domingo, 25 de abril de 2010

Un pequeño placer

Ingredientes:

Porción de shimeji en la mantequilla/shoyu/naranja
Tostada con queso cream chesse/damasco
Vino
Blues

Resultado:

Tensión baja, “semi-alcoholizada” y un mundo colorido : )

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Viver

É o outro texto de Andrea Pavlovitsch

[...]
A questão é: o que diabos é aproveitar a vida?

Será que aproveitar a vida é vender tudo, comprar um barco e atravessar o oceano com um estoque de comida enlatada e um rádio que não pega metade do caminho? Será que é vender água de coco em Porto Seguro ao som da última versão de Macarena em português? Será que aproveitar a vida é largar o seu namorado de três anos mornos e começar a dar uma de Samantha em "Sex and the City" pegando só o que dá? Afinal de contas, que é este tal de aproveitar a vida?

Eu acho que eu aproveito a vida. Meu trabalho, eu nem chamo de trabalho, porque eu amo demais e me levanto cada dia mais cedo para executá-lo. Eu sou curiosa ao ponto da minha mãe sempre dizer que não posso ver um saco fechado chegando em casa que eu abro e, assim, eu conheço um monte de coisas. Eu me considero uma pessoa amiga, pelo menos de mim mesma. Eu cometo algumas gafes, faço alguns disparates de vez em quando, mas a idéia de pular de pára-quedas me causa náuseas só de pensar. E aí? Será que eu deveria querer pular de pára-quedas ou voar de balão na Capadócia para estar de fato aproveitando a minha vida?

Depois de muito analisar e de deixar a minha intuição falar um pouco mais do que isso eu cheguei a uma conclusão. Aproveitar a vida é ser você mesmo! Se o que te deixa feliz é limpar a casa todinha e fazer um belo jantar para o seu marido, mesmo sem ter nunca saído do seu bairro, que ótimo, você está aproveitando a sua vida. Se o mais importante é se aventurar em uma terra desconhecida e você o faz mesmo que tudo seja planejado metodicamente, que bom, você também está aproveitando a sua.

O não aproveitar a vida para mim é, mesmo tendo tudo isso, não ter paz no espírito ou no coração. Não conhecer a si mesmo a ponto de não ter a menor idéia do que quer fazer com a sua vida. Não olhar para dentro e continuar procurando do lado de fora de você a resposta para todos os seus problemas, seja num amor, numa viagem, indo pro Oriente Médio ou sendo rica e famosa. Não aproveita a vida quem não olha o por do sol, mesmo que seja da laje de um barraco e se sente emocionado, lá no fundinho, com o espetáculo que é a natureza. Não aproveita a vida quem está com pressa de ser e de ter. Quem tem pressa de ser mais feliz, não está aproveitando a vida, mas a encurtando. Quem está preso na própria ansiedade não vive em mundo algum, está só flutuando como um dente-de-leão procurando um solo seguro para se firmar. Quem acha que a felicidade está "lá", seja lá onde este "lá" for.

[...]

Aproveite que está lendo este texto, e se perceba. Perceba como está sentado, perceba as partes do seu corpo, o contato do seu corpo com a cadeira. Perceba a maciez das coisas ao seu redor, as cores, os cheiros. Perceba qual é o seu sentido mais aguçado. Isso é viver e aproveitar. No aqui e no agora, da maneira como as coisas são ou estão. Ame intensamente como não se houvesse amanhã. Porque, quando chegar o amanhã, ele será o seu hoje mesmo. Largue a carga que você carrega de ter uma lista enorme de obrigações. Sinta o prazer de ser.
Aproveitar a vida é ter prazer. Por que a dor virá, inevitavelmente.

Pense nisso!
 
Pensei! E rasguei a minha lista de obrigações!!!  :)
 

Em fuga, mais uma vez!

Só uma coisa posso admitir: que fujo! Fujo ainda não sei de quem, não sei do quê; mas fujo! A palavra fuga me "agrada"!
Minha amiga Dária, diretamente da Itália, me sugeriu hoje um texto sobre "aproveitar a vida". Conversamos sobre o que nos faz felizes. Como aproveitamos a vida com "pouca coisa", de maneira simples, silenciosamente.
E por que as minhas fugas são consideradas depressão para algumas pessoas?



Ao jogar o nome da autora do texto VIVER no google encontrei outro texto, desta vez sobre a TRISTEZA:

UMA CONVERSA COM A TRISTEZA

por Andrea Pavlovitsch - andreapavlovitsch@uol.com.br
“...e não há tempo que volte, amor, vamos viver tudo o que há pra viver, vamos nos permitir...”
Lulu Santos

Sinto que, no fundo, sempre fugi das minhas tristezas. Talvez por isso elas tenham me perseguido por tantos anos. Lembro-me bem da primeira vez em que me senti realmente triste. Meu pai havia chegado do trabalho nervoso, sem dinheiro nem para as compras daquela semana. Ele queria que eu fosse dormir mais cedo para ele conversar sobre esses problemas com a minha mãe e eu não queria. Eu queria ficar com ele, mais um pouquinho, realmente curtindo o pai que só aparecia em casa tarde da noite. Ele não gostou. Depois disso só me lembro de estar escondida atrás de um pequeno hall que dava para a sala de estar, ainda sem conseguir dormir, depois da minha primeira surra. A primeira mesmo, de verdade. Fiquei chorando atrás da porta o mais baixinho que conseguia, mas não fui para a cama como ele queria. Queria olhar para ele, queria saber o que ele estava sentindo depois de me bater. Chorei, talvez pela primeira vez, de tristeza profunda. O cara que eu achava o mais legal do mundo não tinha sido tão legal dessa vez.

