cara de uma farsa mal contada. Krakauer foi ao Afeganistão e descobriu a verdade. Ela foi revelada em 2009, nas páginas deste livro.

Flores...



Tá virando "marca registrada". Eu e minhas florzinhas...
Dia 03 de abril tem mais!

sábado, 26 de março de 2011

sexta-feira, 25 de março de 2011

Revistas velhas e Alexander Selkirk

Data fev 2008 - Os caminhos da TERRA, editora Peixes.
Na sessão Jornal da História, temos um fato de feveiro (2 fev 1709) que ficou na memória:

Alexander Selkirk é resgatado no Pacífico
Foto Biblioteca do Congresso, Washington

Mais de quatro anos haviam se passado - embora o tempo parecesse imóvel ali. As refeições eram as mesmas todos os dias: frutos nativos e carne de cabra. Mas ao mesnos ele comia. A velha cabana utilizada como dormitório pelos corsários em passagem por aquelas bandas estavam caindo aos pedaços. No entanto, lhe servia como moradia. Como distração e alento, nada além de uma Bíblia e algum tabaco. Uma afronta, uma escolha pessoa contrária à posição de toda a tripulação, foi suficiente para deixá-lo isolado naquela maldita ilha. Perdido no Pacífico, em algum lugar da então inabitada costa chilena, Alexander Selkirk estava completamente sozinho. Entretanto, estava vivo.
Quando o navio do capitão inglês William Dampier apontou no horizonte naquele 2 de fevereiro de 1709, o escocês Selkirk sentiu-se aliviado: enfim, o resgate havia chegado. Curiiosamente, pelas mãos do homem que - ainda que por vontade do próprio Selkirk - o deixara ali. Pirata experiente, em 1704 ele teimou com Deampier e pediu para ser deixado na Ilha de Juan Fernandez. O motivo fora uma discordância entre ambos quanto à gravidade de avarias no casco do navio comandado pelo inglês.
A tripulação da qual Selkirk fazia parte havia acabado de saquear navios espanhóis na América do Sul, quando decidiram aportar em Juan Fernández. Estavam prontos para partir de volta à Inglaterra com a pilhagem, mas o casco danificado incomodava Selkirk. Mais ainda, pesava-lhe a pressa do capitão em ir embora, ignorando o reparo necessário. Foi então que tomou a decisão mais corajosa de sua vida ao pedir para ser abandonado no local. Talvez esperasse que alguns dos homens lhe acompanhassem no protesto e, dessa forma, obrigassem Dampier a ordenar o conserto. Mas ninguém se manifestou.
Alexandre Selkirk não voltou atrás. Ficou na ilha e viveu. Grande parte dos tripulantes da embarcação morreria milhas adiante, vítima de um naufrágio causado pelo casco rompido. Quando cinco anos depois, em 1709, ao aportar em Jaun Fernandez, o capitão Dampier topou com um selvagem barbudo vestido com pêlo de cabra. Souve no ato tratar-se do homem ao qual deveria ter dado ouvidos. Trouxe-o de volta ao Reino Unidos e viu Selkirk assumir o navio por ele comandado em menos de um ano. Viu também a fama do náufrago crescer a partir do relato de sua trajetória num folhetim inglês, publicado por volta de 1711.
Quase uma década mais tarde, em 1719, Selkirk - sétimo filho de um sapateiro de uma pequena cidade da escócia - seria, de certa forma, imortalizado na ficção de Robinson Crusoe, escrita pelo britânico Daniel Defoe. No entanto, o herói de carne e osso parecida destinado a não colher os louros de sua bravura. O antigo pirata ingressou na Marinha Real um ano depois e, fardado, pouco fez. Morreu de uma misteriosa febre em sua primeira missão, na costa da África.
Para saber mais:
A ilha de Selkirk, Diana Souhami. Ediouro;
Robinson Crusoe, Daniel Defoe, Iluminuras.
Outra reportagem no site.

Mais um pedacinho da travessia



quinta-feira, 24 de março de 2011

Predadores - outra boa indicação

Outra indicação da portuguesa Claudia:

Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos é conhecido pelo pseudónimo de Pepetela, tendo nascido em Benguela, a 29 de Outubro de 1941. A sua obra reflete sobre a história contemporânea de Angola e os problemas que a sociedade angolana enfrenta. Durante a guerra colonial, Pepetela, sendo angolano de ascendência portuguesa, lutou juntamente com MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) pela independência daquele país, então uma colônia portuguesa. A sua obra nos anos 2000, na qual se enquadra o presente romance, critica a situação angolana, cujos textos são marcados por um estilo vincadamente satírico, onde se inclui a série policial Jaime Bunda. As suas obras mais recentes também são, para além de Predadores onde critica asperamente as classes dominantes de Angola, O Quase Fim do Mundo, uma alegoria pós-apocalíptica, e O Planalto e a Estepe, que examina as ligações entre Angola e outros países ex-comunistas. Licenciado em Sociologia, Pepetela é docente da Faculdade de Arquitectura da Universidade Agostinho Neto em Luanda.

Em Predadores, a corrupção do homem pelo homem é caracterizada como uma psicose social responsável pelo apodrecimento da estrutura burocrática que sustenta o mecanismo de funcionamento das Instituições de um Estado, quando este se alia ao crescimento desregulado do capitalismo selvagem. Neste romance, o Autor propõe-se dissecar, expondo exemplos concretos da forma como evolui a estrutura econômica de um país – passando por vários regimes políticos e sofrendo vários tipos de influência social, cultural e ideológica, que se arrasta ao longo de várias décadas com deficiências estruturais graves, apesar da imensidade dos recursos naturais de que dispõe – ao longo de um período que abarca quatro décadas. Ao lermos uma obra desta envergadura ficamos conscientes até que ponto o estado atual daquela economia não é alheio às consequências da descolonização portuguesa, nem ao teor das relações que o mesmo país recém-independente estabeleceu, desde então, com as principais super-potências econômicas – e bélicas – mundiais, interessadas apenas em explorar os recursos naturais locais em proveito próprio, mais do que em desenvolver a região.
Pepetela utiliza a acuidade e a frieza do olhar de sociólogo para inserir um conjunto de personagens fictícias, representativas da mentalidade e da cultura daquele país, sem esquecer os elementos cumulativos da cultura local que se fundiram ou foram sendo moldados pela influência externa, isto é, pela forma como se foram “casando” duas formas de viver diametralmente postas – o modo de viver africano, a cultura ancestral e a respectiva relação com os elementos locais, com a terra em si, e os invasores europeus e americanos.
O livro é, todo ele, tal como dá a entender o título, uma implacável crítica às classes dominantes, aos predadores, que exploram de forma “canibalesca”, os seres mais fracos da própria espécie.
A figura mais representativa desta classe é Vladimiro Caposso, novo-rico, oportunista, grande empresário e latifundiário, que exerce uma forte pressão no sistema bancário e político daquele país no sentido de obter privilégios e benefícios, no sentido de forjar leis que favoreçam os seus negócios de forma que não pareçam ilegais. Vladimiro Caposso é um ex-militante do Partido Comunista de Angola, que cedo deixa de ser, logo que se lhe apresenta outra forma mais fácil de obter mais poder e que lhe possa ser útil aos seus objetivos de enriquecer meteoricamente. A qualquer preço.
A filha mais nova, Mireille, é uma predadora mais soft, mais discreta. Trata-se de uma beldade, culta e inacessível, que gosta de brincar com as emoções dos que a amam, tal como um felino que se diverte com a presa antes de a matar, neste caso, de a dispensar.
Outro predador, mais frio e calculista, com ar vagamente lupino, acentuado pelos olhos claros e cabelos cinzentos como o pêlo do lobo do Alasca, é o investidor americano Wolf, é um dos poucos cuja inteligência rapace consegue superar a esperteza saloia de Caposso.
Do lado oposto à classe dos predadores, temos os idealistas que acreditam no fruto do trabalho, no treino intensivo e na preparação adequada ao exercício de uma dada profissão como é o caso do jovem engenheiro Nacib, filho de um sapateiro. O jovem consegue, com grande esforço e persistência, tirar um curso superior enquanto trabalha numa oficina de mecânica de um amigo do pai. Nos EUA, apercebe-se que as fronteiras sociais são um pouco mais diluídas do que no Velho Mundo, embora o controlo social seja muito maior - por exemplo, nota que os Americanos não são dados a manifestações afetivas em públicos por temerem a crítica social, reservando as efusões apaixonadas para o espaço privado. Ali, conhece uma jovem onde se relaciona de igual para igual, mas em África vive uma angústia constante, sentindo o peso das origens humildes da da condição sócio-económica operária da própria família, por se apaixonar por uma mulher de condição social muito superior.
O trabalho árduo não lhe permite enriquecer, apenas viver de forma um pouco mais confortável do que os pais, o mesmo acontecendo ao advogado idealista e honesto, defensor de causas perdidas que conhece quando tem de processar Caposso pelo desvio ilegal de um rio, que deixa várias povoações e pastagens sem água. É, sobretudo, a distância em termos sócio-econômicos que interfere no seu relacionamento com Mireille. Com o desenlace da trama, damo-nos conta que não basta uma revolução para derrubar os muros erigidos por preconceitos e estereótipos, sendo necessárias várias décadas de trabalho duro e efetivo para produzir uma mudança sutil.
Mireille é uma jovem muito mais superficial do que aparenta. Preocupa-se apenas em fazer o que gosta, sem se preocupar com o bem-estar alheio, ao contrário da irmã, a altruísta e romântica Djamila.
[...]
Cláudia de Sousa Dias

