terça-feira, 30 de novembro de 2010

Van Damme

Livraria Van Damme fica na Rua Guajajaras 505 no Centro de BH.

Lá temos acesso às sugestões de leitura do Sr. Van Damme (domina 7 idiomas e lê 14):
 O Andarilho das Estrelas; Jack London
Baunilha e Chocolate; Sveva Casati Modignani
O Deserto dos Tártaros; Dino Buzzati
O Físico; Noah Gordon
1808; Laurentino Gomes
O Sorriso Etrusco; José Luis Sampedro
Tuareg; A. V. Figueroa
O último Judeu; Noah Gordon
Xogum; James Clavell
Os Catadores de Concha; Rosamunde Pilcher
A Montanha Mágica; Thomas Mann
1984; George Orwell
No País das Sombras Longas; Hans Ruesch
A cidade e as serras; Eça de Queiróz
Os Reis Malditos; Maurice Druon
Coração das Trevas; Joseph Conrad
Admirável Mundo Novo; Aldous Husley
O Lobo da Estepe; Hermann Hesse
Revolução dos bichos; George Orwell
Senhorita Smilla e o Sentido da Neve; Peter Hoeg
Lolita; Vladimir Nobokov
Corações Sujos; Fernando Morais
Chega de Saudade; Ruy Castro
A arte da felicidade; Dalai Lama
O Amanuense Belmiro; Cyro dos Anjos
Crônica da Casa Assassinada; Lúcio Cardoso
Sagarana; Guimarães Rosa
O Casamento; Nelson Rodrigues
São Bernardo; Graciliano Ramos
A Hora da Estrela; Clarice Lispector
O Ateneu; Raul Pompéia
Dom Casmurro; Machado de Assis
Cem Anos de Solidão; Gabriel Carcia Márquez
Amor nos tempos do cólera; Gabriel Carcia Márquez
O caçador de pipas; Khaled Hossein
O babuíno de madame Blavastsky;
Gandhi - Autobiografia
Grande Sertão: Veredas; Guimarães Rosa
As irmãs Makioka; Junichiro Tanizaki
Os Pilares da Terra; Ken Follet
Doutor Jivago; Boris Pasternak
Rio das Flores; Miguel de Souza Tavares
O Estrangeiro; Albert Camus
Princesa: a história das mulheres árabes; Jean P. Sasson
Pássaros feridos; Colleen Mccullough
Memórias de Adriano; Marguerite Yourcenar
Cidades Invisíveis; Ítalo Calvino
O nome da rosa; Umberto Eco
Trópico de Câncer; Henry Miller
Terras do Sem Fim; Jorge Amado
Viva o povo brasileiro; João Ubaldo Ribeiro
Os sertões; Euclides da Cunha
Estação Carandiru; Drauzio Varella
Em busca do tempo perdido; Marcel Proust
Pequeno tratado das grandes virtudes; André Comte-Sponville
Além do fim do mundo; Laurence Bergreen
Império a deriva; Patrick Wilcken
Murmúrio do vento; Frederick Forsyth
Por trás do véu de Isis; Marcel Souto Maior
Rio da dúvida; Candice Milland
A terra pura; Alan Spence
O cavaleiro inexistente; Ítalo Calvino
Honradas e devotas: mulheres da Colômbia; Leila Mezan Algranti
Casa-grande e senzala; Gilberto Freyre
Raízes do Brasil; Sérgio Buarque de Holanda
Brasil: uma História; Eduardo Bueno
Noites Tropicais; Nelson Motta
O ser e o nada; Jean-Paul Sartre
O livro dos hereges; Aydano Roriz
Iracema; José de Alencar
Serafim Ponte Grande; Oswald de Andrade
Esaú e Jacó; Machado de Assis
Fogo Morto; José Lins do Rego

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

E quando falta comprometimento?

Considere os prós e contras de ter um relacionamento aberto

Há casais que convivem muito bem enquanto não há entre eles algum tipo de comprometimento. Outros sentem que falta algo a mais para que a relação lhes satisfaça. Em qual grupo você se encaixa neste momento de sua vida? Prefere manter uma relação sem vínculos muito fortes ou está em busca de um relacionamento mais comprometido?
A principal questão que envolve as relações descomprometidas está em deixar um espaço grande demais que permita que haja uma terceira pessoa. Além disso, se nenhuma das pessoas envolvidas no relacionamento demonstra planos conjuntos, ficar "em cima do muro" pode não satisfazer por muito tempo.
Em geral, buscamos relações descomprometidas quando estamos numa fase de transição entre as dores de um amor que terminou e um novo espaço para a chegada de outro amor. Mas quando nos deparamos com certa durabilidade nessa transição, é bom nos questionarmos: agimos assim por medo de nos decepcionar novamente e achar que não teremos forças suficientes para sobreviver a essa possibilidade de sofrer no momento presente? Ou realmente estamos sentindo um grande prazer em experimentar um longo período sem um relacionamento com comprometimentos?

Avaliando prós e contras
E o que pode existir de bom em relacionamentos sem comprometimento? Bom, é fácil de responder: a ausência de grandes cobranças vindas do par, a liberdade de fazer o que se quer, inclusive o espaço para se relacionar com outras pessoas. E sendo assim, muitas pessoas vêem os prós e contras de não ter que demonstrar fidelidade, nem tecer projetos em comum.
Mas será que as duas partes conseguem mesmo se sentir satisfeitas sem ter um parceiro que esteja ali, não só para os momentos de prazer e diversão, mas também nos momentos difíceis? Em grande parte dos casos, as mulheres são as primeiras a se sentirem insatisfeitas. Começam a detectar nelas uma tristeza e uma sensação de vazio muito grande. Percebem que gostariam de estar mais intimamente ligadas ao parceiro, de criar laços mais profundos de afeto, de zelo e de interesse em ter o outro ao seu lado, compartilhando os acontecimentos triviais da vida.


Se você quer que sua relação se aprofunde
Dores de amor mal curadas podem nos levar a querer fugir de amores e a não nos entregar a uma nova paixão que pode acabar se transformando num outro grande amor - ainda mais se a paixão demonstrar o risco de se tornar arrebatadora. Mas será que ao tentarmos fugir de um sentimento nós realmente conseguimos escapar dele?
Tentar entender o por quê do seu parceiro não querer ter um comprometimento pode ser um caminho frustrante e até doloroso. Recomendo que você se questione sobre os motivos que lhe levaram a se aproximar de uma pessoa assim neste momento de sua vida. Quem sabe não é esse tipo de relacionamento que no momento você precisa vivenciar para amadurecer sua visão de um compromisso sério?
Se hoje, você se encontra numa relação em que não lhe satisfaz por não ter vínculos mais profundos, se pergunte:
Será que esta relação pode ter seu horizonte ampliado?
Será que meu par não está em um outro momento que já não é mais o meu?
É hora de dizer adeus a essa situação e partir para uma relação mais completa?

Bruna Rafaele

Mestre em Estudo da Linguagem, faz coaching e dá consultas pessoalmente e pela internet. Faz workshops e palestras no Brasil e no exterior.

Cortar o mal pela raíz não é exatamento isso...