Acredito que esta foi a minha primeira grande decepção com alguém, e talvez a primeira de muitas decepções com os homens da minha vida. A culpa não era dele (não que eu entendesse isso na época, claro), mas ele tinha deixado de ser a pessoa em quem eu mais confiava. A pessoa que me protegeria de qualquer mal, que me daria um carinho incondicional, que me amaria mesmo que eu fizesse coisas erradas e consideradas feias. Naquele dia eu descobri que não. Que eu precisaria ser de uma maneira diferente do que eu realmente era para que ele me amasse de verdade. Precisaria ir pra cama cedo, precisaria estudar, precisaria fazer uma lista de coisas que, de alguma maneira, eu ainda tento fazer até hoje. Precisaria me tornar grande, maior, perfeita. Eu não era perfeita e aquela surra tinha me provado isso, por A mais B. Precisaria mudar muito para ser, novamente, a princesinha do papai. Coisa que, claro, eu nunca mais consegui.


Naquela noite eu chorei e não foi de dor. Foi de tristeza. Tristeza porque finalmente eu entendia o mundo no qual eu tinha me metido. Uma tristeza muito solitária, de uma solidão profunda, de alguém que aos cinco anos precisava para aprender alguma coisa.


Hoje eu sei que entendi tudo errado. Que superestimei, que fantasiei um pai que não era para ser assim. Ele era uma pessoa que tinha, como muitos, sofrido demais na vida. E que aprendeu, talvez mais cedo até do que eu naquele momento, que existiam pessoas que agiam como queriam e você não tinha nada mais pra fazer do que se proteger. Sei o quanto ele se arrepende dessas coisas hoje. Sei o quanto ele me pediu perdão e o quanto eu perdoei. Mas, infelizmente, não sei se deixei de me sentir triste e sozinha. Afinal de contas, isso é uma coisa da qual os nossos pais, e mais ninguém no mundo, poderão nos proteger.


Mas o que eu fiz também, não foi legal para mim mesma. Aprendi que deveria ser a menina perfeita e fugir, o mais longe que eu poderia, da tristeza. Sempre que me sentia triste, e isso era comum na infância e na adolescência, mesmo porque a vida é assim, eu fugia. Ligava uma música bem alta e fazia uma apresentação inteira de jazz (sim, eu sou do tempo em que se dançava jazz) para minha avó. Comia uma barra inteira de chocolates enquanto assistia Bozo na televisão e decorava o telefone de tanto ligar para ganhar uma boneca não sei o quê. Eu me vestia de mãe, de fada, de professora de escola, de secretária, tudo, menos criança. Fui fugindo da tristeza e, por incrível que pareça, não percebia que a minha alegria ia junto, porque uma não vive sem a outra. Não percebia que para ser feliz, também era preciso ser triste. Também era preciso chorar atrás do hall e deixar que as lágrimas escorressem até acabarem e se tornarem nada.


Eu não entenderia o nada até depois dos meus 30 anos. E só depois dos 30 é que percebi que não se pode fugir da tristeza. E a velha lição volta, dizendo que as pessoas são o que são, farão o que fazem e você não vai mudar nada. E em meio a um turbilhão de emoções negativas e frustantes, resolvi finalmente encarar a tristeza. Sentamos, conversamos, batemos um longo papo sobre todas as vezes em que ela se aproximou de mim e, pasmem, sabe o que eu descobri? Que a tristeza, na verdade, só queria me proteger. Queria me deixar triste para que eu pudesse olhar e pensar mais em mim mesma. Queria que a minha dor não virasse uma doença, um problema de estômago, algumas pedras na vesícula. Poxa, tristeza, porque você não me disse isso tudo antes? Seria tão mais fácil se eu tivesse descoberto isso aos cinco anos, quando todo mundo dizia (inclusive o Bozo) que eu só precisava ser feliz.


E o que concluo da minha experiência com a tristeza é que ela é minha amiga. Que não gosta de passar muito tempo, porque eu me encho logo dela e ela acaba indo embora, mas, daqui para frente, vou abrir mais a porta para ela e parar com essa coisa de me esconder debaixo da cama, com as luzes apagadas, enquanto ela toca a campainha. E, tenho certeza que sua irmã gêmea, a alegria, também fará mais parte dos meus dias, mesmo que eu continue sonhando e me decepcionando com as pessoas. Mesmo que ocorram terrremotos, maremotos, perdas inevitáveis e necessárias. Não é errado estar triste. Errado é fugir e não viver tudo o que há para se viver. A partir de hoje eu quero tudo, todas as emoções. E não preciso de nenhum fundo do poço para isso. Afinal de contas, a tristeza só nos joga lá porque quer que a vejamos. De frente.