quarta-feira, 23 de março de 2011

Um ótimo filme espanhol

Na verdade confundi o nome dos filmes: O Segredo de Meus Olhos e loquei, neste carnaval, o título: Pelos Meus Olhos / Te Doy Mis Ojos

De: Icíar Bollaín, Espanha, 2003
Excepcional! Surpreendente!
Encara de frente o tema da violência doméstica. E de forma brilhante! 
Com Laia Marull (Pilar), Luis Tosar (Antonio), Candela Peña (Ana),

Rosa María Sardà (Aurora), Nicolas Fernandez Luna (Juan)
Argumento e roteiro Icíar Bollaín e Alicia Luna
Fotografia Carles Gusi
Música Alberto Iglesias
Produção Alta Productión, Producciones La Iguana
Título em inglês: Take My Eyes
Título em Portugal: Dou-te os Meus Olhos

segunda-feira, 21 de março de 2011

Uma amostra do Parque Itacolomi


Outra travessia neste sábado: Parque do Itacolomi até Mariana...
E não deixei de correr no Circuito Adidas no domingo...
Ai, ai... E vamo que vamo! Vejamos o quanto dura essa bateria, hehe

sexta-feira, 18 de março de 2011

Tortura nos porões da Ditadura

"Torturei uns trinta"
O ex-tenente gostava "muito" de dar choque nos dedos e aprendeu a torturar "vendo"

Alexandre Oltramari
Veja, dez de 1998.
Foto: Moreira Mariz


Marcelo Paixão de Araújo debruçou-se sobre uma mesa de vidro, na sala de seu amplo apartamento, em Belo Horizonte, pediu à empregada para trazer biscoitos, água mineral e café — e prestou a VEJA um histórico depoimento de quase duas horas. Com ele, tornou-se o primeiro agente da repressão a admitir em público que torturava presos políticos durante a ditadura militar. Hoje, passados trinta anos, sua vida é tranqüila. Herdeiro dos fundadores do sólido Banco Mercantil, Marcelo Paixão de Araújo formou-se em direito e trabalha como corretor de seguros, em Betim, a 30 quilômetros de Belo Horizonte, para onde vai dirigindo seu Toyota do ano. Casado, duas filhas, acaba de mudar-se para um apartamento de 300 metros quadrados, na região da Savassi, um dos bairros mais chiques da capital mineira. Apesar dos 15 quilos acima do peso ideal, ele maneja seu barco no lago de Furnas, onde tem uma casa para os fins de semana. De manhã, lê por uma hora, antes de sair para o trabalho. Em casa, tem uma biblioteca de 2.500 volumes, onde se podem encontrar desde clássicos da literatura brasileira até manuais de tortura. Ele gosta de livros de política e de História e, nos últimos tempos, tem-se dedicado à leitura de biografias. Leu A Lanterna na Popa, do ex-ministro Roberto Campos, e Chatô, o Rei do Brasil, do jornalista Fernando Morais.

Em 1968, Marcelo Paixão de Araújo servia como tenente no 12º Regimento de Infantaria do Exército em Belo Horizonte, um dos três centros mais conhecidos de tortura da capital mineira durante a ditadura militar. Ali, permaneceu até 1971. "Fiquei porque achava que a única forma de consertar o país era por meio das Forças Armadas", diz. Ao deixar a caserna, foi trabalhar na empresa do pai, a Minas Brasil, braço de seguros do Banco Mercantil, onde ocupava o cargo de superintendente técnico. Raríssimas vezes usava terno e gravata. Preferia trabalhar de calça jeans. "Ele era diferente do pai e dos irmãos. Era um moleque, uma pessoa muito alegre, que vivia contando piada", diz uma ex-funcionária da empresa. "Descobri que eu não havia nascido para ser executivo", conta Marcelo. Ali, trabalhou seis anos, mas teve tantos problemas que saiu da empresa para o divã do analista. Fez sete anos de análise. Ele garante que não recorreu ao divã em função da passagem pelo porão e diz que vive em paz com seu passado. Na entrevista a VEJA, o ex-tenente alternou estados de humor, indo da descontração à rispidez em segundos. Aqui, ele conta como e por que torturou três dezenas de presos políticos, de 1968 a 1971:

Veja — Durante a ditadura, em depoimentos na Justiça Militar, 22 presos políticos acusam o senhor de tortura. É verdade?
Araújo — Quem lhe disse isso?
Veja — Vi nos processos na Justiça Militar. E, pela quantidade de presos que o citaram, o senhor é o agente da repressão que mais praticou torturas. É verdade?
Araújo — Sim. Todos os depoimentos de presos que me acusam de tortura são verdadeiros.
Veja — O senhor fez isso cumprindo ordens ou achava que deveria fazê-lo?
Araújo — Eu poderia alegar questões de consciência e não participar. Fiz porque achava que era necessário. É evidente que eu cumpria ordens. Mas aceitei as ordens. Não quero passar a idéia de que era um bitolado. Recebi ordens, diretrizes, mas eu estava pronto para aceitá-las e cumpri-las. Não pense que eu fui forçado ou envolvido. Nada disso. Se deixássemos VPR, Polop (organizações terroristas) ou o que fosse tomar o poder ou entregá-lo a alguém, quem se aproveitaria disso seriam os comunistas. Não queríamos que o Brasil virasse o Chile de Salvador Allende. Nessa época, eu tinha 21 anos, mas não era nenhum menino ingênuo (risos). O pau comia mesmo. Quem falar que não havia tortura é um idiota.
Veja — Como o senhor aprendeu a torturar?
Araújo — Vendo.
Veja — O que o senhor fazia?
Araújo — A primeira coisa era jogar o sujeito no meio de uma sala, tirar a roupa dele e começar a gritar para ele entregar o ponto (lugar marcado para encontros), os militantes do grupo. Era o primeiro estágio. Se ele resistisse, tinha um segundo estágio, que era, vamos dizer assim, mais porrada. Um dava tapa na cara. Outro, soco na boca do estômago. Um terceiro, soco no rim. Tudo para ver se ele falava. Se não falava, tinha dois caminhos. Dependia muito de quem aplicava a tortura. Eu gostava muito de aplicar a palmatória. É muito doloroso, mas faz o sujeito falar. Eu era muito bom na palmatória.
Veja — Como funciona a palmatória?
Araújo — Você manda o sujeito abrir a mão. O pior é que, de tão desmoralizado, ele abre. Aí se aplicam dez, quinze bolos na mão dele com força. A mão fica roxa. Ele fala. A etapa seguinte era o famoso telefone das Forças Armadas. Tinha gente que dizia que no telefone vinha inscrito US Army (indicando que era produto das Forças Armadas americanas). Balela. Era 100% brasileiro. O método foi muito usado nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas o nosso equipamento era brasileiro.
Veja — E o que é o telefone?
Araújo — É uma corrente de baixa amperagem e alta voltagem.
Veja — De quanto?
Araújo — Posso pegar o manual para informar com certeza. Mas não tem perigo de fazer mal. Eu gostava muito de ligar nas duas pontas dos dedos. Pode ligar numa mão e na orelha, mas sempre do mesmo lado do corpo. O sujeito fica arrasado. O que não se pode fazer é deixar a corrente passar pelo coração. Aí mata.
Veja — Qual era o estágio seguinte quando o preso não falava?
Araújo — O último estágio em que cheguei foi o pau-de-arara com choque. Isso era para o queixo-duro, o cara que não abria nas etapas anteriores. Mas pau-de-arara é um negócio meio complicado. No Rio e em São Paulo gostavam mais de usar o pau-de-arara do que em Minas Gerais. Mas a gente usava, sim. O pau-de-arara não é vantagem. Primeiro, porque deixa marca. Depois, porque é trabalhoso. Tem de montar a estrutura. Em terceiro, é necessário tomar conta do indivíduo porque ele pode passar mal. Também tinha o afogamento. Você mete o preso dentro da água e tira. Quando ele vai respirar, coloca dentro de novo, e vai por aí afora. É como um caldo, como se faz na piscina. Era eficiente. Mas eu não gostava. Achava que o risco era muito alto. Afogamento não era a minha praia (risos). A geladeira, uma câmara fria em que se coloca o preso, não funcionava em Belo Horizonte. Era muito caro. O que tinha era o trivial caseiro. O menu mineiro.
Veja — O que mais tinha no menu mineiro?
Araújo — A dança da lata eu praticava muito.
Veja — Como era?
Araújo — Eu pegava duas latinhas de ervilha e abria. Depois, colocava o cara de pé, em cima.
Veja — Sangrava?
Araújo — Não. Ele falava antes disso (gargalhadas). Mas quem era mais leve agüentava mais tempo.
Veja — E quem não tinha o que dizer?
Araújo — Ia para a lata igual. Mas é muito fácil identificar quem tinha e quem não tinha o que falar.
Veja — Como?
Araújo — Militante é diferente. Jornalista é diferente de militar, que é diferente de empresário, que é diferente de militante. Ele se deixa trair por uma série de coisas. O linguajar, para começar, é diferente. Então, inocente só era torturado quando o agente era muito cru, sem conhecimento algum da práxis marxista, ou quando era um sádico. É muito fácil identificar uma pessoa que não é de esquerda. Vou dar um exemplo. Há algum tempo fui comprar dólares no Banespa, no câmbio turismo. Como até hoje tenho minha carteira militar, apresentei-a no lugar da identidade. O atendente viu a carteira, olhou para mim e perguntou:
— O senhor serviu no colégio militar?
— Tive uma época lá. Por quê? Você foi aluno lá?
— Não.
— Você foi soldado?
— Não.
— Escuta, eu te prendi?
— Não foi bem assim. Fui preso e o senhor foi o único que acreditou em mim. Apanhei com palmatória antes de o senhor chegar e me liberar.
— Sorte, hein? Já pensou se fosse o contrário? (risos).
Veja — O senhor já reencontrou alguma pessoa que torturou?
Araújo — Sim. Eventualmente, eu encontro ex-presos meus, inclusive os que apanharam. E o relacionamento não é muito ruim, não. Não é aquele negócio de dar beijinhos e abraços. Mas é um relacionamento de respeito. Há pouco tempo, aqui em Belo Horizonte, encontrei o Lamartine Sacramento Filho, que é professor em uma faculdade local. Segurei ele no ombro e disse: 'Você não me conhece, não?' Ele levou um susto. Aí eu disse: 'Você tá bom?' Ele disse que sim e não quis mais conversa. Mas também não passa batido, não (risos). Não deixo passar batido (sério).
Veja — Por quê?
Araújo — É o meu esquema. Não deixo passar batido. Não vai passar batido. Não passa batido. Vou lá, coloco a mão no ombro dele e digo: Não me esqueci de você, não. Você lembra de mim? Estamos aí. A vida continua.
Veja — Quantas pessoas o senhor já torturou?
Araújo — Não tenho idéia. Não sou igual a matador que faz talho na coronha do revólver para cada um que mata. Mas você quer um número aproximado?
Veja — Sim.
Araújo — Uns trinta.
Veja — O senhor matou alguém em sessões de tortura?
Araújo — Não. Já atirei, mas não matei.
Veja — Mas morreu gente onde o senhor servia.
Araújo — Pouca gente. O João Lucas Alves, que era um ex-sargento da FAB, foi um deles. Ele morreu na tortura.
Veja — O senhor participou?
Araújo — Não. Isso foi alguns dias antes de eu ser convocado. Depois que eu saí, se morreu alguém eu não sei.
Veja — O que é besteira e o que é verdade no que já se escreveu sobre tortura no Brasil?
Araújo — Há algumas pequenas inverdades. Mas a maioria dos fatos é correta. Há pouca besteira e muita verdade. As pessoas que participaram desse período até hoje não falaram abertamente. As altas autoridades do país foram as primeiras a tirar o seu da reta. Morri de rir ao ler o livro sobre o Geisel (refere-se ao livro que reúne as memórias do ex-presidente Ernesto Geisel, publicado no ano passado pela Fundação Getúlio Vargas). Segundo o depoimento de Geisel, ele não sabia de nada, mandava apurar tudo, era um inocente. É uma gracinha isso tudo. Todos os agentes do governo que escreveram sobre a época do regime militar foram muito comedidos. Farisaicos, até. Não sabiam de nada, eram santos, achavam a tortura um absurdo. Quem assinou o AI-5? Não fui eu. Ao suspender garantias constitucionais, permitiu-se tudo o que aconteceu nos porões. É claro que havia diversas pessoas envolvidas nisso. Mas eu não vou citar o nome de ninguém. Falo apenas de mim.

