sábado, 31 de julho de 2010

Cachoeira do Capivari

Numa das trilhas inesquecíveis de bike conheci a Cachoeira do Capivari - cascata de uns 150 metros de altura. 

Hoje só quero ler

Ler e esquecer...
Adiar decisões importantes...
Ter somente preocupações de criança!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Enterro celestial - costume tibetano

Se já é difícil aceitar as diferenças daqueles que vivem próximos de nós - parente, amigo, colega de trabalho - imagine compreender costumes de outras civilizações. 
Poligamia, poliandria, circuncisão, infanticídio...

Lê-se comentários exagerados, por exemplo, a respeito do enterro tibetano - arrepiante, bizarro, desrespeito, bruxaria.
O costume tibetano intitulado enterro celestial consiste em esquartejar o defundo a céu aberto para que os abutres cuidam da eliminação do corpo. Por acreditarem na reencarnação, o corpo do tibetano não passa de um vaso vazio.

Segue um trecho do livro Sete Anos no Tibet:





[...] Dois dias depois ela morreu.
Assim, depois dos prazeres do festival, aquele triste evento nos permitiu conhecer as cerimônias de um enterro tibetano. O pinheiro decorado que estava no telhado foi retirado e, de madrugada, o corpo foi envolvido em roupas brancas e levado para fora da casa às costas de um carregador de defundos profissional. Seguimos o grupo de carpideiros que consistia de apenas três homens. Perto da aldeia, em um lugar alto, reconhecido de longe como o local de enterro pelo quantidade de abutres e corvos que voavam sobre ele, um dos homens cortou o corpo em pedaços com um machado. Um segundo homem sentou-se próximo murmurando preces e tocando um pequeno tambor. O terceiro espantava os pássaros e, de vez em quando, alcançava (*) cerveja ou chá aos outros dois para que brindassem. Os ossos da menina morta foram quebrados em pedaços para que também pudessem ser consumidos pelos pássaros e para que não sobrasse qualquer traço do corpo.
Essa cerimônia, que parece bárbara, tem suas origens em profundas razões religiosas. Os tibetanos não querem deixar vestígios depois da morte de seus corpos, que, sem alma não significam. Os corpos dos nobres e de lamas importantes são queimados, mas entre o povo o costume é o desmenbramento, e somente os corpos de pessoas muito pobres, para quem essa cerimônia é muito cara, são jogados no rio, onde os peixes fazem o papel dos abutres. Quando pessoas pobres morrem por doenças contagiosas, são "sepultadas" por pessoas especialmente pagas pelo governo.
(*) tradução de Bettina Gertum Becker
Revisão Delza Menin e Jô Saldanha
Coleção L&PM POCKET

Moacyr Scliar II

Entrevista dada ao Jornal Estado de Minas

1) Então você leu muitos livros sobre a história de Minas para escrever na noite do ventre, o diamante? Como se deu este processo?
Li, sim, muitos livros. Mas é importante notar que a pesquisa para fins de um trabalho científico (coisa que, como médico, também escrevo) é diferente da pesquisa para um trabalho ficcional. No primeiro caso trata-se de transmitir informações, com referência bibliográfica inclusive; mas, se o escritor de ficção fizer isso, será uma chateação. Portanto, na hora de escrever, trato de “esquecer” tudo o que li. A informação histórica deve estar diluída no romance, como um pano de fundo. A prioridade cabe à ficção.
2) Quando você recebeu o convite para participar da Coleção Cinco Dedos de Prosa, a história do diamante, que o “perseguia”, já estava mais ou menos delineada na sua cabeça?
Já estava bem delineada. Eu havia partido de um episódio histórico; quando os hebreus estavam cercados pelos romanos muitas vezes engoliam moedas para evitar que o dinheiro caísse nas mãos do inimigo. Daí veio a idéia de um diamante que é engolido por um menino, membro de uma família judia que está fugindo da Rússia para o Brasil. Àquela altura veio o convite da Editora Objetiva. Meu primeiro impulso foi de recusá-lo, mas, antes de desligar, resolvi perguntar qual era o dedo que faltava. Era o anular. Instantaneamente o diamante “instalou-se” num anel e ali estava a história, praticamente pronta.
3) Você tem participado de várias iniciativas que mostram a profissionalização do mercado para a literatura no Brasil (coletâneas, coleções, contos para livros teóricos como A história da cidadania). Existe um mercado sustentável para a literatura no País?
Existe um mercado em expansão que cresce sobretudo graças ao público juvenil. As escolas hoje estão trabalhando, e com muita criatividade, autores contemporâneos e isto aumentou substancialmente o número de leitores. Mas ainda é difícil viver exclusivamente só de literatura no país. É mais fácil viver de escrever – livros, e também artigos, crônicas, roteiros… Porém não creio que seja decisivo para um escritor viver só de literatura. Kafka, por exemplo, tinha um emprego de tempo integral, mas isso não impedia que à noite e nos horários de folga produzisse grande literatura.
4) É possível perceber, de uns anos para cá, o fortalecimento dos mercados regionais, sobretudo do Sul do País. Pode-se falar em “literatura gaúcha” como um capítulo específico da moderna literatura brasileira?
Certamente, mas dentro de literatura gaúcha temos de diferenciar a literatura regionalista (aquela de um Simões Lopes Neto, por exemplo) que utiliza sobretudo o linguajar da fronteira e a literatura histórica, como a feita por Érico Veríssimo em “O Tempo e o vento”. É uma literatura de grande vitalidade, porque a história do Rio Grande não raro passa por momentos dramáticos e também porque o gaúcho é um personagem muito característico. Por último, mas não menos importante, é um Estado de gente culta, que lê bastante, o que ajuda a formar um público leitor.
5) Em alguns dos seus romances há a mescla de personagens históricos como fictícios (Oswaldo Cruz, Noel Nutels, Espinosa).A História ainda reserva boas histórias?
E como! É um filão inesgotável. Agora: é importante visitar a História com o olhar ficcional de hoje. Não se trata de “recuperar” o passado – isto é coisa para historiadores; trata-se de recria-lo ficcionalmente. Não é a História que foi, é a História que poderia ter sido. São as emoções do passado transpostas para o presente.
6) A tradição da literatura judaica está presente em muitos países, em alguns, como os EUA, de forma significativa. Como vê a situação no Brasil, que outros autores podem ser alinhados no que se convencionou chamar de literatura judaica (Samuel Rawet, Clarice Lispector?)
No Brasil, a literatura inspirada na tradição judaica é menos presente nos Estados Unidos, pela simples razão de que naquele país o número de judeus é várias vezes maior. Mas nós também tivemos a experiência da emigração. E esta experiência, nos dois países, é muito parecida. A propósito, lembro um encontro que tive com o Saul Bellow, recentemente falecido, na Universidade de Chicago, onde ele lecionava. A conversa, que começou difícil, por causa do meu embaraço, acabou tomando um rumo inesperado. Bellow, um homem elegante, amável, quis saber de onde eu era, de onde vinham meus pais. Ficou encantado ao saber que eu era filho de imigrantes judeus vindos da Rússia; era essa também sua origem. Só que os pais dele tinham se dirigido para o Canadá, onde nascera, na cidade de Lachine, em 1915, radicando-se depois nos Estados Unidos.
Claramente era um escritor que, sendo profundamente americano (um escritor de Chicago, para ser mais preciso), valia-se de sua herança cultural para entender melhor a realidade do país. Não era um caso isolado; o mesmo acontecia com outros escritores, Norman Mailer, Bernard Malamud, Philip Roth, que inauguraram, nas palavras do crítico Irving Howe, um novo tipo de regionalismo, não geografico, como aquele através do qual William Faulkner retratou o sul dos Estados Unidos, mas sim étnico. A verdade é que o imigrante recebe uma espécie de compensação por sua condição de marginal da cultura; ele é dono de um olhar privilegiado, um olhar que lhe permite enxergar a realidade do país de maneira diferente. Muitos descobrem assim novas oportunidades de ascensão econômica e social: o caso dos imigrantes que criaram a indústria cinematográfica; outros tornam-se revolucionários e outros ainda enveredam pelo caminho da literatura e da arte. De qualquer modo é uma situação original, que serve como fonte de inspiração. A isto deve-se juntar a tradicional veneração judaica pela palavra escrita e o peculiar humor – aquele humor melancólico, filosófico, que serviu, para um grupo perseguido e amaeaçado, como defesa contra o desespero.
7) Você é um dos escritores brasileiros que mais andam por aí participando de palestras, seminários, congressos, etc. Como faz para administrar tantos compromissos e ainda continuar com o mesmo ritmo de produção?
Organização é fundamental. Na ficção a imaginação pode, e deve, voar solta; mas a vida real tem calendário, tem horários. Compatibilizar essas coisas às vezes dá muito trabalho, mas eu o faço com prazer, mesmo porque escrever é um ato eminentemente solitário. O teclado do computador é diferente do teclado do piano: não dá uma resposta imediata sob a forma de música. Com os leitores um diálogo é possível. Eles tem uma curiosidade que se traduz em numerosas perguntas: de onde surgem as idéias para os textos? Como se escreve um romance, planejando a história, ou deixando que os personagens tomam as rédeas da ação? Você tem horário para escrever?
Para os escritores, por outro lado, o contato com leitores, sobretudo jovens, pode ser muito gratificante. Não é, claro, essencial para o ofício da literatura, ainda que desses encontros possam nascer idéias para textos. É outra coisa. Sobretudo em países como o nome o escritor desempenha papel importante como intelectual, como pessoa que procura entender o seu tempo e transmitir o resultado desse entendimento a seus contemporâneos. Mas o contato com o público não deve ser visto só como uma tarefa intelectual. É antes de mais nada um encontro agradável; e exatamente por ser agradável desmistifica o escritor, mostra que este é um ser humano igual a todos os outros, com as mesmas preocupações e as mesma emoções. O papo leitor-escritor é uma troca emocional. A pergunta fundamental a um jovem que leu um texto não é: “O que quis o autor dizer?”, mas sim: “O que sentiste lendo esse texto?”. A emoção abre caminho para o entendimento. E emoção, ao menos em minha experiência, é o que não falta nos encontros com o público.