Mantega ataca de novo

Perigo à vista: o ministro Guido Mantega teve mais uma ideia. Agora ele propõe uma trapalhada para o próximo governo - usar um índice especial de inflação para baixar os juros mais velozmente. Se essa lambança for executada, as metas oficiais serão desmoralizadas, como ocorreu na Argentina, o combate à inflação será relaxado e toda a estratégia dos próximos quatro anos poderá ser prejudicada. Convidado pela presidente eleita para permanecer no posto, o ministro deu uma entrevista coletiva e prometeu uma gestão séria, renegando implicitamente seu currículo. A mudança foi desmentida rapidamente por ele mesmo.

A ideia é adotar um IPCA sem combustíveis e sem alimentos para servir de referência para a meta de inflação e para a política de juros. Mas o Banco Central (BC), o mercado financeiro e muitas consultorias já dispõem de índices desse tipo. O expurgo do índice permite obter o chamado núcleo de inflação. A exclusão dos itens mais instáveis ou das variações extremas pode ajudar na avaliação da tendência geral dos preços.
A técnica é usada em muitos países. O BC leva em conta esse tipo de informação ao fixar os juros. Mas não se baseia só nesses dados, porque sua missão é atingir um alvo definido em termos do IPCA cheio, isto é, com todos os componentes. Pode-se corrigir qualquer erro de avaliação num prazo curto, porque a política é revista a cada 45 dias. Tem havido muito mais acertos do que erros.
No Brasil, a maior parte dos preços flutua livremente. Uma alta sazonal ou acidental é compensada num prazo razoável por uma queda. Mas é perigoso apostar, sempre, no recuo dos preços de alimentos e de combustíveis. Pode haver longos períodos de alta, não apenas em consequência de mudanças nas condições de produção e de consumo, mas também de alterações financeiras. Produtos agrícolas, petróleo e outras commodities são objetos do jogo financeiro tanto quanto ações, títulos de crédito e moedas.
Núcleos de inflação podem dar informações importantes, quando avaliados com discernimento. Mas concentrar a atenção em dados como esses pode levar a resultados desastrosos. O exemplo mais evidente é o erro cometido pelo Federal Reserve, o banco central americano, ao manter os juros muito baixos por muito tempo. Os condutores da política levaram em conta um número muito restrito de preços, quando deveriam ter dado importância à especulação nos mercados de commodities. Da mesma forma, deveriam ter estado atentos à formação da enorme bolha no setor imobiliário.
O ministro Mantega parece não ter percebido ou interpretado corretamente esses fatos. Para produzir uma boa política monetária e financeira é preciso levar em conta um número maior - e não menor - de informações. O núcleo de inflação só é útil porque é um dado a mais, isto é, porque propicia uma perspectiva adicional para o exame do índice cheio. Não é bom por apresentar menos informações, mas por enriquecer o conjunto. Além disso, as pessoas pagam os preços da inflação cheia, não da expurgada, e um persistente erro de avaliação pode causar muito mal, especialmente aos pobres.
O ministro Mantega tem um longo currículo de trapalhadas e de mágicas desastrosas. Ele tem exercido o seu talento principalmente na tentativa de maquiar as contas do governo e, de um modo especial, o endividamento público. Se cuidasse melhor da política fiscal, contendo a gastança e preservando o Tesouro de operações promíscuas de financiamento, a economia seria mais saudável e seria mais fácil baixar os juros. O caminho é esse. A presidente eleita não deve maquiar a política de preços e de juros, mas promover com urgência o expurgo das más ideias.
Também deve recomendar boas maneiras a seu pessoal. Segundo o ministro Mantega, o economista Alexandre Tombini, escolhido para presidir o BC, "não vai titubear" quando tiver de prejudicar o setor financeiro, por ser funcionário público de carreira. O atual presidente do BC, Henrique Meirelles, dirigiu um banco privado e seu desempenho no governo é muito superior ao do ministro da Fazenda. Essa diferença, reconhecida internacionalmente, talvez explique a descortesia do ministro. Mas não a justifica.
O Estado de São Paulo, 28 novembro 2010

Comentários dos comentaristas da Band News:
Cortar os ítens de variações extremas seria o mesmo que tirar as derrotas do um  time rebaixado à segunda divisão e transforma-se em um timão.
Comentário de Gualberto Cesar Santos:
Para os clérigos apaixonados por economia e finança. É bom que vejam a economia brasileira de forma dinâmica até chegar aos nossos dias; a começar quando entrou Delfin Neto por volta de 1969/70. E que mudanças ele levou a afeito e o que representou isso relativamente ao capital mercadoria desde aquela época até os nossos dias. Querer culpar Mantega - desmerecê-lo; só pode ser dor de cotovelos ou algo ainda maior. Os afinados com os interesses dos usurários nacionais e multinacionais; estão de plantão; para criar uma situação. E essas críticas já não enganam mais; essa estória tem um objetivo. Manter a inflação
favorável ao capital mercadoria dos atravessadores; que favorece os lucros das operacionalidades do mercado do dinheiro; seja ele em que instância for. Está certo Mantega. Tudo em favor do mercado interno e da produtividade e competitividade relativamente ao mercado externo.
Comentário de Francisco Antônio Sales:
Faz lembrar o todo-poderoso Delfim Neto, ministro da Fazenda, durante o regime militar. No governo Médici, Delfim manipulava a inflação, mantendo-a baixa. Com isso, os reajustes salariais eram sempre aquém da verdadeira inflação, provocando considerável perda financeira aos trabalhadores. Foi a época do famoso "milagre brasileiro". Com a ascensão de Geisel, Simonsen, ministro da Fazenda do novo governo, denunciou a vergonhosa manipulação de seu antecessor. Mantega, ao que parece, quer fazer o mesmo. Adotar IPVA sem combustíveis e alimentos, a fim de obter , falsamente, inflação menor e, por consequência, baixar artificialmente a taxa Selic. Com isso, os trabalhadores serão sacrificados sobremaneira em suas reivindações salariais. O comércio ficará também prejudicado, em vista do menor poder aquisitivo do assalariado. E assim a economia, carro-chefe do governo Lula, irá desestabilizar-se. Isso trará conflitos crescentes no governo Dilma. Ela deve repelir essas ideias nefastas de Mantega, pois bom-senso e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

sábado, 27 de novembro de 2010

Dia 18 de dezembro

E o Retiro continua lindo!!

Fotógrafo Sérgio Guerra


HERERO - Povo seminômade que habita regiões de Angola, Namíbia, Zimbábue e Botsuana