Se gostou, leia outros textos no site.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Livros proibidos

Este post visa a uma reflexão sobre conhecimento. À você que não gosta de ler, não gosta de estudar, contenta-se com um único ponto de vista, cuidado! Quanto menos se sabe menor é a ameaça (aos donos do poder), pois é mais fácil manipular ignorantes!

Uma reportagem da ENTRELIVROS pubicada em junho de 2006

Da biblioteca para a fogueira

Razões políticas, religiosas e morais têm levado os livros à destruição desde sua origem, na Mesopotâmia, até os dias atuais, como no saque à Biblioteca de Bagdá
por José Castello

Livros são potencialmente perigosos e, por isso, devem ser destruídos. A repulsiva idéia, que o escritor italiano Umberto Eco desenvolveu, de forma impecável, em seu popular romance O nome da rosa, de 1981, é na verdade muito antiga. Surgiu com os próprios livros, que aparecem pela primeira vez, feitos em argila, na Suméria, Mesopotâmia, onde é hoje o sul do Iraque. Guerras sucessivas os destruíram - perto de 100 mil deles, estimam os historiadores. Ainda assim, expedições arqueológicas desenterraram tabletas de argila que datam dessa época. Desde esses tempos remotos, o livro – em suas primeiras formas, tabletas, depois papiros, pergaminhos – está, sempre, sob ameaça.

A saga dessas agressões é relatada em História universal da destruição dos livros, do escritor venezuelano Fernando Báez. “Os que queimam livros acabam queimando homens”, escreveu o poeta Heinrich Heine. A história prova que sim. Báez participou da comissão da Unesco que, em março de 2003, visitou o Iraque depois da invasão americana, para investigar a devastação da Biblioteca Nacional de Bagdá. Ela sofreu dois ataques com bombas e mísseis, seguidos de dois violentos saques. Todo o acervo desapareceu. Tabletas de argila dos sumérios, de 5.300 anos, foram roubadas das vitrines.


“Mas a destruição da Biblioteca Nacional não teve a repercussão mundial da pilhagem do Museu Arqueológico de Bagdá”, Báez lamenta. Em um café da capital, a poucas quadras da biblioteca, ele ouviu o desabafo de um professor iraquiano. “Nossa memória já não existe.” A destruição de livros vem de muito longe. Em 1975, arqueólogos escavaram, a 55 km a sudoeste de Alepo, na Síria, os restos de um antigo palácio. O que encontraram? Uma biblioteca enterrada, com um acervo de 15 mil tabletas. A destruição foi conseqüência de um ataque militar inimigo, a respeito do qual os historiadores, ainda hoje, se encontram divididos; uns o atribuem ao rei acadiano Naramsin, outros ao rei Sargão. Três mil anos antes de Cristo, livros já eram dizimados pela guerra.


A devastação continuou, por volta de 2000 a.C., em uma região governada pelo rei Hamurabi, que é, hoje, o sul de Bagdá. Em 689 a.C., as tropas de Senaquerib arrasaram a Babiblônia. Seu neto, o soberano assírio Assurbanipal, o primeiro grande colecionador de livros do mundo antigo, fundou, em Ninive, outra esplêndida biblioteca, arrasada ela também décadas depois. De seus restos, no século XIX, arqueólogos desencavaram mais de 20 mil tabletas, hoje guardadas no Museu Britânico. No início do século XX, arqueólogos desenterraram na antiga Hattusa, a capital dos hititas, mais de 10 mil tabletas escritas, em pelo menos oito línguas diferentes. Também a biblioteca do Ramesseum, o templo que Ramsés II construiu em Tebas para lhe servir de túmulo, desapareceu com seus rolos de papiros esotéricos.


Depois de Ramsés II, o faraó monoteísta Akhnatón mandou queimar milhares de papiros, porque eles falavam de espectros e demiurgos. A destruição de livros continuou na Grécia Antiga. Estima-se que 75% de toda a literatura, filosofia e ciência antiga se perderam. Das 120 obras incluídas no catálogo de Sófocles, hoje só temos a versão integral de sete, e um monte de fragmentos. “O horror é ainda maior”, lembra Báez. “Todos os pré-socráticos e todos os sofistas estão em fragmentos.” É a história em pedaços. Um dos momentos mais brutais foi o da destruição da Biblioteca de Alexandria, com um acervo que se aproximava do milhão de livros. Durante a metade de um ano, papiros contendo textos de Hesíodo, Platão, Górgias e Safo, entre tantos outros autores, foram usados para acender o fogo dos banhos públicos da cidade.