quarta-feira, 16 de março de 2011

China e a democracia

"Pode ser que haja pessoas que não acreditam em Deus, mas cresceram festejando Natal e Páscoa, vivendo uma tradição cultural que permanece a mesma apesar de todas as mudanças. Qual é a lei na China? Nos tempos antigos, o imperador era a lei. Então, quando o feudalismo acabou, em 1912, a China não conseguiu encontrar um mestre. Os senhores de guerra digladivam-se pelo poder, cada um tentando ser rei do seu próprio domínio. E então veio Mao, que deu um basta em todas essas lutas. Você se lembra de cantar 'O Oriente é vermelho'? Na mesma época, todo mundo venerava Mao Tsé-Tung como um Deus. Você estuda a sociedade - não lhe ocorreu que o poder de Mao vinha não do culto à personalidade, mas de uma desesperada necessidade de acreditar em algo? Uma população de pouquíssima instrução, que tirava a sobrevivência da terra, precisava de um deus para dar ordem ao universo. Precisavam de um deus cujas palavras todos pudessem obedecer, para que pudessem viver com estabilidade e em segurança as suas pobres vidas. Despotismo era a única maneira disso acontecer: todos eram ou inimigos, ou camaradas. Agora os chineses querem a democracia, mas quantas pessoas realmente compreendem o que é a democracia? Há democracia de verdade no Ocidente, com suas guangues criminosas, guerra de religião e governos que tomam determinas ações que se opõem à vontade do povo? Será que os estudantes da praça Tian'amen realmente sabiam por que estavam protestando? Muitos chineses não veem nenhuma diferença entre a revolta estudantil de Tian'amen e a Revolução Cultural: ambas foram levadas adiante por jovens, ambas queriam varrer a velha ordem em nome da 'Democracia'. Mas democracia não é algo que se adquire simplesmente agitando uma bandeira..."
Trecho da Obra As filhas sem nome, de Xinran

terça-feira, 15 de março de 2011

Novas rotas de fuga!

Em abril passado, postei Viagens em fuga - uma série de fotos por onde andei, rs
Sinto que é hora de refazer, postar novo álbum, contar a vocês minhas últimas rotas de fuga...
BsAs é abreviatura de Buenos Aires - Argentina




segunda-feira, 14 de março de 2011

Um momento de reflexão

Protestos pró democracia no mundo árabe. Oriente Médio é ícone de reservas de petróleo e terrorismo.
O que está nas entrelinhas?

Época, 14 março de 2011
As lições do Oriente para os países do Ocidente
Fernando Abrucio

As revoltas populares no norte da África e no Oriente Médio podem abrir perspectivas políticas a esses países. Governados por ditaduras há décadas, agora eles têm a chance de produzir uma onda democrática na região, tal como ocorreu nas décadas de 1970 e 1980 no sul da Europa, na América Latina e no Leste Europeu. Mas o caminho à democracia ainda é incerto. A grande certeza produzida por esse episódio é que as nações ocidentais, principalmente as mais desenvolvidas, precisam mudar sua agenda internacional, centrada na lógica econômica e no paradigma da segurança.
Cabe aqui contrastar o discurso dos países desenvolvidos nas décadas de 1970 e 1980 com a retórica que dominou o cenário internacional nos últimos 20 anos. Embora no primeiro período citado vigorasse a Guerra Fria, o ocaso dos regimes autoritários em várias partes do globo realçou a importância da questão democrática. Provavelmente variáveis econômicas, sociais (como as de cunho étnico) e geopolíticas tenham sido mais decisivas para o fim da União Soviética. Mas a defesa das liberdades e da democracia colocou o Ocidente numa posição confortável para criticar e se sentir vitorioso no plano ideológico na luta contra o socialismo soviético.
O júbilo da vitória trouxe consigo a redução da importância da questão democrática na agenda das potências ocidentais. A década de 1990 marcou o início da hegemonia da lógica econômica, marcada pelo discurso da superioridade da economia de mercado. Foi isso que permitiu a paulatina aceitação da China como elemento fundamental da ordem internacional, uma vez que, embora comunistas, os chineses tinham aderido, a sua maneira, ao capitalismo. Mais que isso: a China representava a possibilidade de catapultar a globalização econômica.
A política não podia – e não pode nunca – ficar fora das relações internacionais. Mas sua faceta ficou cada vez mais vinculada à questão da segurança. Esse processo se iniciou com a primeira Guerra do Iraque e se solidificou com o 11 de setembro de 2001. Tornou-se muito mais importante ter uma política internacional que garantisse, acima de tudo, a segurança contra ataques terroristas. É interessante observar novamente a China, agora por este ângulo: o Estado chinês não representava perigo à segurança dos países desenvolvidos. Assim, a China seria aceita no banquete da ordem global independentemente de ser uma nação autoritária e que desrespeita sistematicamente os direitos humanos, tal qual faziam a União Soviética e as ditaduras derrubadas pela onda de democratização das décadas de 1970 e 1980.
Firmou-se uma agenda internacional marcada por uma espécie de pragmatismo orientado pela economia e pela segurança. Repito, o modelo de aceitação da China tornou-se um paradigma para justificar as políticas externas. Mesmo o Brasil, que desde o final da ditadura tem se manifestado firmemente pela democracia, por vezes escorregou no pântano deste novo pragmatismo, como a pisada na bola no caso iraniano. O governo Lula seguiu aqui a mesma lógica que tem orientado os Estados Unidos e a Europa: devemos ser pragmáticos para conquistar mercados, respeitando a soberania dos povos – embora, como demonstra o caso da Líbia, a soberania seja mais dos governos do que de seus cidadãos.
Dois episódios recentes colocaram em xeque esse pragmatismo. O primeiro foi a crise econômica de 2008. Não dá mais para afirmar, de modo incólume, que a economia de mercado justifica tudo – e o documentário Trabalho interno, vencedor do Oscar em 2011, mostra as consequências nefastas dessa crença. E agora vêm estas revoltas no Oriente para relembrar aos ocidentais que a democracia deve voltar a orientar suas preocupações. Não é mais possível ficar defendendo os Kadafis em nome do pragmatismo.
É claro que ficam perguntas perturbadoras no ar: e se radicais islâmicos assumirem o poder no Oriente Médio? Como discutir a agenda democrática com um país tão poderoso como a China? A resposta não é fácil, mas com certeza ela não virá do pragmatismo cínico do pós-Guerra Fria.

As filhas sem nome, de Xinran

Geralmente, escolho livros para leitura/compra/presente pelas "orelhas". Considero, inclusive, de suma importância o trabalho destes "resumistas"; pois é o que escrevem que convencem ou não o leitor.
Outras vezes, as notas introdutórias ou finais retratam melhor o trabalho de pesquisa do autor e a abrangência do tema.
Então, transcrevo para vocês a introdução (pela autora) da obra As filhas sem nome, Companhia das Letras, 2009:

Antes de vir para a Inglaterra em 1997, eu trabalhava como apresentadora de um programa de rádio em Nanjing. Meu programa, Palavras na brisa noturna, era um talk show que discutia questões relativas às mulheres e, a fim de pesquisar para a emissão, eu frequentemente viajava para os rincões da China. Uma vez, em uma pequena aldeia na província setentrional de Shanxi, ouvi falar de uma mulher que cometera suicídio bebendo pesticida porque não conseguia dar à luz a um menino - ou, como os chineses dizem, não conseguia "pôr ovos". Quase ninguém da aldeia foi ao enterro, e perguntei ao marido como ele se sentia a respeito. "Não se pode culpá-los", ele disse, sem nenhum traço de rancor. "Não querem ser contaminados pela sua má sorte. Além disso, é culpa dela só dar à luz um punhado de palitinhos e nenhuma cumeeira." Fiquei chocada por essa maneira de se referir a meninas e meninos. Nunca a ouvira antes, mas parecia resumir a visão dos chineses sobre as diferenças entre homens e mulheres. Ao passo que os homens são considerados fortes provedores, que sustentam o telhada da casa, as mulheres são apenas instrumentos frágeis e cotidianos, para serem usadas e então descartadas. A ideia me deixou melancólica, mas enquanto estava lá de pé, ponderando sobre as palavras do homem, ouvi uma de suas filhas se pronunciar de algum lugar ali perto: "Vou mostrar à gente desta aldeia quem é o palitinho e quem é a cumeeira".
Ao longo do meu trabalho como jornalista, encontrei muitos "palitinhos"- garotas de aldeias pobres que viviam vidas de trabalho árduo em casamentos arranjados. De início, meus encontros com elas constumavam se limitar às minhas visitas ao interior. Entretanto, à medida que a China começou a reformar sua economia, durante os anos 80, e os camponeses foram autorizados a buscar trabalho nas cidades, essas garotas "palitinhos" passaram a trabalhar como garçonetes e faxineira em restaurantes, hotéis de grandes centro urbanos. As pessoas das cidades muitas vezes sequer enxergavam, quase como se elas não estivessem lá, mas eu sempre tentava entabular uma conversa e descobrir suas histórias. E pensei muito nelas quando cheguei à Londres pela primeira vez.
Para sobreviver financeiramente naqueles primeiros dias na Inglaterra, trabalhei por um curto período de tempo como faxineira de estabelecimento comercial e garçonete. Os ocidentais olhavam através de mim como se eu fosse transparente, do mesmo modo como as pessoas da cidade olhavam atra'ves das moças "palitinhos" na China, e pensei entender melhor como eram suas vidas. Fiquei tocada pela autoconfiança e pela determinação que as levavam a cavar um lugar para si longe de seus lares e familiares. Como eu disse, esse período da minha vida foi breve, e depois de trabalhar como professora consegui, em 2002, publicar meu primeiro livro, As boas mulheres da China. Desde então voltei várias vezes à minha terra natal e observei as extraordinárias mudanças que estão acontecendo na China à medida que o país avança século XXI adentro. Sempre que o visito, vejo centenas de moças "palitinhos" se tornando parte da estrutura que dá sustentação ao telhado da China, do mesmo modo como a própria China, que durante tanto tempo permaneceu fechado aos seus vizinhos, está se tornando parte da estrutura que sustém o mundo.
Já há bastante tempo eu queria registrar as histórias de algumas das moças que conheci. Sentia que, se não capturasse essas vidas para mim mesma, para meu filho e para os outros, eu me arrependeria profundamente. De todas as moças com as quais falei, há três que me são queridas de um modo especial, e essas histórias parecem falar por muitas outras. A fim de proteger suas identidades, escrevi este livro como se elas fosse irmãs, todas trabalhando em Nanjing mesmo se, na vida real, não têm relação alguma entre si e mesmo se só conheci uma delas em Nanjing - as outras duas eram de Beijing e Shanghai.
Foi extremamente prazeroso para mim escrever sobre Nanjing, o lugar que mais amo na China. Situada na bacia do rio Yahngzi, é uma cidade de enorme importância para a história e para a cultura chinesa. Serviu como capital de seis dinastias e, quando a República da China foi fundada, em 29 de dezembro de 1911, com Sun Yatsen como presidente provisório, Nanjing mais uma vez se tornou capital. Evidências de sua longa história estão por toda parte - no belo templo de Confúcio, situado próximo do rio Qinhuai, e na muralha da cidade, construída entre 1366 e 1386 pelo imperador Xhu Yuanzhang após ele ter fundado a dinastia Ming. Essa muralha foi construída com tanta maestria e era tão forte que ainda existe quase que integralmente e é a mais antiga fortificação remanescente de uma cidade no mundo. Claro, a Nanjing moderna se espalhou além desse limite e dos treze portões originais apenas dois ainda estão de pé. Mas, ao se caminhar sobre a muralha, como eu gostava de fazer quando morava e trabalhava na cidade, é possível avistar logo abaixo as velhas árvores e o antigo fosso, e imaginar-se nos tempos da outrora. Nanjing é famosa por suas flores de ameixeiras, e na primavera eu adorava observar os primeiros botões rosados se abrirem contra o pano de fundo dos cedros verde-escuros que são marca registrada da cidade. Fora da muralha, foram criados parques onde, durante todo o dia, era possível ver habitantes de Nanjing relaxando entre as árvores. A manhã era o período em que os velhos se exercitavam e jogavam xadrez; mais tarde as mulheres apareciam para conversar, costurar e preparar legumes; à tardinha homens paravam, no caminho de volta do trabalho, até que suas mulheres e filhas os chamassem ara o jantar.
Em 2002, voltei a visitar um dos meus locais favoritos: o trecho da muralha que fica na zona sul da cidade. Fiquei pasma ao encontrá-la transformada. Centenas de prédios haviam surgido do lado de fora da fortificação, como brotos de bambu depois da chuva, e havia ali um grande mercado. Foi então que pensei que talvez a histórias das minhas moças-palitinhos deveria se iniciar aqui, próximo do portão Zhonghua, em pé há seiscentos anos e que tanta alegria e dor testemunhou.

"As Filhas Sem Nome", de Xinran, redime "As Boas Mulheres da China" com história de otimismo
por Martha Lopes - 12 de maio de 2010

A escritora chinesa Xinran introduziu os horrores da Revolução Cultural no imaginário mundial com seu livro "As Boas Mulheres da China". Se você leu o relato, provavelmente ficou chocado com as histórias de estupro e com os abusos que esfacelaram o país e penalizaram tremendamente as mulheres. Pois "As Filhas Sem Nome" (Companhia das Letras, 296 páginas), obra da autora lançada em abril no Brasil, redime a tristeza do primeiro volume: trata-se de uma história positiva de superação e esperança.
"As Filhas Sem Nome" apresenta a realidade das "garotas-palitinho", mulheres nascidas no interior da China, onde é considerado uma maldição ter filhas. Acredita-se que a "boa" mulher é aquela que sabe "por ovos", ou seja, gerar homens, que são resistentes como cumeeiras, em oposição a mulheres, frágeis como palitinhos.

domingo, 13 de março de 2011

127 horas pode (mesmo!) provocar vômitos

Constatei que bem me conheço: não tive estômago para assistir à cena de mutilação do filme 127 horas - o chilique foi menos vergonhoso em casa, : ((

127 horas não levou estatueta, apesar de seis indicações para o Oscar 2011. James Franco ganhou prêmio de melhor ator no Spirit Awards - premiação considerada o Oscar do cinema independente.

A estatueta de melhor ator ficou para Colin Firth pela brilhante atuação em O Discurso do Rei, filme que levou outras 3 estatuetas: melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro original.

sábado, 12 de março de 2011

Você é responsável, também!