O belo e o estranho se emaranham no recém-lançado livro Hereros – Angola (Edições Maianga), do fotógrafo e publicitário pernambucano Sérgio Guerra. Há 12 anos vivendo entre Brasil e Angola, já lançou quatro livros que registram em imagens populações diversas do país africano e desta vez voltou seu olhar especificamente para sete etnias do povo herero que vivem em quatro áreas ao sul do território. Em comum, elas têm o modo de vida seminômade, baseado no pastoreio (tudo gira em torno do gado) e perpetuado por meio da poligamia.
Atualmente os hereros totalizam 240 mil pessoas, parte vivendo também nos países vizinhos Namíbia, Zimbábue e Botsuana. Os traços principais da cultura desse povo remontam a 3 mil anos e seus ancestrais teriam chegado a Angola há pelo menos três séculos – lá se instalaram nas províncias do Cunene, Namibe e Huíla. Com histórico caracterizado pela resistência (e sangue, consequentemente), se opuseram à escravidão e outras formas de dominação. Num dos capítulos mais tristes dessa história, em 1904, 80% dos hereros foram mortos durante confronto com tropas alemãs na Namíbia.
Em Angola eles também se negaram a baixar a cabeça perante o colonizador português. Porém, é errado dizer que chegaram ao século 21 absolutamente à parte das populações urbanas que se desenvolveram no país africano a partir da instalação dos europeus. Ou seja, os hereros de hoje fazem comércio, frequentam escolas, consomem bebidas alcoólicas e alguns trocam seus bois por carros. No entanto, é inegável que, mesmo não tão isolados do que se habituou a chamar de “civilização”, preservam parte significativa de sua cultura.
O gado é fundamental para entender boa parte do modo de vida dos hereros. “O boi é tudo para eles, é a sobreviência. Do boi, tiram tudo. Tutano, leite, o óleo com o qual se banham, o excremento que usam para construir as casas onde moram. É o banco deles. E é muito interessante como descentralizam o patrimônio. Têm uma dimensão muito precisa do que necessitam para sobreviver e de como devem ser estruturadas as coisas”, explica Sérgio. O primeiro contato dele com os hereros foi em 1999, durante a realização de um programa para a televisão pública de Angola.


ESTRANHEZA E SEDUÇÃO
Na época, registrou imagens da etnia mukubal e demorou sete anos até que retornasse ao local, com o intuito de fazer uma exposição. Foi quando tomou conhecimento das outras etnias também incluídas no novo livro: muhimba, mutimba, muhakaona, mutua, mudimba e muchavicua. As 10 mil fotos que deram origem ao trabalho foram feitas entre junho e agosto do ano passado, quando ele e equipe formada por mais 17 pessoas viveram com grupos de hereros para documentar seus costumes.
Entremeadas exclusivamente com depoimentos de membros das diversas etnias visitadas, as imagens são resultado de preocupação mais documental do que estética. É por isso que são encontradas, por exemplo, imagens em sequência registrando rituais como o da circuncisão. O que não significa que o leitor não encontrará fotos de tirar o fôlego, seja pela qualidade técnica e artística, seja pela estranheza do personagem ou situação.
“Dizer que são primitivos é um comentário muito comum. É muito difícil olhar para outra cultura fora da nossa lógica. A reprodução desse raciocínio não permite que se enxergue o valor e a capacidade que esse povo tem de autogestão”, analisa. Nesse sentido, Sérgio se impressionou ao verificar o alto grau de solidariedade dos hereros: “Se você está num grupo e oferece alguma coisa a uma pessoa com quem tem empatia maior, automaticamente ela pega isso, seja lá o que for, e leva para ser dividido. Vi isso entre crianças e adultos. Eles são muito solidários entre si, apesar de terem uma relação afetuosa muito independente. As crianças começam nisso muito cedo, vão para o pasto, dormir fora. Sem essa relação de possessividade”.


LÍNGUA E FUTURO
Autor dos livros Álbum de família, Duas ou três coisas que vi em Angola, Nação coragem e Parangolá – todos sobre povos angolanos –, Sérgio está produzindo ainda uma série de TV e um documentário sobre as etnias que aparecem em Hereros. “Sempre acabo estabelecendo relações nesse trabalhos e elas sempre têm continuidade. Até hoje mantenho relações com as pessoas que foram fotografadas para minhas exposições Salvador negroamor e Lá e cá”, conta ele, integrante de ONG em Salvador (onde também mora) que desenvolve trabalhos em comunidades locais.
Em Angola, está em negociação para montar uma escola para os hereros, mas baseada na língua deles. “Esse é problema, pois, quando entra o Estado e a escola é feita em português, o que ocorre frequentemente é que o professor chega lá e mal sabe falar a língua”, conta. Trata-se de desejo manifestado por eles, acrescenta: “O próprio soba Mutili, guia deles, já havia tentado várias vezes construir uma escola e sempre que o administrador chegava lá, dizia que o espaço não era adequado e os professores nunca vinham”.
Mais do que levar a imagem desse povo para o mundo, o livro, acredita Sérgio Guerra, poderá ajudar na consolidação de outra imagem do país no exterior: “Dessa Angola étnica não temos muita informação. A imagem é a da guerra, mais urbana. O país ainda não despertou para todo o potencial turístico que tem. Isso pode ser bom para os hereros, como é para o povo masai, no Quênia. No fundo, eles querem um pouco mais de água e de escola para poder estabelecer relação mais de igual para igual com a sociedade moderna”, conclui. (Eduardo Tristão Girão - EM Cultura)

O gado é extremamente importante na cultura. Vale dinheiro e também simboliza amizade, felicidade e dote. Em momentos felizes, mata-se um boi e todos compartilham da refeição. Rolos (colares) brancos no pescoço de homens indicam que eles são casados. As mulheres preparam um perfume com óleo queimado no fogo e misturado a leite e essências e injetam o preparo ainda com fumaça dentro da vagina para se perfumar "por dentro". A circuncisão é obrigatória para um herero ser reconhecido como homem de verdade. O vinho é a bebida alcoólica preferida. Okuyepa é o nome do generoso hábito de ceder a própria mulher para outro homem. Mas ela tem direito de recusar, se não aprovar o sujeito. (Ístoé, 5/5/2010)

HEREROS – ANGOLA
De Sérgio Guerra
Edições Maianga, 260 páginas, R$ 190

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Algumas paixões reunidas


Livros, bike, "lá fora" e, certamente, um computador conectado logo ali à esquerda...
Reparem os alforges, hehe

Eduardo Marciano e o terrorismo

Eduardo Marciano é o protogonista da obra O Encontro Marcado, de Fernando Sabino.

Capítulo II - A Geração Espontânea
[...]
- Dê três exemplos de situação terrorista.
- Um grito na igreja, uma gargalhada no velório, um árabe no elevador.
- Muito brando. É o que se pode chamar, apenas de "terrorismo cor-de-rosa". O verdadeiro terrorismo é o absurdo mais terrível, por exemplo: o do homem que se apaixona por um fio de cabelo da amada, e quer viver com ele, dormir com ele, ter filho com ele...
[...]

O encontro marcado é a história de Fernando Sabino (1923-2004)? Sim, mas não se trata de uma autobiografia. É a história atormentadas de todas uma geração, naquilo que ela tem de essencialmente dramático. No meio das confusões da vida, procura-se um valor que dê sentido à desconcertante experiência pessoal de quem trava um duelo de morte com a vocação furtiva.
História de adolescência e juventude, de prazeres fugidos, desespero, cinismo, desencanto, melancolia, tédio, que se acumulam no espírito do jovem escritor Eduardo Marciano, um homem que amadurece num mundo desorientado. Ele vê seu matrimônio quebrar-se quando já não pode abdicar; por força de sua própria experiência, o suicídio deixe de ser uma solução. Nessa paisagem atormentada, ele deve renunciar a si mesmo, para comparecer ao encontro com uma antiga verdade.

Chuva em BH

A chuva continua lá fora...
Creio que o salto alto vai proteger os meus pés, hoje, hehe

Chuva de terça-feira (dia 23/11) alagou pontos
avenida Cristiano Machado, em Belo Horizonte.