NA NOITE DO VENTRE, O DIAMANTE

Moacyr Scliar
Romance
Objetiva Editora

Na pequena aldeia judaica no sul da Rússia, a cada sexta-feira, na festa do Shabat, a cena se repetia na casa de Itzik Nussembaum. Esther, sua mulher, apresentava ao marido e aos dois filhos o dedo anular – segundo ela, apenas um dedo feio e maltratado em mãos feias e matratadas – e, num gesto reverente, solene, orgulhoso, coloca nele o velho anel da família. Que tem um belíssimo diamante engastado.
É esse diamante o centro de uma história fascinante que começa em 1662 numa vila escondida de Minas Gerais, onde é encontrado. Do século XVII, o diamante é levado do Arraial da Cabra Branca por um cristão-novo que foge da Inquisição para a Holanda. Na Europa, a pedra é lapidada por um discípulo do Spinoza – numa das mais belas passagens do livro, em que se associam as idéias geniais do filósofo ao valor de mercadorias e ao sentido da própria vida.
Roubada por outro discípulo de Spinoza, o diamante chega à Rússia, onde se torna herança de família e passar a ser usado por Esther Nussembaum. Quando essa família decide fugir da Rússia, já no começo do século XX, para tentar vida nova no Brasil, se dão conta de que a única coisa valiosa que possuem é o diamante. Com medo dos bandidos na fronteira, fazem com que um dos filhos engula o aro do anel e, o outro, a pedra preciosa. Este último, Gregório, fica com o diamante preso no intestino, o que gera terríveis dramas familiares.
Numa narrativa engenhosa, Moacyr Scliar traz à cena figuras como o padre Antonio Vieira e o filósofo Spinoza, tornando o leitor cúmplice de um saboroso jogo entre realidade e ficção e conduzindo-o a um final absolutamente inesperado.

Visite o link.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Volei Masculino - Nove vezes campeão da Liga Mundial

O Brasil é o maior vencedor da história da Liga Mundial. Neste domingo (25), a seleção brasileira masculina de vôlei conquistou o eneacampeonato da competição e agora reina de forma absoluta na galeria dos campeões.


Pés pequenos das chinesas

Encontrei na internet a foto de um pé pequeno - símbolo de beleza, feminilidade e fragilidade. Também visto como sinal de status social e elegância.
Que costume dolorooooso!
Por 1.000 anos esta prática (chamada Chanzú) foi comum na China - meninas tinham os pés atados com bandagens apertadas de forma que não pudessem crescer.
Os “Pés de Lótus”, como eram chamados, não passavam dos 10 cm de comprimento.




Escritor polonês

Grandes obras são desconhecidas por não constarem sob o título "mais vendidos".
Sempre me pergunto se a divulgação seria o caminho para que chegassem às massas ou, ao menos, ao conhecimento daqueles que apreciam a boa literatura...

Um dos mais originais escritores de sua geração, o polonês Witold Gombrowicz padeceu de absurdo similar aos que criou em sua obra. Convidado de um cruzeiro transcontinental em 1939, ele foi surpreendido pela ocupação nazista na Polônia. Algumas semanas de férias viraram um exílio na Argentina.



Nos 24 anos de vida portenha, Gombrowicz se fingia de conde europeu exilado enquanto vivia de um emprego mal remunerado em um banco, à margem dos círculos literários. É dessa fase o romance Pornografia (Companhia das Letras, 208 páginas, R$ 42, tradução de Tomasz Barcinski), terceiro livro do autor publicado no Brasil depois de Ferdydurke e Cosmos. O título engana. Não há nada de pornográfico em Pornografia além do espírito anárquico do autor traduzido em iconoclastia desvairada e humor zombeteiro. O sexo, em Pornografia, é sobretudo imaginário.
O enredo centra-se nas peripécias de dois intelectuais de meia-idade, Frederick e Witold, que visitam uma propriedade rural na Polônia ocupada pelos nazistas, em 1943, e passam a fantasiar sobre as atividades de um casal de jovens provincianos. A partir dessa tensão entre a vibrante e mutável juventude e a malícia asfixiada da maturidade, Gombrowicz ridiculariza a incapacidade humana de se comunicar. Combatente feroz, cânone da obra-prima, Gombrowicz pregava a humanização da literatura. Dizia que “ao homem cabe não só convencer o outro homem, mas cativar, seduzir, encantar, possuí-lo”. Em Pornografia, assim como em seus outros livros, Gombrowicz possui os leitores com sua mistura dadaísta do nonsense existencial de Samuel Becket com a clareza perturbadora de Franz Kafka.
Época 9 fevereiro 2009.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Poder Público perde a oportunidade para um bom exemplo...