A falta de cumplicidade da população para combater os focos da dengue exige a fabricação de uma vacina. Sempre o combate e nunca a prevenção!
É sério e triste!
A falta de cumplicidade é também na coleta de lixo seletivo. Lavar o lixo? Precisa?
Claro que sim! O lixo só pode ser (re)aproveitado se limpo, se seco e sem resíduos.
As embalagens tetra-pak só têm 100% de aproveitamento se não estiverem mofadas/sujas.
Diante de tantas calamidades - enchentes e deslizamentos de terra - o que mais NÓS precisamos para CONSCIENTIZAR-MO-NOS que somos RESPONSÁVEIS???
Deixo aqui meu desabafo...
Ainda acredito que posso "contaminar" alguém com os meus discursos...

sexta-feira, 11 de março de 2011

Samba-enredo da Vai Vai homenageia um artista, exemplo de superação




Veja abaixo o samba-enredo da Vai-Vai
A Música Venceu:
Feliz da vida lá vem o Bexiga
Exemplo de comunidade
A Música Venceu
O dom é luz que vem de Deus
Da emoção Vai-Vai resplandeceu
Dos céus, em um cortejo divinal
Os deuses da inspiração
Lançam talento a um mortal
Um ser abençoado, que hoje brilha neste carnaval
As sinfonias de Bach regeram seu destino
Orgulho brasileiro
Jovem pianista genial
Em "preto-e-branco" sucesso internacional
Na sua fé, resistiu !!!
E a dor da adversidade, suplantou !!!
Com muita garra e amor
E assim, na sua força de superação
Buscou a verdadeira vocação
Um novo incidente o quis derrubar
Mas com maestria se pôs a lutar
Por seu ideal
Luz da Ribalta que jamais se apagará (se apagará)
E ao som de "Bravos e Aplausos"
A Saracura agora vem cantar

quinta-feira, 10 de março de 2011

Outro presente!

Ultimamente, um livro é minha "marca registrada". Foi esta a motivação principal para criar este blog.
Ganhei, inclusive, um porta-livros em patchwork! (o marcador é uma borboleta! adoreeei!)

Gostaria de conversar com vocês, fiéis seguidores, outra coisa...
Querem escolher um assunto? Sugerir algo especial, citar algo que gostaram muito? Seria interessante e estimulador! Aguardo...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Ainda sobre as mulheres... falemos dos homens...

No Dia Internacional do Mulher, ouvi na Rádio Bandnews, uma entrevista bem interessante. Além de falar das conquistas das mulheres nos últimos anos,  Cida Flores, professora de psicologia (creio que foi este mesmo o nome que ouvi), falava da vida infantilizada dos adolescentes de hoje (o que eu chamei, um dia, de Síndrome de Peter Pan).
Em resumo, dizia que, diante de tanta mudança, tanta cobrança, tantos papéis assumidos por força da obrigação ou convenção social, os adolescentes hoje se recusam a crescer, sair da casa dos pais! Homens e mulheres! É, não só as mulheres... também os homens são muito cobrados! Outrora, com papéis mais definidos, a vida era mais "fácil".

Eis o artigo que encontrei na Época desta semana, sob o título Quem as mulheres desejam?:
Não basta ser rico e bonito. O homem do século XXI precisa de atributos como fidelidade, inteligência, coragem e... talento para fazer massagens nos pés.

Num passado não muito distante, o marido dos sonhos era um cara honesto, razoavelmente fiel, bom pai e que não deixava faltar nada em casa. A esposa, por sua vez, cumpria o outro lado do acordo social vigente: cuidava dos filhos, preparava o jantar e esperava a volta do amado para casa, com o avental todo sujo de ovo. Hoje essa Amélia não existe mais. Porém, ao buscar um companheiro, a mulher moderna ainda sonha com algumas qualidades desejadas por suas avós – acrescentadas de uma longa lista de novas exigências.
Em fevereiro, a pedido de ÉPOCA, o instituto de pesquisas da mulher Sophia Mind aplicou uma enquete para saber qual dos homens famosos encarnaria esse sujeito dos sonhos. O ator Wagner Moura obteve o primeiro lugar, com 37,5% dos votos. Fora das telas, Moura é casado e pouco aparece nas revistas de celebridades – muitas de suas aparições, aliás, são flagras de passeios com o filho pequeno. O mesmo instituto de pesquisas ouviu, recentemente, 666 mulheres, casadas e solteiras, sobre as características essenciais do macho perfeito. Fiel, inteligente, atencioso e sincero estão entre os predicados mais citados. A fidelidade, aliás, é a top das virtudes, tanto para as solteiras (35%) quanto para as casadas (34%).
Fica claro, por essas pesquisas, que o homem ideal, modelo século XXI, é um pacote completo, que alia proteção, afeto e satisfação. A antropóloga Mirian Goldenberg acredita, aliás, que a lista de demandas femininas se tornou excessiva. Segundo a pesquisadora, é impossível satisfazê-la. Se há cinco décadas as mulheres queriam apenas segurança e uma família, agora elas querem tudo isso – mais cumplicidade, afinidade intelectual, romance e massagem nos pés. “Elas querem um bonitão bom de cama e, de preferência, fiel”, diz Mirian. Ela pesquisou 835 mulheres e homens para o livro Por que os homens e as mulheres traem, lançado em 2010, e descobriu o homem ideal das brasileiras em 2011: fiel, sincero, honesto, corajoso, alegre e rico – nessa ordem.
Parece demais? Pois pode ser ainda pior. Uma pesquisa com estudantes da Universidade de Oklahoma, nos Estados Unidos, concluiu que o ideal de homem para a maioria das garotas é... Jesus Cristo, seguido por Martin Luther King. Quem disse que os padrões de exigência moral estão caindo?
A beleza dos galãs de novelas, por outro lado, parece não estar na lista de prioridade das mulheres. “Homem bonito? Isso é uma bobagem!”, diz a escritora Danuza Leão, de 76 anos. Para a ex-modelo, socialite e escritora, o padrão de príncipe encantado com barriga tanquinho é totalmente ilusório. “Isso é coisa de gente que vê novela, vai ao cinema e só tem isso como parâmetro”, afirma. Danuza fala com o conhecimento de quem passou por três casamentos e diversos romances, ao longo de uma vida rica agitada. “Jamais tive um namorado gato. Meus maridos foram todos feios, inteligentes e interessantes”, diz.
O ator Eriberto Leão, de 38 anos, galã da novela Insensato coração, descarta a beleza como principal atributo do homem perfeito. Campeão de cartas de telespectadores da TV Globo, ele tem olhos verdes enigmáticos, corpo malhado e oito novelas no currículo. “Um homem que lê e tem opiniões essenciais sobre a vida chama a atenção das mulheres”, afirma. Casado há cinco anos e pai há menos de um mês, ele defende a fidelidade – o mais valorizado dos atributos masculinos, segundo as mulheres. “Ser fiel é uma escolha que dá força na vida”, diz. Eriberto acredita que postura intelectual, caráter sólido e virilidade são as virtudes que definem um homem. “A beleza desaparece na primeira meia hora de conversa”, diz ele.
No livro Histórias íntimas – Sexualidade e erotismo na história do Brasil, que será lançado em abril, a historiadora Mary Lucy del Priore dedica um capítulo à transformação masculina – do tipo “almofadinha” ao perfil “Tarzan”. Mary explica que na fase almofadinha o homem moderno construiu uma masculinidade não mais fundada apenas na coragem e na honra, como no passado, quando era obrigado a pegar em armas para defender seu lar. A versão Tarzan surgiu recentemente, forjada pela exibição corporal masculina na mídia e nas praias. “A masculinidade foi reelaborada em contraste com a feminilidade”, afirma Mary. Isso encerra a transformação masculina? Não exatamente. Tudo sugere que o modelo “macho 2011” exige manter a virilidade e caprichar na aparência, mas incorporando, obrigatoriamente, a ternura. Não vai ser fácil...