Carlos Saura Tango (trailer)



Em 07 de julho, trouxe do YouTube um vídeo do filme Tango de Carlos Saura.
Percebo que está bloqueado por conta dos direitos autorais. Tudo bem!
Volto, pois, a contar, enfaticamente, o quão belo é o filme que concorreru ao Oscar em 1999 por melhor filme estrangeiro.
Simplesmente fantáástico - música, fotografia, direção...
Indicação para este final de semana chuvoso.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Al Pacino - Scent of a Woman

Engano, coincidência ou milagre?

[...]
Apanhou o tubo, abriu-o, despejou os comprimidos na palma da mão, brancos, puros, inofensivos.
Vinte comprimidos era o que se chamava uma dose cavalar. O tempo dos cavalos... De repente tocaram a campainha da entrada.

- A esta hora?
Por um momento pensou em Neusa - enfiou rapidamente os comprimidos no tubo, guardou-se no bolso do pijama e foi abrir.
- Você?
Era Vítor. Entrou meio constrangido, sorrindo de lado, tentando naturalidade.
[...]
- Cheguei à conclusão de que aquela vida que nós levávamos não servia, revolvi tomar outro rumo. Tem de ser de uma vez só: ou vai ou racha. Aos pouquinhos é que não adianta. Mas outro dia me aconteceu uma coisa engraçada - e Vítor sorriu, desajeitado, sem saber se contava ou não: - Você ainda é católico?
- Eu nunca lhe disse que era católico.
- Qual, vocês mineiros são todos católicos. Mas, eu dizia, o que me aconteceu foi o seguinte: fui a um médico, porque estava sentindo umas dores esquisitas. Tirei radiografia do pulmão, fiquei de voltar no dia seguinte. No dia seguinte o médico me pega e me leva a um canto: seja homem, rapaz - essa coisa toda. Você está com câncer de pulmão.
- Não é possível!
- Ouve o resto: levei a radiografia a outro médico, que confirmou. Fui para casa daquele jeito, você pode calcular - mas resolvi esconder de Maria Elisa a notícia. Quando cheguei não aguentei mais, me tranquei no banheiro, tive uma crise de choro. Quando dei por mim estava pedindo a Deus um milagre, fazendo uma promessa: se eu não tivesse nada no pulmão, subiria de joelhos a escadaria da Penha. Me lembrei disso porque é o que todo mundo promete...
E Vítor fez uma pausa, respirou fundo:
- Só um milagre, porque a radiografia não podia mentir. Pois bem: no dia seguinte o médico me telefonou todo afobado, dizendo que a radiografia fora trocada, eu não tinha absolutamente nada no pulmão.
Eduardo ficou calado, à espera.
- O que eu quero saber é o seguinte: houve milagre? Por favor, não conte isso a ninguém, que acho o caso todo mais ridículo, mas eu teria de cumprir a promessa?
- Tem - e Eduardo, sem saber por que, se lembrou de Germano.
- Mas foi apenas um engano do médico...
- Você fez um pedido, não foi? O que você pediu? Que não tivesse nada no pulmão. Pois está aí, você não tem nada no pulmão. Com muito menos do que isso Grahm Greene escreveria um romance. Cumpra a sua promessa.
- Mas continuo a pensar que se foi engano...
- Você acredita em Deus?
- Não sei, Eduardo... Quando estou sozinho eu acredito. Nunca tinha pensado nisso antes...
- Talvez o milagre tenha sido a sua esperança no milagre...
O rosto de Vítor era agora o de um menino:
- Se é assim eu subo a escada, não tem dúvida. Vou lá de  madrugada, quando não tiver ninguém... Agora é uma questão de teimosia. Milagre ou não, a verdade é que se prometi eu cumpro.
- Não sei, tudo é milagre... Se você não viesse hoje aqui, por exemplo, quem sabe?
(O Encontro Marcado;  III - A viagem)

Chego em casa com uma dor imensurável no peito...
Quero colo! Não quero mais ser forte!
Ligo o note e acesso o messenger.
- Só pra te mandar um beijo!
Não se vá! Converse um pouco comigo!
- Ei! blz?
- Como vão as coisas?
-  Tenho me sentido só, aí, vou falando pelos cutovelos.
Confessei! Ufa! Sem pudor, me rendi!
- Vem pra cá!
Um convite! Por que não?!
- Em breve...
- Claudinha, tô namorando...
- É, gosto dele! Formam um casal alegre e emanam respeito mútuo. Posso sentir inveja?!
- Ô Claudinha, que bom ouvir isso de você!
Emocionadas, descobrimos que a inveja branca é motivadora!
Convite para pizza, piquenique, pedal, viagem, casamento, reveillon...
Amigos para chorar, para sorrir, para torcer!
Também para indicar a uma nova função...
vamo que vamo!
Amanhã é um novo dia!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Bom humor acima de tudo!

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
(Drummond)

Entre Barbacena e Belo Horizonte temos Ouro Branco, hehehe
: ))

A História de Eva

Eva Schloss sobreviveu ao Holocausto. No dia em que completou 15 anos, foi levada pelos nazistas para Auschwitz. Viveu os horrores do campo de extermínio por nove meses. Seu pai e seu irmão foram mortos. Duas décadas depois de libertada, decidiu contar sua história e passou a viajar o mundo pregando contra a violência e o preconceito. Amiga de infância de Anne Frank – a menina que escreveu um diário de sua vida escondida dos nazistas –, veio ao Brasil lançar seu livro de memórias, escrito em 1988. “Ensinar sobre o Holocausto é ensinar a não ter preconceito.”
Camila Guimarães - Época 15 novembro 2010



ENTREVISTA - EVA SCHLOSS
QUEM É
Austríaca de 86 anos, vive em Londres. Casada, tem três filhas e cinco netos. Após a Segunda Guerra Mundial, sua mãe se casou com o pai de Anne Frank
O QUE FEZ
Fugiu com a família da Áustria para se esconder dos nazistas na Holanda, onde foi capturada. É uma das fundadoras da Fundação Anne Frank
O QUE PUBLICOU
A história de Eva, que narra os meses passados em Auschwitz, e The promise, uma versão para crianças. Também é coautora de peças de teatro sobre o Holocausto


ÉPOCA – Por que a senhora decidiu contar sua história só 40 anos depois do fim da guerra?
Eva Schloss – Nos primeiros anos, ninguém queria ouvir nada a respeito do Holocausto. O sofrimento imposto pelos alemães foi tão grande que ninguém mais, especialmente na Holanda, onde vivi antes e depois de passar por Auschwitz, queria saber de histórias de sofrimento. Não havia espaço. Em outros países europeus, como na Inglaterra, havia um sentimento de culpa por não terem ajudado mais o povo judeu. As pessoas preferiam ignorar.
ÉPOCA – Como foram esses primeiros anos para a senhora?
Eva – Tive de aprender a viver minha vida de novo. Além de ter experimentado a violência física e psicológica do campo de extermínio, tinha de conviver com o fato de ter perdido meu pai e meu irmão para os nazistas. Não foi um período fácil. Fui uma adolescente complicada, tinha pesadelos.
ÉPOCA – E como a senhora passou a falar do Holocausto?
Eva – Eu e minha mãe estávamos participando, em Londres, de um evento sobre Anne Frank (a menina judia cuja família viveu escondida dos nazistas em Amsterdã, até ser capturada e enviada a campos de extermínio) e fui surpreendida com um pedido para falar a uma plateia de centenas de pessoas. Eu não queria, mas não tive escolha. Então percebi que as pessoas não sabiam direito o que havia acontecido. De lá para cá, nunca mais parei de falar sobre isso.
ÉPOCA – Por que levar sua mensagem para as escolas?
Eva – É importante que essa geração aprenda com os erros da geração anterior. Eles ainda são repetidos. Ainda há muito ódio e preconceito contra quem é diferente – os mesmos sentimentos que provocaram o Holocausto. A mensagem que tento passar é de como é importante conhecer as outras pessoas e aprender seus valores. Os adolescentes reagem com perguntas, ficam chocados, mas curiosos. Perguntam muito sobre Anne Frank.
ÉPOCA – Como era sua relação com ela?
Eva – Eu a conheci quando éramos vizinhas em Amsterdã. Ela tinha apenas um mês a mais que eu, mas era mais madura. Nós nos víamos todos os dias depois da escola, mas não éramos melhores amigas. Ela era muito sofisticada para sua idade. Era interessada em moda, já reparava em garotos... Uma garota adorável.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Canto Fronteiro