Sustentabilidade


O Planalto não ficou verde





O governo perdeu uma bela chance de fazer do Palácio do Planalto - o mais importante prédio público brasileiro, sede da Presidência da República - um exemplo de sustentabilidade. A fim de reinaugurá-lo no dia 21 de abril, para celebrar o cinquentário de Brasília, o que acabou não ocorrendo em razão de atrasos na obra, o governo decidiu que o novo Planalto contaria apenas com uma acanhada lista de recursos modernos em prol do meio ambiente. Foram acrescidos um sistema de reúso de águas, um novo ar-condicionado e uma nova subestação de energia. Mas a reforma, que custou 100 milhões de reais aos cofres públicos e agora está prestes a ser entregue, deixou de incorporar várias tecnologias verdes e procedimentos de ponta já assimilados pela indústria da construção brasileira. Ficaram de fora a montagem de uma usina de cogeração de energia e o uso de válvulas de descarga que economizam água, entre outros itens*. No final das contas, a obra não saiu no prazo planejado e será inaugurada já defasada. Aliás, o prédio será entregue sem o Procel Edifica, selo de certificação de eficiência energética da construção, instituído pelo próprio Ministério de Minas e Energia.

* Teto - painéis fatovoltaicos para armazenamento de energia solar e cobertura ventilada com isolamento térmico.
* Canteiro de obra - gestação sustentável da construção, incluindo controle de água e energia.
* Revestimento - uso de tintas e vernizes que não emitem elementos orgânicos voláteis
* Janela - vidros de alto desempenho para controle solar. Eles permitem o aproveitamento da luz natural e barram o calor no ambiente interno.
Exame, junho 2010

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Milton Hatoum

Relato de um certo Oriente, de 1989, primeiro romance de Milton Hatoum, debruça-se sobre um tema bastante comum: a família e seus dramas. A procura por mostrar as dificuldades presentes na convivência diária de familiares e amigos entre si, com seus diferentes segredos e comportamentos, faz deste um grande enredo.
O romance mostra que o refúgio da memória é a interioridade do indivíduo, reduzido e isolado na sua própria história, quase que incomunicável com outro mundo que não seja o dele.

A memória, a identidade e a reconstituição de lembranças são os temas deste romance. A personagem protagonista de Relato de um certo Oriente consegue, por meio da rememoração de seu passado e com a ajuda das lembranças de outros, enriquecer sua vida, dar sentido e valor à sua origem.
Em Relato de um Certo Oriente a (re)construção do passado é interessante, pois a narradora utiliza de diferentes recursos para reanimá-lo. Seja um odor, seja uma voz, seja um lugar, não importa. Esses e outros recursos serão utilizados como modos de recuperar a memória perdida.
A obra é um relato composto de outros relatos (metarrelatos), distribuídos em oito capítulos, os quais se assemelham ou resgatam a forma oral do narrar, em que uma história é evocada para completar outras à medida que é um ou outro narrador quem detém a posse de certa informação que vai esclarecer uma outra apontada anteriormente (anáfora), ou outra que ainda virá (catáfora). Fala-se em narrativa de encaixe porque se vão reunindo pequenos relatos para que o todo seja/esteja completo.
A trama se passa numa cidade marcada pelo hibridismo cultural e atravessada pelas idéias de fronteira e trânsito: Manaus, uma capital que se separa da floresta pelas águas fluviais e se situa num estado que faz divisa com três outros países. Ela também é a cidade natal do escritor. No livro também estão presentes a diversidade de costumes, línguas, e a convivência entre indivíduos de diferentes nacionalidades.
Em Relato de um certo Oriente, uma mulher visita a cidade de sua infância depois de ter passado quase 20 anos fora. E, a partir dos acontecimentos que se desenrolam após sua chegada, ela vai relembrando e descobrindo histórias do seu passado e da família que a criou.
Ao retornar a Manaus, após ter permanecido internada em uma clínica de repouso em São Paulo, a narradora chega justamente na noite que precede o dia da morte de Emilie, sua mãe adotiva.
Inicia-se, então, um outro trabalho, o de recuperar Emelie através da memória, não apenas a sua, mas também a de outros personagens que entrelaçaram seu percurso de forma significativa ao daquela família: o filho mais velho, o único a aprender o árabe e que também irá se distanciar de todos, ao mudar-se para o sul; o alemão Dorner, amigo da família e fotógrafo; o marido de Emelie, recuperado, mesmo depois de morto, através da memória de Dorner, e Hindié Conceição, amiga sempre presente, a partilhar com a conterrânea a solidão da velhice. Muitas vozes a compor um mosaico, nem sempre ordenado, nem sempre claro naquilo que revela, mas sobretudo rico em pequenos detalhes de extrema significação.
No intuito de enviar uma carta ao irmão, que se encontra em Barcelona, a fim de lhe revelar a morte de Emilie, acaba escrevendo um relato com depoimento de membros da família e de amigos, conforme o irmão lhe pedira na última correspondência que lhe enviara. Esses testemunhos proporcionam uma verdadeira viagem à memória, com regresso à infância e aos fatos marcantes da vida familiar.
Logo no primeiro capítulo, a narradora nos descreve uma parte da casa na qual acabara de acordar, em Manaus. A descrição das duas salas contíguas é repleta de marcas identificatórias do Oriente, indicando uma representação estilizada desse território: tapete de Isfahan, elefante indiano e reproduções de ideogramas chineses são alguns dos objetos de consumo dos ocidentais, tomados como símbolos, que estão presentes nos cômodos.
Em Relato de um certo Oriente as histórias falam das possibilidades e das dificuldades do trabalho com a memória, das tensões e da convivência de culturas, religiões, línguas, lugares, sentimentos e sentidos diferentes das personagens em relação ao mundo. A casa de Emilie, matriarca da família na narrativa do Relato, é um microcosmo onde estas tensões aparecem e são vividas cotidianamente.
O que mantêm a tensão no romance é a narrativa centrada em incidentes – o atropelamento de Soraya Ângela, o afogamento de Emir.
A obra, em sua estrutura e estratégia de composição, parece transitar e oscilar entre a narração – em que a figura do narrador é extremamente importante e o relato é feito principalmente com base nas tradições orais, como uma tentativa de rememoração das experiências coletivas do passado – e o romance, que apareceria como um gênero literário decorrente das transformações da sociedade capitalista, que destrói cada vez mais a possibilidade que a experiência comum viva e se revele no relato dos narradores.
Clarissa Rodrigues Pinheiro Gomes e Sidney Barbosa
Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara - Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho (UNesp)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

domingo, 18 de julho de 2010

Fome de afeto

Quem lida com criança ou idosos conta-me sempre a mesma coisa: o quanto se sentem agraciados por conviver com essas pessoas abandonadas - é uma troca até desproporcional. Quem ajuda/ampara/visita ganha mais do que aquele que tem fome de afeto...
Na reportagem da Época de 18/out/2008, Eliane Brum descreve com emoção:

Há uma outra fome que também mata. É nela que o pediatra Lauro Monteiro pensou quando criou o concurso de fotografias do Observatório da Infância. Ao desafiar os fotógrafos de todo o país a captar algo tão intangível quanto a falta de afeto vivida por uma criança, ele queria denunciar a mais invisível das violências. As onze imagens selecionadas desvelam as cenas cotidianas que preferimos ignorar. São pequenos corpos que não são tocados, olhares que não encontram nenhum outro para saber que existem. Crianças assassinadas em vida, lentamente, por um gesto que não aconteceu.

É para essa brutalidade que só deixa hematomas na alma que essas fotos nos levam. Não apenas ao desamparo da infância miserável, dos meninos e meninas de rua. Mas também à solidão das crianças dentro dos lares de classe média, que choram não pelo último lançamento da indústria de brinquedos, mas por um afago que mostre a elas o contorno de seus pequenos corpos. E que um dia estancam o soluço no peito porque ninguém as escuta. Desistem. É essa a indigência que gera subnutridos de espírito, adultos partidos pelas ruas do mundo. Mutilados na infância do invisível essencial.