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia Internacional da Mulher

Impressionada (ou não) com minhas últimas leituras (O Sári Vermelho, A Pequena Abelha, O Salão de Beleza de Cabul), histórias de refugiados por conta de guerra civil ou desastres naturais e imagens de genocídio na Líbia, minha homenagem no dia de hoje é para a jornalista do canal americano ABC Christiane Amanpour.
Folheando revistas velhas, li uma reportagem em que Christiane justifica sua coragem nos campos de batalha como repórter de guerra: - Alguém tem de contar o que acontece aqui!

segunda-feira, 7 de março de 2011

Projeto Brasil nunca mais

Filmes que retratam a ditura militar no Brasil:
Pra Frente Brasil (em 1970, enquanto o povo vibra com a seleção de futebol, a repressão corria solta. um homem pacato de classe média - Reginaldo Farias - é confundido com um ativista político, preso e torturado. Enquanto isso, sua família procura por notícias. o filme foi lançado em 1983, ainda com Figueiredo na presidência);
O Que é Isso Companheiro? (em 1969, o grupo terrorista MR-8 elabora um plano para sequestrar o embaixador americano - Alan Arkin -, para trocá-lo por presos políticos, que eram torturados nos porões da ditadura. filme bem acabado de Bruno Barreto, que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro);
Cabra Cega (um jovem militante da luta armada - Leonardo Medeiros - é ferido numa emboscada da polícia e precisa se esconder na casa de um arquiteto, simpatizante da causa; bom filme);
Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (casal de militantes deixa o filho com o avô, para esconder-se da repressão, prometendo voltar até o fim da Copa do Mundo de 1970. mas o avô morre e o garoto terá de se integrar à comunidade judaica do Bom Retiro, além de ter contato com alguns militantes);

Ação Entre Amigos (em 1971, quatro amigos foram presos ao tentar assaltar um banco e foram violentamente torturados. anos mais tarde, descobrem que seu torturador ainda está vivo e vão numa pescaria encontrá-lo na intenção de matá-lo - é quando descobrem que só foram pegos porque um deles traiu o grupo. Ótimo thriller de Beto Brant);
Batismo de Sangue (no final dos anos 1960, um convento de frades torna-se um local de resistência à ditadura. cinco freis passam apoiar um grupo guerrilheiro e ficam na mira das autoridades policiais);
Zuzu Angel (a história real de uma estilista - Patrícia Pillar -, que ganhou projeção internacional e travou uma batalha contra as autoridades militares em busca de seu filho - Daniel de Oliveira -, que participava de movimentos estudantis e foi torturado e morto. bom registro de época);
Hércules 56 (um documentário contando, através de entrevistas, a história dos 15 presos políticos que foram trocados pelo embaixador americano em 1969. banidos do território nacional, são levados ao México num avião da FAB, o Hércules 56);
Dois Córregos (na época da ditadura, duas adolescentes burguesas passam uma temporada numa fazenda e acabam convivendo com o tio de uma delas - Carlos Alberto Riccelli -, um homem misterioso, que está clandestino no país, escondido. um filme amargo de Carlos Reichenbach, que fez vários filmes sobre o tema);
Nunca Fomos Tão Felizes (rodado no último ano do regime militar. um rapaz é retirado de um colégio interno por seu pai, de quem pouco sabe e está afastado há 8 anos. é acomodado num grande apartamento temporariamente, quando começa a investigar o mistério que o cerca, em busca de sua identidade e descobre que o pai é um perseguido político).

Projeto de Pesquisa coordenado pela Arquidiocese de São Paulo
Em agosto de 1979, começava a dar seus primeiros passos, no silêncio necessário da discrição e do sigilo, o Projeto de Pesquisa “Brasil Nunca Mais”. Um reduzido grupo de especialistas dedicou-se, por um período superior a cinco anos, à elaboração de um volumoso estudo.
No mundo todo, a questão da repressão política é quase sempre levantada a partir de denúncias dos atingidos, ou de relatos elaborados por entidades que se dedicam à defesa dos direitos humanos. Emotivos ou equilibrados, são testemunhos que ajudam a revelar uma história oculta. Mas tropeçam, às vezes, na desconfiança daqueles que alegam serem depoimentos tendenciosos, por partirem de vítimas que, na sua maioria, teriam motivações políticas.
A pesquisa “Brasil Nunca Mais” (BNM) conseguiu superar esse dilema, estudando a repressão exercida pelo regime militar a partir de documentos produzidos pelas próprias autoridades encarregadas desse controvertida tarefa. Reunindo as cópias da quase totalidade dos processos políticos que transitaram pela Justiça Militar brasileira entre abril de 1964 a março de 1979, especialmente aqueles que atingiram a esfera do Superior Tribunal Militar (STM).
Foram obtidas, por inúmeros caminhos, cópias de 707 processos completos e dezenas de outros incompletos, num total que ultrapassou um milhão de páginas imediatamente micro filmadas em duas vias, para que uma pudesse ser guardada, sem riscos, fora do país.
Sobre o outro conjunto de microfilmes uma equipe se debruçou durante cinco anos, produzindo um relatório, chamado de Projeto A, de aproximadamente cinco mil páginas, contendo informações impressionantes. Cópias restritas do Projeto A foram distribuídas entre universidades, bibliotecas, centros de documentação e entidades voltadas para a defesa dos direitos humanos, no Brasil e no exterior.
Estabelecendo 15 de março de 1979 como data-limite do período a ser investigado, os responsáveis pela pesquisa procuraram assegurar um mínimo de distanciamento histórico em relação à repressão política enfocada. E, mais que isso, evitaram apreciar fatos ainda em desenvolvimento.
No livro Vigiar e Punir, o pensador francês Michel Foucault já havia mostrado ser possível reconstruir boa parte da história de uma época através do processo penal arquivado no Poder Judiciário de cada país. A verdadeira personalidade do Estado ficava ali gravada, sob a forma de sentenças judiciais determinando torturas, esquartejamentos em praça pública, normas de vigilâncias carcerária, castigos ao corpo, punição ao espírito.
Recuperando a história das torturas, dos assassinatos de presos políticos, das perseguições policiais e dos julgamentos tendenciosos, a partir dos próprios documentos oficiais que procuravam legalizar a repressão política daqueles quinze anos chegou-se a um testemunho irrefutável.
A denúncia que uma vítima de tortura faz perante uma entidade de direitos humanos não questiona tão frontalmente as autoridades governamentais, quanto à verificação de que a mesma fora apresentada em tribunal, confirmada por testemunhas e até mesmo registrada em tribunal, registrada em perícias médicas, sem que daí resultasse qualquer providência para eliminar tais práticas, responsabilizando criminalmente seus autores.
O relatório começa situando, como estudo de referência, a evolução das instituições políticas do Brasil entre 1964 e 1979, partindo dos antecedentes do regime militar e completando-se com a montagem do aparelho de repressão erguido sobre o alicerce da Doutrina de Segurança Nacional.
Em seguida, são apresentadas as características metodológicas da pesquisa, a classificação dos processos quanto à natureza dos atingidos (organizações de esquerda, setores sociais e atividades) e explicados os instrumentos que serviram para a coleta de dados. Todas as informações, recolhidas por meio de dois questionários, foram armazenadas e processadas por computadores que forneceram, com programas especiais, listagens e estatísticas, cujos disquetes foram postos a salvo juntamente com os microfilmes. Nesse capítulo, é também explicada a constituição de um acervo separado de dez mil documentos políticos que estavam anexados aos processos, que será de grande valia para qualquer pesquisa futura sobre o movimento sindical brasileiro, a luta dos estudantes, a história das organizações clandestinas de esquerda.
O terceiro passo do relatório é uma discussão pormenorizada dos resultados da pesquisa no campo mais estritamente jurídico, mediante comparação entre o que as leis – mesmo as leis criadas pelo regime militar – determinavam e o que realmente aconteceu nos inquéritos e processos judiciais. Discutida, antes, a legitimidade duvidosa das várias Leis de Segurança Nacional e demais códigos baixados pelas autoridades militares, estuda-se, nesse item, a rotina do descumprimento das leis sempre que se tratasse de agravar o arbítrio sobre os investigados.
Segue-se, então, uma impressionante seqüência de transcrições de depoimentos relatando torturas, num total aproximando de dois mil e setecentas páginas datilografadas. São denúncias firmadas em juízo, com nomes de torturadores, de centros de sevícias, de presos políticos assassinados, de “desaparecidos”, de infâmias sem conta.
Desde seus primeiros passos, em agosto de 1979, até sua conclusão, em março de 1985, o Projeto de Pesquisa “Brasil Nunca Mais” não teve outro objetivo que não fosse o de materializar o imperativo escolhido como título da investigação: que nunca mais se repitam as violências, as ignomínias, as injustiças, as perseguições praticadas no Brasil de um passado recente.
O que se pretende é um trabalho de impacto, no sentido de revelar à consciência nacional, com as luzes da enuncia, uma realidade obscura ainda mantida em segredo nos porões da repressão política hipertrofiada após 1964. Para eliminar do seio da humanidade o flagelo das torturas, de qualquer tipo, por qualquer delito, sob qualquer razão.