O quarto é pequeno - 12 m² - ligeiramente bagunçado. Umas pilhas de livros sobre a cadeira, a maioria lida pela metade, uma velha TV no canto, a esquerda da janela de quem olha da porta, que está de frente. Na lateral direita um armário e uma cama encostados, parecem fazer parte de um conjunto se considerar a idade, mas os contornos e tonalidades são disformes. Abaixo da cama, além de sapatos e meias esquecidas, um violão silencioso. Na lateral esquerda estão uma mesa com computador e uma outra com uma máquina de escrever e alguns recortes de jornais e revistas. Os objetos da mesa com o computador em motim: copos, restos de comida e alguns trastes, coisa material. Um cheiro mórbido paira, ocupa densamente cada extensão da atmosfera ali presa. Esse é o quarto de segunda-feira. Na quarta-feira, cinco dias antes, tem faxina, toda quarta-feira. Há sete anos alguém cuida do espaço e do homem, melhor, das coisas do homem: roupas, compras, pagamentos e etc. Uma empregada ou talvez uma parenta, é uma mulher.


O homem é professor universitário, não importa a disciplina. Fala pouco, não incomoda a ninguém senão as velhas fofoqueiras do condomínio, que conjeturam sobre o seu passado, presente e futuro. Durante a semana, à noite, apenas dorme e come nesse apartamento, nos fins de semana escreve, estuda e lastima. Assiste a qualquer coisa na TV, ouve um blues... Não assina uma TV a cabo porque acha desperdício. Está a seis anos escrevendo um romance que nunca fica pronto, tem medo de que os leitores confundam a sua história com a dos personagens, mas reconhece que a referência é inevitável. Tem medo de não haver leitores. Tem muitos medos. As amizades são poucas, porém sublimes. E há uma amizade, a capital desse relato, que é escondida, tratarei dela adiante. Está sempre produzindo o cheiro que toda quarta se acaba e já na quarta recomeça. No domingo o cheiro está na intensidade perfeita, na segunda e terça sente vontade de ficar livre dele e na quarta se safa, compraz e começa de novo. O cheiro é composto, principalmente, pelos gases matinais que libera, o cesto de roupas sujas e o banheiro, que só é lavado um vez por semana. Faz parte do homem.

A janela abaixo é de um quarto grande – 12 m² - absolutamente organizado. Tem uma TV nova no canto, a direita da janela de quem olha da porta, que está de frente. Na lateral esquerda um armário e uma cama, brancos, milimétrica e minuciosamente planejados. Sobre o criado mudo um romance espírita, sobre a escrivaninha um secador de cabelo, escovas, prendedores, perfumes, cremes e etc. A cama é macia e os lençóis lisos, claros e perfumados. O cheiro é celestial: flores e incenso. Embora estejam esse e o de cima na mesma posição em relação ao sol, está o quarto de baixo mais iluminado durante todo o dia. Aqui, ao contrário do homem que divide o espaço com ácaros e insetos, mora apenas a mulher.

Ela é recém-divorciada, não importa a profissão, mas trabalha. Assiste bastante à televisão, gosta do conteúdo da TV aberta, passa grande parte do tempo em frente a ela. Durante a semana recebe visitas em casa: a mãe, quase diariamente, os filhos e as amigas, ou fica só. Tem se esforçado para ficar só em alguns dias da semana. O esforço para receber menos visitas, principalmente à noite, deve-se a recente relação com homem que há pouco omiti e chamei de amizade escondida. Se é que você, leitor, se lembra.

Ele, ultimamente, sempre que autorizado, desce pelas escadas de emergência, que são externas ao prédio, entra pela janela naquele mundo novo. Têm muito, quase sempre, ou nada, às vezes, para dizer, mas não conseguem entender como viveram um sem o outro até então. E os mundos têm se misturado, ele sobe com o cheiro das flores e o seu suor fica. Ela se lava, ele não.
 
Kelleson Vitorino de Oliveira, publicado em 2007.
O concurso Gente de Talento nasceu do propósito de se criar novos canais para que os empregados CAIXA pudessem expressar todo o seu talento e criatividade fora da atividade cotidiana.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Pega das meninas!



Pedal de reconhecimento: 27/11 e 04/12
Data do pega: 18/12

Obaaaaa!!!
Agenda de dezembro lotada!

O perfume de Patrick Süskind

"A mãe de Grenouille queria que tudo já tivesse acabado. E quando as dores se tornaram mais intensas, ela se acocorou debaixo da mesa de limpar peixe e lá pariu, como já das quatro outras vezes, e cortou com a faca de peixe o cordão umbilical dessa coisa recém-nascida. Em seguida, porém, por causa do calor e do mau cheiro, que ela só percebia como algo insuportável, anestésico - como um campo de lírios ou um quarto estreito em que haja narcisos demais -, ela desmaiou, caiu de lado, resvalou de debaixo da mesa para o meio da rua e lá ficou, com a faca na mão.
Gritaria, correria, parada em círculo a multidão de olho arregalado, busca-se a polícia. A mulher continua, com a faca na mão, deitada na rua; lentamente, recobra os sentidos.
O que lhe teria acontecido? Nada. O que estaria fazendo com a faca? Nada. De onde viria o sangue de sua saia? Dos peixes.
Ela se levanta, joga fora a faca e vai se lavar.
Nesse instante, contrariando as expectativas, a coisa recém-nascida começa a chorar debaixo da mesa de limpar peixe. Procura-se, encontra-se o bebê num enxame de moscas e entre vísceras e cabeças de peixe, é puxado para fora. Ex-officio ele é entregue a uma ama, a mãe é presa."

Tenho medo, de verdade!




Preciso acreditar na minha força...

domingo, 21 de novembro de 2010

Sussuros - A Vida Privada na Russia de Stalin

Este livro explora a influência da ditadura de Stalin na vida pessoal e familiar dos soviéticos. Como eles viviam? Que tipo de vida privada era possível nos apartamentos comunais abarrotados, onde toda conversa podia ser ouvida? Quais foram as estratégias de sobrevivência, amizades, traições, concessões e acomodações morais que moldaram milhões de vidas?


Obra de Orlando Figes
Record
ISBN 9788501083180
Ano: 2010
826 páginas

Resenha extraída do site Amigos do Livro:
Quando o filho de um sapateiro e de uma costureira chegasse ao poder de um grande país, seria sensato imaginar um governo digno para a população em geral, em especial as camadas mais pobres. Entretanto, não foi assim com Joseph Stálin na Rússia, quando ele se tornou seu líder em 1929, imediatamente teve início o domínio mais sanguinário e aterrorizante que já fora construído naquele país.