Lauro Monteiro criou o Observatório da Infância há pouco mais de um ano para trocar informações sobre os direitos de crianças e adolescentes. E o concurso de fotografias para estimular um olhar mais sensível e menos óbvio. Foram 90 inscrições e 266 imagens. As 11 mostradas abaixo foram selecionadas por um júri formado por profissionais renomados.


                                                  Menino rest'avec brinca em Porto Príncipe:
                                                  explorados e maltratados.
                                                        Foto: Ailton de Freitas

sábado, 17 de julho de 2010

Triste vício

Há anos enumero tarefas a serem cumpridas a curto e curtísssimos prazos.
Seriam as tarefas urgentes, algo como "dever de casa".
Ao relê-las e descobrir que pouco fiz, reescrevia para nova data.
E ontem, para minha surpresa, ao reler minha "listinha", cortei 90% dos ítens - feitos/cumpridos!
Pois deixei de enumerar o "sobre-humano". Passei a gostar /cuidar mais de mim.
Outrora, a sensação de "você não conseguiu / você fracassou" me perseguia.
Parabéns!
E obrigada!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Insônia II

No meio da noite, me lembrei de outro "diário de bordo". Também virtual, abandonado e quase esquecido.
Trouxe algumas coisinhas de lá... 2007/2008
Trechos de livros - por alguma razão, transcrevi na época:

"- Sem dúvida as iscas são todas iguais no escuro, como mulheres.
- Muheres não são iguais, nem de dia nem de noite - protestou Rob. - Parecem semelhantes, mas cada uma é um perfume diferente, um sabor, um toque, uma sensação. Barber suspirou. - Essa é a verdadeira dúvida que atrai os homens." pág 108 Rocco, Rio de Janeiro -1997. Tradução de Aulyde Soares Rodrigues
O Fisico - A epopéia de um médico medieval, de Noah Gordon.


"A religião dos homens brancos foi concebida para conter a perversidade das pessoas muito perversas - de um povo que vive extremamente apavorado diante da idéia de ter de morrer. O amor dos brancos para com o seu Deus foi construído na base do terror que eles têm da morte. É preciso a alma de um homem branco para carregar o fardo das suas crenças, e não uma como alma como a sua, Ivaloo". pág. 175
"Olhe ao redor! Aqui nós vivemos no luxo, com folga e com requinte. Este é o conforto do sul. Mas não é o seu modo de vida, Ivaloo. Você nunca será feliz entre os cheiros de comidas, de tabaco e de querosene, porque você não está condicionada para isso; nem o seu espírito está preparado para as pregações dos pregadores brancos. O seu corpo, Ivaloo, está acostumado a outro estilo de vida, como a sua alma está afeita a outro estilo de pensamentos. Aqui, você não passa de uma foca a quem se tolheu a água, ou de uma mergulheira a quem se tolheu o ar."
"Onde os homens brancos reinam, você, Ivaloo, é uma ignorante; mas, em sua terra, são eles os ignorantes.Assim, um xamã é que lhe diz: volte para a terra das sombras compridas, onde você é sábia, porque não há pecado tão grande como o da ignorância. E esqueça-se dos homens brancos, e também do deus dos homens brancos, se é que esse deus é feito à própria imagem feia deles: um ferrabrás vingativo e ciumento, que estabelece preço para a salvação e acorrenta os seus filhos, ao invés de libertá-los. Fuja de um deus que diz: 'Ame-me; do contrário você será atirado ao fogo devorador'"
"O seu deus, Ivaloo, é um camarada sorridente, alegre, generoso, um grande caçador, que condivide o fruto de sua caça; que ri com todas as mulheres; e que faz nascer crianças em todos os iglus. Ele não mora em casas sufocantes de madeira; mora no gelo descampado. Não se incomoda com o frio, uma vez que sua barriga está cheia de óleo de baleia. Não acredite num deus que se vinga de suas criaturas só porque ele próprio as fez cheias de fraquezas e de erros! Esse é um deus falso; e os que fazem propaganda de um deus semelhante são ignorantes ou impostores."
"...mas o certo era que os tabus haviam sido feitos para serem respeitados, e não para serem compreendidos."
"...O fruto da caçada era sempre dividido em partes iguais; mas os caçadores que haviam contribuído em menor porção se sentiam mortificados, e comiam sem alegria alguma - a passo que aqueles que mais haviam concorrido para o êxito da caçada ficavam com o semblante como que iluminado e riam à larga; ademais só, a estes últimos é que as mulheres dirifiam olhares."
No País das Sombras Longas, de Hans Ruesch.
Este livro já foi citado anteriormente.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Suíte Francesa

Amiga dos Carrascos
A história da escritora judia que fez sucesso com romances anti-semitas e morreu em Auschwitz
Miguel Sanches Neto
veja

O último romance de Irène Némirovsky permaneceu esquecido em uma mala por mais de sessenta anos. Depois que a escritora judia morreu de tifo no campo de concentração de Auschwitz, em 1942, o manuscrito de Suíte Francesa ficou em poder das filhas, que imaginavam tratar-se de um diário pessoal. Só em 2004 o livro foi redescoberto e publicado na França, país onde Irène – nascida em Kiev, na Ucrânia, em 1903 – fez sua carreira literária. Embalado pela biografia dramática da autora, Suíte Francesa tornou-se uma sensação e até freqüentou listas de mais vendidos nos Estados Unidos. E, claro, despertou interesse para a obra anterior da escritora, que passou a ser reeditada depois de décadas de ostracismo. Uma surpresa incômoda viria daí: no seu retrato dos judeus, a ficção de Irène pesava a mão nos piores estereótipos racistas. Recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letras, a mesma editora que publicou Suíte Francesa, O Senhor das Almas (tradução de Rosa Freire d’Aguiar; Companhia das Letras; 232 páginas; 43 reais) dá motivos de sobra para a acusação de anti-semitismo que pesa sobre a autora – mas é também uma poderosa reflexão sobre os dramas morais de um exilado que tenta assimilar a cultura do país de adoção.

Filha de uma família abastada que deixou a Ucrânia depois da revolução comunista, Irène teve desde cedo uma educação francesa. Não se via como uma judia da Europa Oriental – preferia se imaginar como uma ocidental que participava do grande mundo da cultura. Foi como tal que fez sucesso entre os intelectuais da direita francesa nos anos 30. Seus mais de dez romances, que tendiam para o naturalismo, estavam voltados para o conflito entre os valores rústicos das aldeias e os da civilização. O descompasso entre esses dois mundos era flagrado na trajetória de estereótipos que fixavam uma imagem negativa dos judeus como criaturas mesquinhas, afeitas ao dinheiro e indiferentes às coisas do espírito. Com a invasão da França pelos alemães, Irène mudou-se de Paris para o interior e se viu obrigada a publicar seus textos anonimamente. Quando ela afinal foi presa, em 1942, seu marido pediu sua libertação ao embaixador alemão, argumentando que, apesar da origem judaica da mulher, seus livros não mostravam nenhuma simpatia pelo judaísmo. Mas a perseguição desfez a distância entre Irène e o judeu comum, o que modificaria a sua literatura. Suíte Francesa, seu último livro, já não opõe mais raças. É um testemunho dramático dos padecimentos da massa humana em tempos de guerra.
Publicado como folhetim em 1939 na revista Gringoire, de orientação anti-semita, O Senhor das Almas é um livro de passagem. O personagem principal é o médico Dario Asfar – como a autora, um fugitivo do comunismo que se estabelece na França. Só o que ele deseja, ao recomeçar a vida no exílio, é criar o filho que está por nascer e cuidar da esposa frágil. Mas a sociedade o vê apenas como um judeu desclassificado, e ele acaba confirmando essa visão preconceituosa. Enriquece recorrendo às práticas mais ilícitas – faz abortos clandestinos e professa uma versão charlatã da psicanálise. Mas há um fim nobre que tenta justificar os seus meios: o futuro do filho. Dario se corrompe para que o filho possa tentar a posse de um outro mundo, que ele não conseguiu ter. Só uma nova geração poderia buscar a igualdade que lhe era negada pela sociedade francesa a que ela tanto desejava se assimilar – essa parece ser a crença de Irène Némirovsky. A invasão nazista tratou de mostrar que até isso era impossível.