Centenas de obras da biblioteca de Aristóteles desapareceram quando da morte repentina de Alexandre Magno, de quem ele foi tutor. O fato mais grave é a perda do segundo livro de sua Poética, dedicado ao estudo da comédia. Em O nome da rosa, Umberto Eco propõe a versão de que ele foi destruído progressivamente pela Igreja Católica, para conter a influência do humor. Báez suspeita que a Poética tenha sido, na verdade, destruída pelo desleixo. Um dos momentos maiores da história de Israel é a destruição das Tábuas da Lei. O Êxodo diz que foi o próprio Moisés quem, em um acesso de cólera, as destruiu. A descoberta, em 1947, por jovens beduínos, dos célebres Manuscritos do Mar Morto, revelou a primeira coleção conhecida de livros do Antigo Testamento.


Até hoje eles provocam a polêmica, o que leva Báez a concluir que “os teólogos não parecem preparados para admitir a existência de Cristo para além da fé”. Um Cristo nos livros. A perseguição religiosa é universal. Na China, houve a caça aos textos budistas. Em 1900, em grutas em meio ao deserto de Gobi, foram encontrados milhares de textos sagrados do budismo, muitos em bom estado, mas outros em fragmentos, que lá estiveram adormecidos ao longo de 1500 anos. São Paulo lutou contra o que considerava “livros mágicos”. Em uma visita a Éfeso, levou os magos da cidade a queimarem voluntariamente seus livros, para que não caíssem nas mãos dos cristãos. “O desaparecimento dos escritos dos gnósticos, causado, em grande parte, pela feroz perseguição da Igreja Católica, merece um livro só para si”, Báez comenta.


Vínculo mais direto com a cultura grega clássica, o Império Bizantino preservou os escritos de Platão, Aristóteles, Heródoto e Arquimedes. Lá, nos século II e III, surgiu um novo formato de livro, o códice, mais resistente, feito de pele de cabra, ou de ovelha. Ainda assim, em 1204, quando a Quarta Cruzada chegou a Constantinopla, milhares de manuscritos foram destroçados. O feroz ataque das tropas turcas em 1453 também levou à destruição de milhares de livros. “Houve um momento em que todo o continente europeu ficou literalmente sem bibliotecas”, Báez recorda. Nos séculos V e VI, copiar e ler eram atividades pouco usuais, quase secretas. Se os clássicos gregos sobreviveram em Bizâncio, os clássicos latinos e celtas foram salvos, em grande parte, pelos monges da Irlanda.


Foi Carlos Magno, o rei dos francos, quem, no século VIII, estimulou os bispos a fundar escolas e bibliotecas. Nada disso conteve a destruição. Abelardo – que foi castrado por seu amor proibido por Heloisa – teve a obra queimada pelo papa Inocêncio III. Dante viu o seu Sobre a monarquia virar um monte de cinzas na Lombardia, em 1318. Savonarola queimou também os livros de Dante, mas, um ano depois, a Igreja lançou no fogo todos os seus escritos, sermões, ensaios e panfletos. Um dos momentos mais célebres da história da destruição dos livros envolve a Bíblia de Gutenberg, concluída em 1455.


Dos 180 exemplares impressos, só restam 48 cópias. O descaso a destruiu, mas o próprio Gutenberg, segundo algumas fontes, arruinou alguns exemplares, na esperança de lhes aprimorar a beleza. O horror se disseminou com a perseguição promovida pelo Santo Ofício. Com a excomunhão de Martim Lutero, em 1520, a difusão de seus escritos foi proibida pela Igreja. Em 1542, o papa Paulo III constituiu a Congregação da Inquisição. Seu sucessor, Paulo IV, criou o temido Index, lista de livros proibidos. Na Espanha, a ascensão de Felipe II fortaleceu a censura católica. Também na França, Carlos IX passou a destruir, pelo fogo, livros perigosos. A perseguição a astrólogos, alquimistas e poetas atingiu o profeta Nostradamus. Seu livro mais importante, as Centúrias, de 1555, “tem sido sistematicamente destruído desde seu aparecimento”, lembra Báez. Da primeira edição, só restam hoje dois exemplares.


A guerra sempre foi inimiga dos livros. No século XV, uma guerra civil no Japão acabou com todas as bibliotecas de Kioto. Em 1527, o exército de Carlo V, ao conquistar Roma, destruiu muitas bibliotecas. Na Guerra de Secessão dos Estados Unidos, muitos livros desapareceram. Quando tomaram o Canadá em 1813, os soldados americanos queimaram a Biblioteca Legislativa. Como vingança, os ingleses queimaram a Biblioteca do Congresso Americano. A destruição de livros é, em grande parte, fruto da hostilidade contra o pensamento. “A França foi o berço da liberdade européia porque também foi o berço da censura”, lembra Báez. As Cartas filosóficas, de Voltaire, provocaram a ira da Igreja; Voltaire foi preso e seu livro queimado.