Sob a bandeira do patriotismo e sob o pretexto de modernizar a URSS para assim torná-la segura e competitiva economicamente e militarmente, Stálin expôs seus planos qüinqüenais aos soviéticos, adquirindo para si em nome do Estado o controle de todas as indústrias, incluindo a agricultura. Mas não foi esse controle que marcou os anos stalinistas, foram os expurgos e as eliminações coletivas de dissidentes ante a sua paranoia.
Para exemplificar, a desconfiança o levou a mandar matar mais de um milhão de membros do Partido Comunista – os mesmos que o colocaram no poder. Sem falar da coletivização agrícola que causou a morte de 14 milhões de pessoas, além de tantos outros, como a grande maioria dos líderes militares, aos quais julgava serem incompetentes ou despreparados. Sua agressiva campanha de protecionismo o levou a tornar o cotidiano de muitos um pesadelo sem fim...
Mas será que não houve sobreviventes que conseguiram escapar desse terror? Há muitos livros que descrevem os aspectos externos da opressão stalinista, como as prisões e os julgamentos, as escravizações e os assassinatos no temido Gulag. O eminente professor de história Orlando Figes faz de seu Sussurros – A vida privada na Rússia de Stálin (The whisperers, tradução de Marcelo Schild e Ricardo Quaresma) o primeiro livro que explora com profundidade a vida cotidiana de quem sofreu a tirania durante o governo de Stálin.
“Em uma sociedade na qual acreditava que pessoas eram presas por causa das línguas soltas, as famílias sobreviviam se mantendo reservadas (...) Elas aprendiam a sussurrar. (...). A língua russa possui duas palavras para um sussurrador – uma para quem sussurra por temer ser ouvido e outra para a pessoa que informa pelas costas das pessoas para as autoridades.” (página 26)
Daí o título do livro, pois naquele período, toda a sociedade era formada por um tipo de sussurrador. E temos aqui a história de pessoas que aprenderam a morder a língua e falar em sussurros para sobreviver. O inglês refaz a trajetória de famílias, excursionando no ponto de vista daqueles que sobreviveram. Não da forma como foram escritas as narrativas de Evguenia Ginzburg, Nadezhda Mandelshtam, Alexander Solyenitzin, Varlam Shalámov entre outros, mas no âmbito da subjetividade soviética, como Figes chama a forma que muitos optaram resignadamente por calar e assimilar o discurso oficial de obediência absoluta às determinações do partido e tempo totalmente dedicado à construção de uma sociedade comunista e coletivista.
Memórias ou ficções não falam necessariamente o que cidadãos soviéticos suportaram, em especial, em relação à vida privada e ao âmago de cada individuo. Figes é considerado um dos maiores especialistas em Rússia moderna, professor de história do Birkbeck College, na Universidade de Londres, autor de Natasha's Dance: A Cultural History of Russia e A tragédia de um povo: a Revolução Russa, 1891-1924. Amparado por uma grande quantidade de cartas, diários e outros documentos privados, além de entrevistas com pessoas que viveram a era Stálin, entrelaça uma série de histórias familiares que forma um panorama amplo da intimidade privada em tempos de Terror.
Histórias que cobrem os diversos momentos de repressão administrada à população soviética, desde o período revolucionário de 1918-1921 até o fim do governo de Stálin, entre 1948 e 1953. Poucos regimes conseguiram um nível de controle social tão amplo quanto o stalinista. Famílias eram forçadas a viverem juntas, outras eram obrigadas a morar em casas de pessoas expulsas à força. Tudo pelo bem da nação. E a maioria via na figura de Stálin como um pai e protetor, por isso aceitavam as metas estabelecidas e o cenário de colapso familiar que Stálin implantou à marra no gigantesco território soviético. Com o incentivo à delação da sociedade, Stálin fez com que irmãos espionassem irmãs, maridos às esposas, os filhos aos pais, todos ficavam felizes em relatar o menor ato de dissensão possível para as autoridades. O resultado: a corrupção da família tradicional, explorada brilhantemente pelo autor.
Em certos casos, a utopia socialista compensava os sofrimentos, tanto que a magnitude dos mesmos levou à metamorfose da mudança perante a calamidade da invasão alemã de 1941. A Segunda Guerra Mundial teve o dom de exaltar os ânimos e desatar as línguas. Muitos cidadãos passaram a expressar abertamente suas críticas ao regime e às expectativas eram grandes para uma liberdade em todos os âmbitos. Entretanto, após a derrocada da Alemanha, um recrudescimento da opressão foi a resposta de Stálin para aqueles que sentiram a realidade ocidental. As primeiras vítimas foram a maioria dos combatentes e civis que vivenciaram a distinção alemã.
A figura de Konstantin Simonov demandou certa atenção pelo autor, por exemplificar esse período pós-guerra. Membro da oligarquia que foi derrubada pela revolução bolchevique, era filho de uma nobre e de um general do czar. Pelo esforço que fez durante sua vida para se adaptar ao novo regime e adquirir uma identidade soviética, tornando-se um dos principais delatores. Por conseguinte, abandonou o ensino médio para se tornar um torneiro-mecânico e se integrar à massa proletária. Logo, iniciou sua carreira literária, rendendo culto à figura de seu líder, escrevendo descaradamente peças e roteiros de cinema panfletários. Nessa época, pela fama acumulada como autor favorito do Grande Líder – tanto que deixava o próprio Stálin corrigir suas obras – ocupou cargos de importância e gozava dos privilégios da elite soviética. Entretanto, se absteve de ajudar muitos colegas escritores e jornalistas na repressão de 1948-1953, ateando fogo nos atos repressivos, difamando alguns de seus melhores amigos e mesmo parentes. Segundo Files, mesmo sendo honesto e sincero, perdeu-se no sistema soviético, incorporando todos os conflitos e dilemas morais de sua geração.
Por fim, é notório a figura de Stálin e a política do regime nas páginas de Sussurros e como o stalinismo entrou na mente e nas pessoas, afetando todos os seus valores, sem falar dos relacionamentos, tornando-se com suas mais de 800 páginas um dos melhores retratos da vida privada de gerações de soviéticos. Vale pela abordagem multigeracional para compreender o pensamento e as ações de muitos que vivenciaram a ditadura cruel de Stálin.

sábado, 20 de novembro de 2010

Não analisa não. Vamos pedalar!

- Besta-Fera, está uma tarde belíssima. Vamos à Pampulha tomar uma cerveja.
- Você tá doido? Não posso, de jeito nenhum.
- Não analisa não.
Era a palavra de ordem, espécie de lema que comandava o destino dos três, diante do qual nenhum obstáculo se sustinha. Acordo tácito, compromisso de honra: não analisar, porque do contrário surgiriam problemas, todos tinham seus problemas: esmiuçando motivos, prevendo consequencias, nenhuma atitude seria possível, a vida perderia a graça. Tinham de viver em cada momento uma síntese de toda a existência, não analisar jamais! Mauro abandonou sua pasta de remédios no meio-fio:
- Pronto, não tenho mais emprego, não tenho mais nada, sou apenas um coração solitário. Vamos.
[trecho extraído da obra O Encontro Marcado, de Fernando Sabino]

Creio que nossa palavra de ordem é: vamos pedalar! kkkk

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O quintal da casa da gente - o brincar lá fora!