terça-feira, 13 de julho de 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Bernhard Schlink


Uma obsessão alimenta a literatura do escritor alemão Bernhard Schlink: como a ambiguidade do ser humano leva a armadilhas de complexa resolução moral. O berço dessa ideia está na juventude de Schlink, hoje com 65 anos. No colégio, ele descobriu que seu professor de literatura, o homem que lhe apresentou os livros de Tolstói, Dostoiévski e outros autores centrais em sua vida, fora membro da polícia política nazista, a Gestapo. A partir daí, a reflexão sobre o comportamento dual do ser humano se instalou em Schlink. Ele se tornou juiz e professor de Direito na Universidade Humboldt, em Berlim. Estreou na literatura com tramas policiais, mas calcou sua obra nos dilemas morais nascidos da ambivalência dos personagens.

Às vezes, Schlink exagera em seus dilemas. Sua obra de maior sucesso, O leitor, um best-seller transformado em filme e ganhador de Oscar, sofreu severas críticas. A protagonista, Hanna, uma mulher analfabeta, guarda de um campo de concentração nazista, alcança certa redenção ao ser apresentada a clássicos da literatura por um jovem amante. Schlink foi acusado de “desculpar o indesculpável genocídio nazista de judeus”. A resposta aos críticos foi: “É simplista pensar que apenas monstros cometem monstruosidades”. Essa ideia é central em O Fim De Semana (Record, 250 páginas, R$ 29,90, tradução de Kristina Michahelles).
Jörg, um ex-terrorista da Facção Exército Vermelho, o grupo de extrema esquerda conhecido como Baader-Meinhof, é libertado depois de 20 anos de prisão. Fora acusado de quatro assassinatos, mas parte de sua pena é perdoada. Sua irmã, Christiane, convida-o a passar o fim de semana em sua casa no campo, com um grupo de antigos amigos revolucionários. Nenhum deles foi preso por atos terroristas. Hoje, estão casados e bem-sucedidos. A tranquilidade começa a ruir quando o filho de um deles instiga Jörg a reviver seus ideais e se aliar ao movimento revolucionário contemporâneo. A provocação vira uma reação em cadeia e transforma a casa em um tribunal para expiar traição e culpa.

Em O fim de semana, Schlink não está apenas interessado em refletir sobre os dilemas morais provocados pelas contradições humanas. Também discute o relativismo dos ideais e o revisionismo das convicções da geração de Maio de 68 – por sinal, sua própria geração.
Época - 17/06/2010

domingo, 11 de julho de 2010

Holandeses perderam a taça para os espanhóis

Sinceramente, embora soubesse que o futebol espanhol merecia (e merece) a taça pelo melhor futebol, eu torcia pela Holanda.
Seria um marco histórico a Holanda ganhar sua primeira COPA do MUNDO na África do Sul - justamente na África do Sul!
Afinal, não só os ingleses criavam leis e governavam apenas para os interesses dos brancos no regime do apartheid. Também os holandeses compunham os brancos de origem européia que controlavam o governo.

Apartheid (significa "vidas separadas" em africano) era um regime que cerceava os direitos políticos, sociais e econômicos da maioria da população originalmente africana. Embora a segregação existisse na África do Sul desde o século 17, quando a região foi colonizada por ingleses e holandeses, o termo passou a ser usado legalmente em 1948.

Aos negros eram impostas várias leis, regras e sistemas de controles sociais.
Entre as principais leis do apartheid, podemos citar:
- Proibição de casamentos entre brancos e negros - 1949.
- Obrigação de declaração de registro de cor para todos sul-afriacanos (branco, negro ou mestiço) - 1950.
- Proibição de circulação de negros em determinadas áreas das cidades - 1950
- Determinação e criação dos bantustões (bairros só para negros) - 1951
- Proibição de negros no uso de determinadas instalações públicas (bebedouros, banheiros públicos) - 1953
- Criação de um sistema diferenciado de educação para as crianças dos bantustões - 1953

Este sistema vigorou até o ano de 1990 (42 anos de guerra civil entre brancos e negros), quando o presidente sul-africano tomou várias medidas e colocou fim ao apartheid. Entre estas medidas estava a libertação de Nelson Mandela, preso desde 1964 por lutar com o regime de segregação. Em 1994, Mandela assumiu a presidência da África do Sul, tornando-se o primeiro presidente negro do país.

Bons filmes retratam essa parte da História:

Tempo de matar (1996) - uma criança negra é estrupada por dois racistas brancos e o pai da menina mata os dois num ato desesperado de ódio e vingança. O crime de estupro é arquivado devido a morte de um de seus participantes e o crime de duplo homicídio vai a julgamento.
Um Grito de Liberdade (1987)
Bopha! À flor da pele (1993) - Bopha, na língua zulu, significa prender ou deter. O filme trata dos conflitos raciais que desestruturaram a África do Sul no início dos anos 1980
Um Mundo à Parte (1988)
O Poder de um Jovem (1992)
O Clube do Bang Bang - grupo de quatro fotojornalistas, atuou na África de 1990 a 1994. Um deles, Kevin Carter se suicidou em 1994, pouco depois de ganhar um prêmio Pulitzer por uma foto que fez no Sudão, em 93, de uma menina desnutrida e faminta que tentava chegar num acampamento de ajuda a refugiados. A menina estava sob a espreita de um gavião que se preparava para atacá-la.
Frente a Frente com o Inimigo (2009)
Mandela - Luta pela liberdade (2007)
Em minha terra (2004)
Invictus (2009)
Em nome da honra (2006)
Lugar nenhum na África (2001) - Quênia - retrata o amor de duas mulheres (mãe e filha) alemãs ao continente africano. Voltar para a Alemanha? Ou permanecer neste país enigmático?

Confiram!
E, se você conhece outros filmes para "estudarmos" juntos o continente africano, agradeço desde já a sugestão...

Lavras Novas


Ok! Admito!
Não pedalo mais!
Mas, já pedalei! E conheci lugares fantásticos, dos quais tenho boas recordações.
Que saudades do aconchego de Lavras Novas!
Trilha do Quilombo...



Isso! Postarei aqui fotos dos lugares em que conheci por meio da magrela ou da turma dos amigos incríveis...

Claudia  : )

sábado, 10 de julho de 2010

Livros com café

Ei, creio que já contei que adoooro uma cafeteria... Se tiver livros então, nem se fala, hehehe
Durante o jogo que eliminou o Brasil da Copa, por erro de estratégica, perdi a oportunidade de estar num local aconchegante assim...
Parei no primeiro local que tinha comida e não vuvuzelas... Televisão, obrigatória (não para mim)!
Quem poderia imaginar que alguém, enquanto os brasileiros ficavam "com o coração na mão", nem veria os gols da Holanda... o livro estava booom demais! Nem levantava a cabeça, rs

Voltei ao 3o. volume da série Reis Malditos e me deliciava com a fortuna de Clemência de Hungria acumulou em 10 meses de casamento com Luís X, rei da França: nada menos que quatorze castelos, alguns dos quais contavam entre as mais importantes residências reais.