Do mesmo modo, a publicação da Enciclopédia, em 1759, provocou tanto escândalo que o próprio editor, Le Breton, temendo as retaliações, destruiu vários exemplares. Também os Pensamentos filosóficos, de Diderot, foram incinerados por ordem do Parlamento. Na Revolução Francesa, a lei do terror estimulou o ataque a bibliotecas. Só em Paris, mais de 8 mil livros foram queimados. Também durante a Comuna de Paris, em 1871, bibliotecas foram destruídas. A emancipação da América Latina também foi marcada por saques e destruições. Na Venezuela, o Santo Ofício mandou queimar uma coleção que Simon Bolívar conseguiu reunir para o acervo de uma biblioteca pública. Durante a Guerra Civil Espanhola, a Biblioteca Nacional, em Madri, foi bombardeada. “Somente graças à abnegação dos bibliotecários, centenas de livros e manuscritos se salvaram”, observa Báez.


Com a chegada de Franco ao poder, iniciou-se um movimento de “depuração” das bibliotecas, perseguindo “idéias que possam resultar nocivas à sociedade”, de acordo com um decreto oficial. A ascensão dos nazistas gerou um verdadeiro “bibliocausto”, Báez define. Ao ser designado chanceler em 1933, Hitler, que era um pintor frustrado, iniciou uma feroz perseguição à cultura. Leitor voraz, ele, ao morrer, num exemplar dos ensaios de Ernst Schertel, deixou uma frase sublinhada: “Quem não carrega dentro de si as sementes do demoníaco nunca fará nascer um novo mundo”. A expansão soviética destruiu muitas bibliotecas. Em 1944, dezenas delas foram arrasadas em Budapeste, na Hungria. No ano seguinte, na Romênia, trezentos mil livros desapareceram.


Também quando o regime do Khmer Vermelho triunfou no Camboja, em 1975, um estranho letreiro foi dependurado na porta da Biblioteca Nacional: “Não há livros. O governo do povo triunfou”. Mas a destruição não tem ideologia. Quando subiu ao poder, no Chile, o ditador Augusto Pinochet atacou a sede da Editora Quimantú, destroçando milhares de livros. A Revolução Cultural chinesa, Báez acrescenta, foi uma máquina de destruir livros. Na Universidade de Pequim, todos os livros considerados ofensivos à consciência do povo eram queimados. Mais tarde, o escritor Pa Kin assim descreveu o clima de histeria que dominou o país e pelo qual ele mesmo se deixou arrastar: “Destruí livros que armazenei durante anos. (...) Eu negava completamente a mim mesmo”.


Em todo o planeta, a destruição se alastrou. No dia 30 de agosto de 1980, a mando da ditadura a Argentina, vários caminhões descarregaram 1,5 milhão de volumes em um terreno abandonado. Eles foram borrifados com gasolina e queimados. Mais recentemente, os talibãs destruíram na capital Cabul todos os livros contrários à sua fé. No conflito entre judeus e palestinos, milhares de livros, de ambos os lados, já foram perdidos. Em Cuba, em dezembro de 1999, em um estacionamento de uma colina de Havana, centenas de livros doados pelo governo espanhol foram destruídos. O motivo: entre eles, havia 8 mil exemplares da Declaração dos Direitos Humanos.


Em março de 1997, os bibliotecários da Escola Hertford mandaram destruir 30 mil livros sobre temas homossexuais, que haviam sido doados. Durante oito horas de trabalho, 35 voluntários enterraram os livros. Mas não é só o conservadorismo que promove queima de livros, o pensamento progressista também. Em 1998, na Virginia Ocidental, um grupo chamado Coletivo de Mulheres queimou, em uma imensa fogueira, livros considerados degradantes à condição feminina, entre eles obras de Schopenhauer. No ano de 1994, as tropas russas entraram na Chechênia e arrasaram Grosny. O bombardeio sobre a cidade destruiu uma coleção de dois milhões e setecentos mil livros. Salvaram-se apenas 20 mil livros, guardados nos subterrâneos de um estádio de futebol. Calcula-se que em toda a Chechênia mais de mil bibliotecas e mais de 11 milhões de livros foram dizimados. As ameaças mais atrozes vêm, hoje, do terrorismo.


Recentemente, grupos diversos já manifestaram a intenção de destruir a Biblioteca do Congresso americano e a Biblioteca do Vaticano. O ataque ao World Trade Center, em Nova York, aniquilou arquivos e bibliotecas de economia. Mas, com a criação dos livros-bomba, os livros se tornaram, eles também, efetivamente perigosos. Em dezembro de 2003, Romano Prodi, presidente da Comissão Européia, quase morreu quando abriu um livro-bomba recheado de pólvora. Ainda assim, consola-se Báez, a cada livro destruído, mais aumenta o nosso horror. “Cada livro queimado ilumina o mundo”, sintetizou Ralph W. Emerson. Essa constatação não recupera as bibliotecas perdidas, mas acalenta a esperança de um futuro melhor.