O que significava o quintal para Eduardo?
Significava chão remexido com pauzinho, caco de vidro desenterrado, de onde teria vindo? minhoca partida em duas ainda mexendo, a existência sempre possível de um tesouro, poças d'água barrenta na época das chuvas, barquinho de papel, uma formiga dentro, a filha de formigas que ele seguia para onde elas iam. Iam ao formigueiro. Um pé de manga-sapatinho, pé de manga-coração-de-boi. Fruta-de-conde, goiaba, gabiroba. Galinheiro. [...]
O encontro marcado, 1956
Fernando Sabino, 1923/2004

O que significou o quintal para mim?
O cipó de chuchu entrelaçado, ovos de galinha, meu primeiro corte com caco de vidro (também iria a um hospital como minha irmã). Depois do cimento, significou meu quartel-general (espírito de líder já elaborava clubes secretos, códigos de honra), uma caixa contendo miudezas e correspondências. A iluminação precária, porém o meu esconderijo (canto só meu!), que me permitia escreveu para "meu querido diário".
Em pouco tempo foi a casa da Natasha, do rask siberiano, dos patinhos, pintinhos e o acampanhamento das minhas pequenas (uma única noite, kkk)

De tudo, ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando... A certeza de que precisamos continuar... A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar.... Portanto devemos: Fazer da interrupção, um caminho novo ... Da queda, um passo de dança... Do medo, uma escada... Do sonho, uma ponte... Da procura, um encontro...

Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino.
Fernando Sabino

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Economia - outro fascínio meu!

Também vibro com a revista Exame... Adooooro!
Que tal outra faculdade - Economia ou Administração de Empresas??

Gestão & Ideias
Lucas Amorim com reportagem de Marianna Aragão

Chegou a hora de crescer
Quando o americano Sandy Ogg assumiu a vice-presidência global de recursos humanos da Unilever, em 2005, a companhia faturava 40 bilhões de dólares anuais. Cinco anos depois, está no mesmo patamar. Por isso, a direção da empresa já avisou aos funcionários que a ordem é crescer. Em entrevista a EXAME, Ogg diz o que está sendo feito.
Por que a empresa parou de crescer?
A Unilever sempre foi um ótimo lugar para trabalhar. O problema é que tínhamos executivos demais, que recebiam bônus sem entregar resultados. Estamos mudando isso. Nos últimos anos, reduzimos o primeiro escalão de 1000 para 500 executivos. Agora, a prioridade é fortalecer a meritocracia.
O que já foi feito?
Definimos, neste ano, que cada funcionário tem de cumprir três metas para o negócio e uma para seu desenvolvimento pessoal. Com metas claras, fica mais fácil decidir quem merece e quem não merece bônus.
É possível aumentar a agressividade sem perder a cultura da empresa?
Sempre nos orgulhamos de ser justos e vamos continuar a ser. Não podemos dizer aos funcionários que tudo vai bem se a empresa está estagnada. Uma hora eles vão acabar demitidos e o estrago vai ser muito maior.
E como melhorar a motivação?
Aumentamos a rotatividade. Antes, era comum executivos ficarem até dez anos trabalhando com o mesmo produto. Mas, se quisermos de fato crescer, precisamos tirar as pessoas da zona de conforto.
Sandy Ogg, da Unilever: metas claras e equipe menor para retomar a expansão global
17 novembro 2010

Liberata - Festa Literária de Sete Lagoas

De 17 a 20 novembro de 2010
Vamos?!


:)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mais um bom livro sobre a CHINA

Para atingir o sucesso dentro e fora de seu país, um escritor chinês depende de um delicado equilíbrio entre polêmica e cautela. A falta de ousadia é interpretada como simpatia ao Partido Comunista, o que sepulta qualquer chance no mercado internacional. O excesso, por sua vez, pode despertar a atenção dos censores e impedir a publicação da obra na China. O romancista Yu Hua, de 50 anos, é um dos que souberam adotar a dose certa de crítica social para conquistar o público sem incomodar (muito) o governo. Boa parte de sua fama deve-se, surpreendentemente, aos censores. Embora seu romance Viver, de 1994, tenha sido publicado sem problemas, o filme inspirado no livro foi proibido. A decisão inusitada fez com que o autor se tornasse conhecido mundialmente como vítima da censura, mas não impediu que sua obra circulasse no país.
Em seu novo romance, Irmãos (Companhia das Letras, 630 páginas, R$ 64, tradução de Donaldson Garschagen), Yu Hua mantém o tom de seus livros anteriores. A história da China é retratada de maneira crua e por vezes sarcástica, mas sem críticas diretas ao governo. O livro acompanha a trajetória de dois irmãos: o malcriado Li e o tímido Song, na pequena cidade de Liu. A infância dos dois é marcada pela chegada da Revolução Cultural. Ex-proprietário de terras, o pai dos dois é preso e, em uma tentativa de fuga, espancado até a morte. À medida que o tempo passa, os irmãos ocupam lugares distintos na sociedade chinesa. Enquanto Song se torna um operário-padrão, conhecido por sua obediência, Li dedica-se aos negócios e, com a abertura comercial da China, passa a ser um dos magnatas mais poderosos do país. A fábula é um retrato provocativo da China atual: embora o governo incentive a obediência, o mercado premia aqueles que conservam ao menos um pouco de ousadia. Como a trajetória de Yu Hua ensina, não há fama sem transgressão.

Vincere ou Vencer

Concorrente à Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2009, o drama histórico "Vincere", do veterano cineasta Marco Bellocchio ("Bom Dia, Noite") resgata um episódio banido da biografia oficial do primeiro-ministro italiano Benito Mussolini, ou seja, a presença de uma mulher, Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), que foi sua amante e mãe de um filho seu. O filme estreia apenas em São Paulo.

Seguindo um roteiro assinado pelo próprio Bellocchio e por Daniela Ceselli, Ida conheceu Mussolini quando este ainda era um jovem jornalista socialista (interpretado por Filippo Timi).
Mulher independente, ela vendeu tudo o que tinha para financiar um jornal do futuro governante fascista. Quando este retorna da 1a Guerra Mundial, onde lutou, em vez de juntar-se a Ida, que tivera um filho dele, ele se reúne à esposa (Michela Cescon) e demais filhos, cuja existência era desconhecida de Ida. Logo faz uma aliança com o então rei italiano, Vittorio Emanuele III, que sela sua ascensão ao poder.


Sóbrio e rigoroso, com uma escolha de cores sombrias, em que às vezes se coloca também um tom vermelho, "Vincere" empresta seu nome - mantido em italiano mesmo na distribuição do filme no Brasil - do lema fascista que cobra a vitória constante e a qualquer preço.
Amparado numa excelente direção de arte, de Briseide Siciliano, reconstitui a época com impressionante precisão, recuperando a estética dos filmes fascistas, com seus lemas grandiloquentes projetados em imensas letras maiúsculas em primeiro plano. Além disso, faz-se um uso consistente de bons materiais de arquivo.
Um recurso extremamente eficaz é ter o ator Filippo Timi interpretando apenas o Benito jovem (e também, mais tarde, seu filho com Ida). O Mussolini no poder, aquele homem baixinho que gesticulava em seus discursos, é evocado em noticiários ou retratos da época. Assim sendo, o espectador do filme compartilha com Ida, no longo período em que foi confinada a um hospício, a visão limitada ao homem público projetado nessas imagens de mídia, que construíam o mito.