Sinopse:
França, agosto de 1315. O novo monarca, Luís X, o Cabeçudo, livre da esposa adúltera, não tem outros pensamentos senão seu novo casamento, dessa vez com Clemência de Hungria.
Preparadas as núpcias e a recepção da noiva na França, Luís X será capaz de adiar, em pleno campo de batalha, um confronto armado entre o maior exército jamais visto na França e os rebeldes flamengos, muitos dos quais ele prometia reduzir a mil pedaços.
Tolo, passional e imaturo, o rei não sabia que viria a se apaixonar por uma jovem princesa pura, cujo coração e pensamentos voltavam-se para a justiça, a paz, o espírito e a felicidade de seus súditos.
O reinado de Luís X durou apenas dezoito meses - tempo suficiente para engendrar um herdeiro póstumo e devolver poderes ao conde Robert d'Artois, despertando assim o ódio de Mahaurt d'Artois. E as consequências de tal decisão lhe custarão caro demais.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Polvo Paul já definiu o campeão da COPA


                                                           polvo-profeta Paul no aquário de Oberhausen

Espanha, Holanda e Alemanha!
Aguardemos...  Caso a classificação se confirme, Paul terá acertado 100%!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Obras-primas que ninguém lerá

Um fascinante inventário dos livros que se perderam
no tempo, de Homero a Lawrence da Arábia
 
O escritor britânico Thomas Carlyle esperava ganhar fama e dinheiro com A História da Revolução Francesa, que estava escrevendo por volta de 1835. Emprestou o original do primeiro volume a seu amigo filósofo John Stuart Mill, que, displicente, deixou o manuscrito na casa da namorada. A empregada desta achou que o calhamaço trazia só papéis velhos – e o jogou ao fogo. No Brasil, pouco mais de uma década depois, outro livro inédito seria consumido pelas chamas: Os Contrabandistas, o primeiro romance do jovem José de Alencar, foi usado por um hóspede de sua casa como pavio para acender charutos. Carlyle reescreveria A História da Revolução Francesa (que, ao ser finalmente publicada, ganhou uma longa e elogiosa resenha de Stuart Mill), mas Alencar nunca mais retomou Os Contrabandistas. As duas anedotas ilustram a fragilidade do livro: o papel – e seus antecessores, como o papiro e o pergaminho – não resiste a incêndios e inundações, e ainda sofre deterioração pelo tempo. O Livro dos Livros Perdidos (tradução de Ana Maria Mandim; Record; 434 páginas; 54 reais), do crítico escocês Stuart Kelly, é um breve inventário de perdas e danos literários e uma bela introdução à biblioteca dos livros que nunca serão lidos.

A destruição de um livro era um grande problema na era que precedeu a imprensa, quando todo exemplar, copiado a mão, era precioso. A literatura clássica da Antiguidade que se perdeu é mais volumosa do que aquela que chegou até os dias de hoje. Livros como a Poética, do filósofo Aristóteles, trazem referências a Margites, uma espécie de epopéia cômica atribuída a Homero, mas os leitores modernos só conhecem a Ilíada e a Odisséia. A própria Poética é um livro parcial: deveria ter uma continuação devotada à comédia, que se perdeu (a destruição dessa obra de Aristóteles serve de mote para O Nome da Rosa, o policial medieval de Umberto Eco). Ainda mais azarado foi Agatão, autor de tragédias do século V a.C. Ele aparece como o anfitrião de O Banquete, um dos mais célebres diálogos de Platão – mas nenhuma de suas tragédias se conservou inteira.
Técnicas recentes de leitura com raios X e câmeras digitais têm permitido a recuperação de papiros deteriorados ou queimados que dez anos atrás eram tidos como irrecuperáveis. Mas essas pesquisas até aqui só revelaram fragmentos de poetas como Hesíodo e Arquíloco. Nenhuma tragédia integral foi reencontrada, muito menos uma epopéia inédita de Homero. Nos seus ensaios sobre gregos e latinos, Kelly lamenta por esses tesouros desaparecidos, mas também faz ponderações sobre o que se poderia chamar de sabedoria do tempo. Só sete das 120 tragédias de Sófocles sobreviveram? Triste, sem dúvida. Mas essa seleção radical acabou sublinhando a qualidade de Édipo Rei. E já houve pelo menos um caso de obra recuperada que se revelou decepcionante: a peça Díscolo, do grego Menandro, reconstituída em meados do século passado. Autores antigos como Quintiliano, Plutarco e até Júlio César tinham Menandro como um gênio da comédia. A expectativa em torno da obra redescoberta era, portanto, enorme. O que se viu, porém, foi uma espécie de novela mexicana avant la lettre. Menandro adorava um reencontro de órfãos separados na infância.



A perda de um livro também pode ter seus aspectos positivos na carreira de um escritor. Em 1922, Hadley, a primeira mulher de Ernest Hemingway, viajava para a Suíça com uma valise cheia de originais, que acabou sendo roubada na estação de trem. O escritor americano ficou arrasado – entre os esboços extraviados, havia um romance já bem adiantado sobre suas experiências na I Guerra Mundial. Kelly especula, porém, que esse contratempo teve seu aspecto liberador: definitivamente descartadas as tentativas juvenis, Hemingway pôde afinal compor obras-primas como O Sol Também Se Levanta. Para outros autores, claro, a perda representa um retrocesso: os originais de Ultramarino, romance do inglês Malcolm Lowry, foram roubados do carro de seu editor, e a versão hoje existente teve de ser reconstituída a partir das notas do autor. T.E. Lawrence também foi roubado em uma estação de trem, em Londres, e perdeu a primeira versão de Os Sete Pilares da Sabedoria, relato de sua participação na revolta árabe contra o Império Otomano entre 1916 e 1918. A possibilidade remotíssima de que essa primeira versão seja reencontrada ainda atiça a curiosidade de historiadores. Na versão final do livro, o autor parece mais preocupado em construir o próprio mito como Lawrence da Arábia do que em estabelecer a verdade dos fatos. O manuscrito perdido talvez fosse mais fiel à história.
A noção de "livro perdido" de Kelly é ampla: inclui até obras que nunca foram escritas, seja porque o autor se desinteressou do projeto, seja porque morreu antes de realizá-lo. Melville, Dickens, Flaubert, Kafka – a lista nessa categoria é longa. O Livro dos Livros Perdidos parece sugerir que a expressão "obra completa" é vazia de sentido. O francês Marcel Proust, por exemplo, morreu em 1922 sem concluir sua obsessiva revisão de Em Busca do Tempo Perdido. Os sete romances que compõem a obra estão nas livrarias e bibliotecas – mas a versão "final", aquela que Proust desejaria ver publicada, não existe. Toda biblioteca, parece sugerir Kelly, é uma coleção de escombros. Essa não é uma visão tão desoladora: como aquelas estátuas antigas nas quais faltam braços, a literatura ensina que há beleza na incompletude.
veja 14 novembro 2007

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Ensaio fotográfico COPA NA ÁFRICA - Um continente, uma bola

Jessica Hilltout percorreu a África para registrar o futebol “de raiz”.
Visite o link!