Escritores perseguidos no Brasil e no exterior

Todos conhecem o caso do escritor anglo-indiano Salman Rushdie, autor do famoso – e perseguido – Os versos satânicos. Em 1989, o líder iraniano, aiatolá Khomeini, condenou Rushdie com uma fatwa. Ofereceu-se um milhão de dólares a quem o matasse. Seus livros passaram a ser queimados em diversos pontos do planeta. A literatura sempre foi alvo de perseguição. Em 1912, o impressor irlandês John Falconer queimou 999 dos mil exemplares da primeira edição de Dublinenses, de James Joyce, porque a linguagem forte dos relatos não o agradou. O mais famoso romance de D. H. Lawrence, O amante de lady Chatterley, teve a primeira edição inteiramente destruída. A acusação de pornografia levou o Departamento de Estado americano a queimar livros do psicanalista Wilhelm Reich.


A primeira edição de A cidade e os cachorros, do escritor peruano Mario Vargas Llosa, de 1962, não só foi confiscada pelos militares, mas totalmente queimada. Não é preciso longe. Báez recorda também que Getúlio Vargas mandou queimar 1700 exemplares de Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado. Muitas vezes, no entanto, são os próprios escritores que perseguem seus livros. É célebre a história do tcheco Franz Kafka que, antes de morrer, pediu ao amigo, Max Brod, que queimasse seus manuscritos. Brod o desobedeceu. Ao morrer, também o filósofo romeno E. M. Cioran deixou 34 cadernos de mil páginas com uma indicação precisa: “Destruir”. Sarcástico, Borges lembrou, um dia, que, quando um escritor quer dar sumiço em seus livros, faz o serviço pessoalmente.


Quando se refugiou em Charleville, o poeta Arthur Rimbaud, por exemplo, queimou ele mesmo muitos de seus manuscritos. Até Platão queimou livros, Báez nos lembra. Na juventude, quando conheceu Sócrates, Platão destruiu todos os seus poemas. Muito mais tarde, queimou os tratados do filósofo Demócrito para esconder semelhanças entre as idéias do inimigo e as suas. “É possível que Platão queimasse obras? Pois bem, ele queimou”, Báez afirma, perplexo com sua própria afirmação. Ele recorda ainda que, em 1910, os futuristas escreveram um manifesto em que pregavam o fim de todas as bibliotecas. Um escritor genial como Vladimir Nabokov queimou um exemplar do Quixote em pleno Memorial Hall, diante de seiscentos alunos, com o argumento de que o livro não prestava.


E Martin Heidegger entregou livros de seu maior inimigo, o filósofo Edmund Husserl, para que estudantes de filosofia os levassem ao fogo. E os amigos? Quando Gustave Flaubert leu para amigos, pela primeira vez, seu estranho As tentações de Santo Antão, eles sugeriram que ele o queimasse imediatamente e o esquecesse. Por sorte, dessa vez foi Flaubert quem não os atendeu. Em Crônica pessoal, Joseph Conrad conta que seu próprio pai queimou alguns de seus manuscritos. Isaac Newton dedicou sua vida a censurar e perseguir os trabalhos do astrônomo John Flamsteed. Newton plagiou as idéias de Flamsteed sobre as estrelas – e depois, temendo ser descoberto, conseguiu o confisco dos trezentos exemplares de livro que continha esse plágio e os queimou.


A busca da pureza e a luta contra a imoralidade têm sido fortes argumentos para a destruição de livros. Em 1749, Fanny Hill, romance de John Cleland, que relata as aventuras de uma prostituta, foi proibido antes de ser editado. Já no século XX, a corte de Westminster, na Inglaterra, decretou a eliminação de todos os exemplares do Satyricon, de Petrônio, obra-prima da literatura latina, porque o livro trata da liberdade sexual. No século XIX, a grande obra de Charles Darwin, A origem das espécies, de 1859, teve muitos de seus exemplares queimados. Até hoje, nas regiões mais conservadoras dos Estados Unidos, o livro é perseguido como perigoso.


Livros censurados

DA MONARQUIA Dante Alighieri
CENTÚRIAS Michel Nostradamus
CARTAS FILOSÓFICAS Voltaire
PENSAMENTOS FILOSÓFICOS Denis Diderot
OS VERSOS SATÂNICOS Salman Rushdie
DUBLINENSES James Joyce
O AMANTE DE LADY CHATTERLEY D. H. Lawrence
A CIDADE E OS CACHORROS Mario Vargas Llosa
DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS Jorge Amado
SATYRICON Petrônio
A ORIGEM DAS ESPÉCIES Charles Darwin


Creio que posso acrescentar aqui outros livros censurados recentemente:
 
GOMORRA Roberto Saviani
INFIEL Ayaan Hirsi Ali
Foto 
 
 

terça-feira, 20 de abril de 2010

Flores tropicais

Farei muitas coisas "quando eu crescer"...
Procuro com carinho opções de novos empreendimentos. Ao aposentar-me, creio que me sentiria feliz como floricultora - folhagens e flores tropicais para arranjos e decoração. Coloridas, alegres e encantadoras!


Hoje sei que bem perto de mim existe um admirador destas maravilhas - em seu quintal já fotografei algumas flores sem saber, até então, os seus nomes.


Sempre-vivas, pluméria e hipisco amarelo

E o que mais, ainda?

Falar de tortura num site de literatura me pareceu, a princípio, fora de propósito.