O homem privado abandonou Ida, perseguiu-a quando ela tentava reivindicar seus direitos e os do filho, negou sua relação e, depois, cancelou a própria existência dela na história oficial. O filho de ambos não teve sorte muito melhor.
Um dos poucos remanescentes ativos de uma das mais brilhantes gerações do cinema italiano, a que pertenceram Federico Fellini, Luchino Visconti, Elio Petri e Ettore Scola (este, ainda vivo, mas inativo), Bellocchio compõe um de seus melhores filmes políticos, no bom sentido da palavra, sete anos depois do magistral mergulho na tragédia das Brigadas Vermelhas, "Bom Dia, Noite" (2003).
(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Será que vou nessa?!

Filho de Stephen King


Em 2007, quando já havia alcançado algum sucesso com seus dois livros de suspense, o escritor americano Joe Hill revelou que seu verdadeiro nome era Joseph Hillstrom King. A informação não teria a menor importância se o sobrenome não fosse o mesmo de Stephen King, um dos escritores mais cultuados de sua geração, autor de grandes sucessos como A coisa, Carrie, a estranha e O iluminado – e pai de Joseph. Depois que sua identidade foi descoberta pela revista americana Variety, Hill justificou a decisão de esconder a genealogia célebre. “Meu pai é meu melhor amigo e, em minha opinião, o maior escritor de sua geração. Ele e minha mãe (Tabitha King, também escritora) são os melhores professores de escrita que eu poderia ter”, diz. “Mas, se eu assinasse meus livros como Joseph King, as editoras poderiam publicá-los só para ganhar dinheiro com o sobrenome, e eu não saberia se eles são realmente bons.”

Em seu terceiro livro, O Pacto (Sextante, R$ 29,90, 320 páginas), Hill parece não ter se livrado da preocupação. Na capa e nas páginas internas, não há nenhuma menção ao pai ilustre do autor. Num mercado em que as editoras recorrem sem pudor ao nome de escritores consagrados (inclusive mortos, como Sidney Sheldon) para vender livros de autores desconhecidos, trata-se de uma boa surpresa. E não é a única. Embora tenha se recusado a usar o sobrenome, o autor parece ter herdado o talento do pai para criar histórias de horror e narrá-las com competência. Aos 38 anos, é um dos principais nomes da nova geração de autores do gênero, ao lado de Justin Cronin (de A passagem) e Neil Gaiman (de O livro do cemitério). “Somos sujeitos de sorte”, diz Hill. “Na época do meu pai, a ficção fantástica ainda era vista nos Estados Unidos como um gênero menor, ou subliteratura. Hoje isso não existe: é possível fazer sucesso de público e crítica.”
Elogiado pela maior parte da crítica americana, O pacto relata a história de Ignatius Perrish, um homem traumatizado pela morte misteriosa da namorada. Após uma noite de bebedeira, ele acorda com dor de cabeça e descobre que um par de chifres começou a crescer em sua cabeça. Por algum motivo desconhecido, ele está se transformando no diabo. E, em vez de provocar medo nas pessoas a seu redor, a transformação faz com que elas passem a lhe revelar seus segredos mais íntimos. Entusiasmado, Ignatius decide usar os poderes recém-adquiridos para descobrir quem arruinou sua vida.

Para retratar o diabo e seus poderes, Hill buscou alguma inspiração em livros de teologia, mas sua maior fonte de pesquisa foram os filmes de terror e as canções malditas dos anos 70. “Nunca quis fazer um tratado teológico de 500 páginas. O diabo do meu livro é o mesmo do rock-and-roll.” Uma decisão sábia. Sem o peso de outros livros que misturam suspense e religião, O pacto consegue equilibrar terror, humor e ação com competência suficiente para prender a atenção do leitor até o final da história. Embora as soluções fáceis encontradas para os mistérios da trama possam decepcionar leitores exigentes, Hill demonstra ter aprendido a principal habilidade de um autor best-seller: a arte de entreter.

domingo, 14 de novembro de 2010

Claro Brasil Ride

O Lulismo no Poder

"Já se disse que o líder populista se diferencia do estadista porque o primeira pensa na próxima eleição, enquanto o outro pensa na próxima geração."

Assista ao vídeo em que Edney Silvestre entrevista Merval Pereira, autor do livro O LULISMO NO PODER, que reúne os melhores artigos publicados em sua coluna diária no jornal O Globo, com uma ampla análise dos oito anos do governo petista na presidência da República. O livro ajuda a entender não só a alta popularidade do presidente, mas também os casos polêmicos.
O livro está dividido em cinco capítulos, que elecam aspectos do lulismo: "O aparelhamento do estado", " Bolsa Família", "José Dirceu e o mensalão", "Palocci e o caseiro" e "Política externa".

sábado, 13 de novembro de 2010

Brasiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiil!!

Que virada!
Que adrenalina!
Que alegria!!!

Classificação para a final - Brasil x Japão

Brasil perdendo 2 x 0, VIROOOU! Estamos na FINAL do Campeonato MUNDIAL!!!
Uma virada para a história do Voleibol Feminino!

Rubem Alves

GANHEI CORAGEM

"Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsche.
É o meu caso.
Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo.
Por medo.
Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega:
"Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos".
Tardiamente.
Na velhice.
Como estou velho, ganhei coragem.
Vou dizer aquilo sobre o que me calei:
"O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.
Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política.
Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo.
Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável,
é de uma imensa mediocridade.
Basta ver os programas de TV que o povo prefere.
A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica.
Nada mais distante dos textos bíblicos.
Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas.
Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície,
se entregasse à adoração de um bezerro de ouro.
Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.
E a história do profeta Oséias, homem apaixonado!
Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava!
Mas ela tinha outras ideias.
Amava a prostituição.
Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão.
Até que ela o abandonou.
Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos.
E o que foi que viu?
Viu a sua amada sendo vendida como escrava.
Oséias não teve dúvidas.
Comprou-a e disse:
"Agora você será minha para sempre.".
Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.
Deus era o amante apaixonado.
O povo era a prostituta.
Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.
O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.
As mentiras são doces; a verdade é amarga.
Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola pão e circo.
No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões.
E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos!
As coisas mudaram.
Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.
O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.
As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro "O Homem Moral e a Sociedade Imoral"  observa que os indivíduos, isolados, têm consciência.
São seres morais.
Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem.
Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.
Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis.
Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival.
Indivíduos são seres morais.
Mas o povo não é moral.
O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.
É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.
Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado.
O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão.
Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.
Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.
O povo não pensa.
Somente os indivíduos pensam.
Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade.
Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.
Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.
Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.
Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.
Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.
O nazismo era um movimento popular.
O povo alemão amava o Führer.
O povo, unido, jamais será vencido!
Tenho vários gostos que não são populares.
Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos.
Mas, que posso fazer?
Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio;
não gosto de churrasco, não gosto de rock,
não gosto de música sertaneja,
não gosto de futebol.
Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno", à semelhança do que aconteceu na China.
De vez em quando, raramente, o povo fica bonito.
Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: "Caminhando e cantando e seguindo a canção.",
Isso é tarefa para os artistas e educadores.
O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.

Rubem Alves
( psicanalista, pedagogo )