Tango - Carlos Saura (1998)

terça-feira, 6 de julho de 2010

Charge da COPA


Livingstone e seu amor pela África

David Livingstone (Blantyre, Escócia, 19 de março de 1813 — Zâmbia, 1 de maio de 1873) foi um missionário escocês e explorador europeu na África que "combateu, desde o início, o tráfico de escravos que, embora proibido no império britânico desde 1833, ainda era praticado pelos portugueses e árabes." * fonte Wikipédia

Transcrevo para vocês um pouco desse idealista, sob o ponto de vista de Martin Dugard, autor do livro No Coração da África - as aventuras épicas de Livingstone & Stanley (Ed. Record, pág 90-95):

Poucos homens de sua época manifestavam-se com tanta paixão contra a escravidão como Livingstone. [...]  
Quando finalmente voltou para a Inglaterra em 1856, depois de quinze anos consecutivos na África, Livingtone usou a fama que acabara de conquistar para denunciar o tráfico de escravos. [...]
Àquela altura, já era tarde demais para desviar Levingtone de seu sincero curso antiescratura. Ele estava sendo saudado como o maior explorador do mundo. Sua fama era fenomenal. Por coincidência, a recente revogação de um imposto do selo tornou os jornais acessíveis às massas, pela primeira vez. A população da Grã-Bretanha, de quatro milhões de habitantes, era uma das mais alfabetizadas do mundo e tornava-se fanática por notícias. As proezas de Livingtone davam grandes reportagens e sua fama continuava a crescer. Multidões assedivam-no nas ruas, até mesmo na igreja. Chaves de cidades lhe eram entregues e ele recebia vultosas doações para continuar as explorações.
[...] Os discursos antiescratura de Livingstone eram severos e voláteis, um dos poucos foros no qual o homem tranquilo expressava raiva publicamente. Ele não era antiescravagista porque aquilo fosse conveniente ou policamente correto, mas porque a África se tornara seu lar. A escravidão era a destruição de um povo. Densidade demográfica, distribuição da população, estrutura de classes, padrões de casamento, proporção de homens em relação às mulheres – todos eram alterados pela diáspora forçada de tribos em sua maioria pacíficas, agrícolas, para outras terras.


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Ken Follett e as catedrais


Ken Follett gosta de catedrais. Não é, no entanto, um homem religioso. "Eu me interesso pelas catedrais como fenômenos sociais. São monumentos de uma beleza arrebatadora, mas foram construídos por gente que morava em casebres de madeira", disse Follett em entrevista a VEJA. Foi esse contraste dramático que motivou o escritor galês, conhecido por seus thrillers, histórias da II Guerra e livros de espionagem (O Buraco da Agulha, seu primeiro grande sucesso, era tudo isso ao mesmo tempo), a se arriscar em uma saga medieval. Os Pilares da Terra, de 1989, tornou-se um de seus livros mais populares. Ainda hoje vende em torno de 100 000 exemplares por ano nos Estados Unidos (em 2007, voltou ao topo das listas de mais vendidos do país, depois que a poderosa apresentadora Oprah Winfrey o escolheu para seu clube de leitura). Mundo sem Fim (tradução de Pinheiro de Lemos; Rocco; 942 páginas; 75 reais), agora lançado no Brasil, é uma espécie de continuação de Os Pilares da Terra. Por que Follett voltou à Idade Média? "Os leitores pediam", diz. Tal é a razão de ser de um autor de best-sellers: agradar aos leitores.
Mundo sem Fim traz elementos que fazem um bom vira-página: muita ação, intrigas palacianas, personagens fortes que lutam para superar uma sorte adversa. A história começa com quatro crianças que testemunham um crime em uma floresta (aliás, um dos meninos toma parte ativa nas mortes). Como sói acontecer em sagas do gênero, o destino dos quatro será indissociável ao longo das 900 páginas seguintes. O leitor não precisa ter passado pelos dois alentados tomos de Os Pilares da Terra para se divertir com Mundo sem Fim. A locação é a mesma – Kingsbridge, localidade fictícia na Inglaterra medieval –, mas a história se passa no século XIV, 200 anos depois do primeiro livro, obviamente com outros personagens.
O site de Follett na internet traz uma interessante seção chamada "masterclass" (algo como "aula magna"), em que ele dá dicas para a composição de um best-seller. A palavra-chave é planejamento: o autor de O Vôo da Vespa pesquisa extensamente sobre o tema de suas obras e traça a estrutura do livro antes de escrever a primeira linha. Nada disso, porém, garante sucesso. "Ainda não apareceu ninguém que tenha chegado à lista de mais vendidos seguindo as minhas dicas. Não existe fórmula para um best-seller", diz Follett. Curiosamente, a crítica mais comum que se faz a autores como Follett, Frederick Forsyth ou Tom Clancy centra-se no caráter de fórmula de seus livros. A narrativa do best-seller de fato se ampara em alguns simplismos, como se constata pela psicologia muito básica dos protagonistas de Mundo sem Fim (a mulher forte mas oprimida pela sociedade machista de seu tempo, por exemplo, é um persistente chavão feminista). Mas há autores que usam esses clichês com competência, enquanto outros fracassam. Follett está entre os primeiros. É um mestre do entretenimento.
Vendendo na casa dos milhões desde O Buraco da Agulha, de 1978, Follett poderia se aposentar, mas já está trabalhando em outra ambiciosa saga, A Trilogia do Século, que cobrirá o período de 1914 a 1989 – o primeiro volume deve sair em 2010. "Poderia passar meus dias jogando golfe, mas morreria de tédio. Escrever me entusiasma, e eu sou bom nisso", diz o imodesto Follett. Eis um homem que aprecia o sucesso e a riqueza sem nenhum traço de má consciência. Casado com Barbara, política do Partido Trabalhista inglês e atualmente ministra do gabinete de Gordon Brown, Follett alinha-se de boa vontade ao que no Brasil se chamaria de "esquerda festiva" (é um "socialista do champanhe", na expressão inglesa). Foi próximo do ex-primeiro-ministro Tony Blair, com quem acabou rompendo. Há quem diga que um monge caviloso de Mundo sem Fim foi inspirado em Blair. O autor não nega as semelhanças, mas tem uma avaliação generosa do ex-primeiro-ministro. "Sua grande fraqueza foi não ter dito a verdade sobre o Iraque. Mas, no geral, o legado de seu governo é positivo", diz.
veja, 10 setembro 2008

domingo, 4 de julho de 2010

sábado, 3 de julho de 2010

O Segredo dos Seus Olhos

Diante da derrota argentina por 4 x 0 da Alemanha, Maradona não foi o centro das atenções na nossa roda. Falávamos de Buenos Aires, do Café Tortoni, da maladragem argentina, da corrupção com estilo europeu (mais "discreto" que o estilo brasileiro, rs) e chegamos ao filme Nove Rainhas e ao ator argentino Ricardo Darín que atuou também no filme O Segredo dos Seus Olhos - ganhador do Oscar 2010 Melhor Filme Estrangeiro.

O importante é infatizar que o cineme argentino vem ganhando espaço internacional.
E são boas as indicações:
O Segredo dos Seus Olhos 
Sinopse: Benjamin Esposito (Ricardo Darin) é um agente de justiça aposentado que resolve escrever um livro sobre um caso de estupro seguido de homicídio, que investigou na década de 70 e que nunca conseguiu esquecer.
A partir daí, começa uma longa viagem ao passado, revisitando os detalhes em sua memória, especialmente o amor que manteve em segredo por 25 anos, pela advogada Irene Menendez Hastings (Soledad Villamil).
A solução do caso e a punição do responsável passa a ser uma obsessão para Benjamin e mesmo com as outras pessoas aconselhando-o a esquecer o assunto, ele continua seu trabalho e isso quase acaba custando sua vida, durante a Ditadura.