Mas, as palavras escolhidas pelo autor (com a cooperação do tradutor*) me fascinam: e o que mais, ainda?


Na obra O Rei de Ferro de Maurice Druon o grão-mestre da Ordem dos Cavaleiros do Templo, Jacques de Molay, é condenado à morte na fogueira depois de "confessar" traição ao papa e ao rei.

"Mas de todas as torturas sofridas, a mais terrível, certamente, fora a do 'esticamento'. Com um peso de oitenta quilos acorrentado ao pé direito, tinham-no alçado, por meio de uma corda deslizando sobre roldana, até o teto. E sempre a voz sinistra de Guilherme de Nogaret: 'Mas, ora, confessai, meu senhor...' E posto que ele se obstinava a negar, tinham-no esticado, cada vez mais fortemente, cada vez mais depressa, em direção ao solo e às abóbadas. Sentindo deslocarem-se seus membros, serem arrancadas suas articulações, explodir seu ventre, seu peito, ele acabara por gritar que confessaria, sim, tudo, qualquer crime, todos os crimes do mundo. Sim, os Templários entregavam-se, entre eles, à sodomia; sim, para entrar na Ordem, eles deviam cuspir no crucifixo; sim, eles adoravam um ídolo de cabeça de gato; sim, eles se dedicavam à magia, à bruxaria, ao culto do Diabo; sim, eles desviavam os fundos que lhe eram confiados; sim, eles tinham feito um complô contra o papa e o rei... E o que mais, ainda?"

Felipe, o Belo, reinava como mestre absoluto. Ele vencera o orgulho guerreiro dos grandes barões, vencera os flamengos revoltados, os ingleses na Aquitânia e até mesmo o Papado, instalado por ele à força em Avignon. Os Parlamentos encontravam-se às suas ordens, e os concílios, por sua conta.
Três filhos maiores asseguravam sua descendência. Sua filha estava casada com Eduardo II da Inglaterra. Ele contava, entre seus vassalos, seis outros reis, e a rede de suas alianças estendia-se até a Rússia.
[...]
Um único poder ousara afrontá-lo: a soberana Ordem dos Cavaleiros do Templo. Essa colossal organização, a um só tempo militar, religiosa e financeiras, devida às Cruzadas, das quais ela saíra, sua glória e riqueza.
A independência dos Templários inquietava Felipe, o Belo, ao mesmo tempo em que seus bens excitavam sua cobiça. Contra eles, o soberano montou o mais longo processo do qual a História tem lembrança, posto que tal processo pesou contra mais de quinze mil acusados. Durante o mesmo - isto é, por um período de sete anos -, todas as infâmias foram perpetradas.
É no término desse sétimo ano que começa o nosso relato - o primeiro dos sete livros da série Os Reis Malditos.
 

O Rei de Ferro (Volume 1)
A Rainha Estrangulada (Volume 2)
Os Venenos da Coroa (Volume 3)
A Lei dos Varões (Volume 4)
A Loba da França (Volume 5)
A Flor-de-Lis e o Leão (Volume 6)
Quando um Rei Perde a França (Volume 7)
      



* o meu respeito aos tradutores acentuou-se após comentários de minha filha que estudou alguns anos no Curso de Letras na UFOP. Obras distintas do mesmo autor podem encantar mais ou menos os leitores quando o tradutor consegue captar o estilo do autor e repassá-lo com a escolha correta das palavras e construções de frases.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Paciência é uma forma de amor!