domingo, 6 de março de 2011

O salão de beleza de Cabul, por Deborah Rodriguez


Entre os anos 2002 a 2007, a cabeleireira Dedorah Rodriguez deixou os EUA e viajou com um grupo de ajuda humanitária para o Afeganistão. Lá, percebeu que era mais útil no que fazia melhor e montou um salão-escola de beleza na capital, Cabul. "Deu muito certo, foi um sucesso", conta ela. Deborah resolveu então contar seu êxito no livro. No entanto, a obra se tornou polêmica aos olhos do governo local, ela sofreu ameaças e teve de sair foragida do país.
Adoreeei! Devorei as 230 páginas em dois dias - férias nos permite isto, hehe
O melhor foi entender um pouco mais sobre os conflitos da região do Oriente Médio, o ônus da imigração e a discriminação religiosa/étnica.
Eis um trecho do livro:

A família de Robina deixara Cabul quando ela tinha cinco anos, pouco antes do início da guerra com a União Soviética e muito antes de alguém ouvir falar em Taleban. Fixaram residência no Irã porque o pai dela era um grande admirador do Xá Mohammed Reza Pahlevi, um governante pró-ocidental cujos esforços para modernizar o país incluíam o direito de voto para as mulheres. Mas o xá também provocara um forte ressentimento tanto entre democratas quanto entre clérigos islâmicos. Sua deposição, em 1979, abriu caminho para o Aiatolá Khomeini e a revolução que criou uma república islâmica no Irã. O pai de Robina, porém via o xá como uma força motriz essencial para a modernização do Oriente Médio. Chegou mesmo a batizar uma de suas filhas com o nome da terceira esposa do Xá.
Crescendo no Irã, Robina tinha vantagens com as quais muitas garotas nem sequer podiam sonhar. Tinha pais amorosos que de maneira alguma desgostavam do fato de ter três filhas; amavam-nas exatamente como amavam os três filhos homens que tinham. A família também era bastante próspera; por isso ela e as irmãs nunca ficaram sem comida ou passaram necessidades. O pai era um atacadista de roupas e perfumes e sempre levava para casa, para a mulher e as filhas, amostras de seus produtos. As mulheres da família cobriam-se de longos véus quando saíam à rua, especialmente porque o clima no Irã tornava-se cada vez mais difícil para as mulheres. Mas, em casa, usavam calças compridas e camisetas de mangas curtas, como se fossem garotas de Michigan.
E, ao contrário do que acontecia com a maioria das garotas afegãs, a mãe e o pai de Robina não pretendiam casá-la à força com um homem do qual não gostasse.
[...]
De início, o Irã recebera de muito bom grado aqueles imigrantes, mas a tolerância foi se esgotando à medida que mais e mais afegãos cruzavam a fronteira por causa das guerras. Depois de algum tempo, o governo iraniano começou a impor restrições aos afegãos que viviam em seu território. Tornou-se difícil para eles encontrar empregos, comprar casas e carros e até mesmo ter telefones. Robina contou-me que muitos iranianos passaram a hostilizar os afegãos que eram seus vizinhos, acusando-os de ocupar todos os bons empregos e de superlotar as escolas.
[...]
O pai perdeu o emprego como atacadista. Entrou num negócio industrial com um iraniano, mas foi roubado pelo sócio e descobriu que não tinha direito a qualquer reparação judicial. Dois de seus irmãos tornaram-se alfaiates, mas não era fácil conseguir trabalho para sustentar toda a família.
[...]
Como era cada vez mais difícil ser afegão no Irã, as três irmãs decidiram tentar a oportunidade de uma vida melhor na América (*), mesmo que aquilo significasse uma breve estada em Cabul. Elas só ouviam coisas ruins sobre a cidade - sobre a guerra, sobre a pobreza. Tinha ouvido dizer que era o pior lugar do mundo para uma mulher, mas decidiram arriscar tudo.
(*) não havia embaixada americana em Teerã, estava fechada desde a crise dos reféns que se seguiu à queda do xá, em 1979, e para obter vistos, as garotas teriam de retornar ao Afeganistão.
[...]
Assim, Robina e suas irmãs fizeram o que praticamente nenhuma mulher afegã faz: viajaram sozinhas, sem acompanhante masculino.
[...] Porque viviam sozinhas, todos concluíam que elas tinham de ser prostitutas. (*)
(*) O plano de irem para os Estados Unidos não deu certo e elas não puderam voltar para o Irã, porque tinham aberto mão de seus cartões de identificação ao se mudar para Cabul.
[...]
Você deve imaginar que as outras mulheres afegãs sentiam muita pena de Robina e de suas irmãs. Grande engano. Até mesmo as minhas garotas, elas mesmas, que haviam rompido tantas barreiras para frequentar a escola e começar a garantir o próprio sustento, até mesmo elas passaram a olhar Robina com frieza quando ouviram dizer que ela e as irmãs viviam sozinhas. E Robina piorou ainda mais a situação ao quebrar outro tabu. Ela saiu duas vezes com um rapaz ocidental. Aquilo bastou para que o resto de minhas garotas a evitasse como se ela tivesse gripe aviária.
[...]
Então, certo dia, Sam entrou no salão durante uma aula da terceira turma, olhou em volta e fez uma cara feia.
"Por que todo mundo que estuda nesta escola é hazara?"
Eu não sabia, mas o fato é que duas de minhas professoras eram hazaras e tinham me ajudado a selecionar uma turma inteira composta de hazaras. Dali em diante, Sam participava de todas as entrevistas e me ajudava a evitar que, inadvertidamente, eu favorecesse um grupo étnico em detrimento de outro. Equilibrávamos todas as turmas, não apenas em termos étnicos, mas também por religião e região.