Com cenas fortes, diálogos inteligentes, uma ambientação perfeita e pelo menos uma sequencia de tirar o fôlego, que acontece dentro de um estádio de futebol, o filme dá uma aula sobre a importância de ter em mãos um roteiro bem escrito.
Baseado no livro La pregunta de sus ojos (A pergunta dos seus olhos), de Eduardo Sacheri, que também adaptou o roteiro em um filme que tem tudo: suspense, reviravoltas surpreendentes, romance e até ótimas cenas de humor protagonizadas por Guillermo Francella, no papel de Pablo Sandoval, o colega alcoólatra de Benjamim, que o auxilia nas investigações.
Dirigido por Juan José Campanella e com o cinema noir como maior influência, o filme é uma lição de cinema que até mesmo Hollywood poderia aprender para melhorar suas produções tanto em conteúdo, como em forma.
. titulo original: (El Secreto de sus Ojos)
. lançamento: 2009 (Argentina) (Espanha)
. direção: Juan José Campanella
. atores: Ricardo Darín , Soledad Villamil , Pablo Rago , Javier Godino , Guillermo Francella
. gênero: Drama

Nove Rainhas
Sinopse: Marcos (Ricardo Darín) e Juan (Gastón Pauls) são dois picaretas que estão prestes a dar o golpe de suas vidas. Os dois se conhecem numa madrugada, após Juan tentar dar um golpe em um balconista, e resolvem se unir para participar de uma negociação milionária, envolvendo uma série de selos falsificados conhecidos como "Nove Rainhas". Um milionário espanhol está interessado em comprar a série, mas como deixará a cidade ao amanhecer o negócio precisa ser realizado imediatamente. Com isso, o veterano Marcos ensina a Juan os segredos do ofício e a cada passo que dão encontram novos ladrões e farsantes, sendo que não poderão confiar em ninguém, nem mesmo um no outro.
. titulo original: (Nueve Reinas)
. lançamento: 2000 (Argentina)
. direção: Fabián Bielinsky
. atores: Ricardo Darín , Gastón Pauls , Leticia Brédice , Ignasi Abadal , Alejandro Awada
. gênero: Suspense

O Filho da Noiva
Sinopse: Aos 42 anos Rafael Belvedere (Ricardo Darín) está em crise, pois assumiu muitas responsabilidades e não tem mais tempo para qualquer tipo de diversão. Boa parte de seu tempo é gasto no gerenciamento do restaurante fundado por seu pai, no qual até tem um relativo sucesso, mas sem nunca conseguir escapar da sombra de seu pai. Rafael raramente visita sua mãe, Norma (Norma Aleandro), que está perdendo a memória, pois ela sempre implica com suas acompanhantes. Sua ex-esposa o acusa de não dar a devida atenção ao filho e ainda há Naty (Natalia Verbeke), atual namorada de Rafael, que sempre lhe exige atenção e comprometimento. Em meio a todas estas responsabilidades Rafael sofre um ataque cardíaco, que faz com que se encontre novamente com Juan Carlos (Eduardo Blanco), um amigo de infância, que o ajuda a reconstruir seu passado e ver o presente com outros olhos.
. titulo original: (El Hijo de la Novia)
. lançamento: 2001 (Argentina)
. direção: Juan José Campanella
. atores: Ricardo Darín , Héctor Alterio , Norma Aleandro , Eduardo Blanco , Natalia Verbeke
. gênero: Drama

Prefácio



Duas moças


Até vir à Espanha, em 1958, não creio que tenha lido escritores espanhóis contemporâneos residentes na península, por força de um preconceito tão difundido na América Latina, quanto injusto: tudo o que lá se publica recendia a mofo, sacristia e franquismo. Por isso, só conheci agora a delicada e sufocante história de Andrea, a adolescente provinciana que chega, cheia de ilusões, à Barcelona cinzenta do início dos anos 40 para estudar Letras, e que Carmen Laforet narra com uma prosa entre exaltada e glacial, na qual o que se cala é mais importante do que o que se diz, capaz de manter o leitor mergulhado numa angústia indescritível do começo ao fim do romance. Não há nessa minuciosa autópsia da alma de uma mocinha encarcerada em uma família faminta e meio enlouquecida da rua Aribau a menor alusão política, salvo, talvez, muito de passagem, uma referência às igrejas queimadas da guerra civil. Mesmo assim, porém, a política gravita sobre a história como um silêncio agourento, como um câncer proliferante que corrói e devasta tudo: essa universidade esvaziada de vida e de ar fresco, essas famílias burguesas mumificadas em boas maneiras e putrefação visceral, esses jovenzinhos confusos que não sabem o que fazer, para onde dirigir o olhar para escapar da atmosfera rarefeita em que vão definhando de tédio, privações, preconceitos, medos, provincianismo e uma ilimitada confusão.


É admirável a maestria com que, através de leves notas anedóticas e brevíssimas pinceladas descritivas, vai surgindo a paisagem opressiva e deprimente que parece uma conspiração do universo inteiro para frustrar Andrea e impedi-la de ser feliz, assim como quase todos que a rodeiam. E, a despeito disso, há nessa adolescente desvalida um espírito tenaz, inquebrantável, que a impede de entregar-se ao desespero e de vingar-se de sua triste vida.


No mundo de Nada - o título perfeito diz tudo do romance e do lugar em que se passa - há apenas ricos e pobres e, como em qualquer país do terceiro mundo, a classe média é uma fina membrana que se retrai e que, como a família de Andrea, tende a fundir-se no amálgama popular em que se confundem trabalhadores, mendigos, desocupados, desempregados, marginalizados, num mundo que a assusta e que ela tenta manter afastado à base de preconceitos ferozes e delirantes fantasias. Nada existe para além deste mundinho larvar que circunda os personagens; até mesmo o pequeno enclave boêmio no bairro antigo, que Andrea às vezes frequenta, construído por jovens pintores que gostariam de ser rebeldes, insolentes e modernos, mas não sabem como, tem algo de caricatural e provinciano.


Mas é sobretudo no domínio do amor e do sexo que as personagens de Nada parecem viver fora da realidade, em uma misteriosa galáxia na qual os desejos não existem ou foram reprimidos e canalizados para atividades compensatórias. Se em quase todos os aspectos da vida, o mundo do romance delata uma moral apática até a desumanidade, capaz de alienar e empobrecer homens e mulheres, neste, no domínio do sexo, a distorção alcança proporções inverossímeis e é, certamente, em muitos casos, a explicação secreta para as neuroses, as amarguras, o desassossego, o desconcerto vital de que quase todos os personagens são vítimas, inclusive Ena, a amiga cheia de vida e emancipada que Andrea admira e inveja.


Suspeitaria essa jovem de vinte e poucos anos que era Carmen Laforet quando escreveu seu primeiro romance, que estava retratando de maneira tão implacável quanto lúcida uma sociedade brutalizada pela falta de liberdade, pela censura, pelos preconceitos, pela hipocrisia e pelo isolamento e que, na história de sua comovedora criatura, Andrea, a menina ingênua que fica escandalizada quando, na história, lhe "roubam um beijo", exemplificava um caso de desesperada e heróica resistência contra a opressão? Talvez não, talvez tudo isso tenha ocorrido, como acontece tantas vezes nos bons romances, por obra da intuição, da adivinhação e da autenticidade com que buscava, ao escrever, capturar uma elusiva e perigosa verdade que não poderia se expressar senão através dos labirintos e símbolos da ficção. Conseguiu e, meio século depois da publicação, seu lindo e terrível romance permanece vivo.
 Mario Vargas Llosa
2004 e 2005
Editora Objetiva

Nada é o primeiro romance de Carmen Laforet e lhe rendeu o Prêmio Nadal de 1944.