Retrato de velho
Carlos Drumond de Andrade - escrito em 1957

Aos 85 anos, goza de saúde brônzea e quer trabalhar, mas trabalho que dê dinheiro, não essa milonga de mover os braços por desfastio. Deseja manter-se independente, estão ouvindo? O diabo é que não arranja serviço, e tem de viver em casa dos filhos – três, em três lugares distintos. No sítio de Mangarativa, o genro entra em pânico à sua chegada: o velho está sempre bulindo nas plantas, dando ordens, contrariando instruções do dono.
A filha de Niterói, ciente das complicações, adverte-o:
- Por que o senhor não vai plantar em terreno ainda não cultivado? O sítio lá tem cinco alqueires, pois então escolha o mais distante e faça a sua horta nele.
- Planto onde eu quiser. Não faltava mais nada! Um homem como eu, já idoso...
E cisma de ganhar dinheiro na cidade, podando árvore de rua.
- Arranjo uma tesoura grande e saio por aí caçando serviço. Estou novo ainda, sabe? E a Prefeitura está carecendo de gente disposta.
Não arranja nada, e a Prefeitura não lhe sente a falta. Vai para Vitória, em casa do terceiro filho, e pensa em adquirir um rebolo para amolar facas, com que atenda às necessidades do bairro. Ponderam-lhe:
- Eu, se fosse o senhor, fazia um orquidário. É tão lindo, distrai tanto. E depois, há espécies fabulosas, que rendem um colosso.
- É? Leva vinte anos para dar uma parasita que preste, não tenho lucro nenhum. Ora-e-essa!
Tem horror a criança. Solenemente, faz queixa do bisneto, que lhe sumiu com a palha de cigarro, para vingar-se de seus ralhos intempestivos. Menino é bicho ruim, comenta. Ao chegar a avô, era terno e até meloso, mas a idade o torna coriáceo.
No trocar de roupa, atira ao chão as peças usadas. Alguém as recolhe à cesta, para lavar. Ele suspeita que pretendem subtraí-las, vai à cesta, vasculha, retira o que é seu, lava-o, passa-o. Mas, naturalmente.
- Da próxima vez que ele vier, diz a nora, terei de fechar o registro, para evitar que desperdice água.
Espanta-se com os direitos concedidos às empregadas. Onde se viu? Isso aqui é paraíso das criadas. A patroa acorda cedo, para despertar a cozinheira. Ele se levanta mais cedo ainda, e vai acordar a dona da casa:
- Acorda, sua mandriona, o dia já clareou!
As empregadas reagem contra a tirania, despedem-se. E sem empregada, sua presença ainda é mais terrível.
As netas adolescentes recebem amigos. Um deles, o pintor, foi acometido de mal súbito e teve de deitar-se na cama de uma das garotas. Indignação: Que pouca vergonha é essa? Esse bandalho aí, conspurcando o leito de uma virgem? Ou quem sabe se nem é mais virgem?
- Vovô, o senhor é um monstro!
E, é um custo impedir que ele escaramuce o doente para fora de casa.
- A senhora deixa suas filhas irem ao baile sozinhas com rapazes? Diga, a senhora deixa?
- Não vão sozinhas, vão com os rapazes.
- Pior ainda! Muito pior! A obrigação do pais é acompanhar as filhas a tudo quanto é festa.
- Papai, a gente nem pode entrar lá com as meninas. É coisa de brotos.
- É, não é? Pois me dá depressa o chapéu para eu ir dizer poucas e boas!
Não se sabe o que fazer dele. Que fim se pode dar a velhos implicantes? O jeito é guardá-lo por três meses e deixá-lo ir para outra casa, brigada. Mais três meses, e nova mudança nas mesmas condições. O velho é duro:
- Vocês me deixam esbodegado, vocês são insuportáveis! – queixa-se ao sair. Mas volta.
- Descobri que paciência é uma forma de amor – diz-me uma das filhas, sorrindo.

domingo, 11 de abril de 2010

Férias no final de semana!!



Pedalar é tirar férias num final de semana comum!!!
É adrenalina sob ar puro!
É fotografia!
Cansaço e alegria!

sábado, 10 de abril de 2010

Infância


- A água é gelada? É fundo? Existem monstros no mar?
- As estrelas-do-mar são estrelas cadentes que se apaixonaram pelo mar.
- As estrelas não tinham medo de se afogar?
- Não. Todas elas aprenderam a nadar.
- Achei um cavalo-marinho.
- Um cavalo-marinho relincha? Um cavalo-marinho galopa?
- O peixe-gato mia? O peixe-cachorro late? E o peixe-sapo coaxa?

Marie - Louise Gay Brinque-Book

terça-feira, 6 de abril de 2010

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Bicicleta

Existem motivos e motivos para se adquirir uma bicicleta.
Já disse algumas vezes que se meu dilema fosse casar ou comprar uma bicicleta não teria nada a resolver.
No conto de Gabriel García Márquez Los fantasmas andan en bicicleta, a bicicleta foi a solução para controlar a paternidade. :)


[...] Trabajaba de sol a sol, sin reposo, y a las siete de la noche se recogía en su covacha. Al año de haberse mudado con una mujer tan tímida y desabrida como él – cortada a su medida – habían tenido el primer hijo. A los seis años tenían seis. Y fui entonces cuando el hombre empezó a penar en vida.
Se cuenta que cuando le nació el sexto hijo, el hombrecillo comentó: “La única solución de esto es una bicicleta”. Y al día siguiente armó la suya en el taller y se puso a dar misteriosas vueltas por la ciudad, en las horas de la madrugada, con la austeridad de un monje que estuviera cavando su propia sepultura. Fue una labor indolente, despiadada, que se prolongó por veinte años hasta esa lúgubre y helada madrugada en que el hombrecillo tocó a las puertas de su casa y la mujer lo encontró equilibradamente muerto en la bicicleta. Para entonces el menor de los hijos había cumplido veinte años. […]

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Reflexiones sobre la luna de miel





Gabriel García Márquez
Textos Costeños II
Obra periodística (1951-1952)





Lua de mel! A viagem dos recém casados e o início de namoro. Tudo são flores e as chamadas tontices são permitidas, esperadas e aplaudidas.
No conto de Gabriel García Márquez, a fase da lua de mel é medida pelo estômago. Quando a fome e o sono deixam de coincidir é sinal que o casal passou a ser um homem e uma mulher, simplesmente! E quando um homem começa a vigiar o estômago de sua amiga, fazendo coincidir os gostos e os horários, é sinal que está enamorado.
"¿Cuánto dura la luna de miel?", se le preguntó en alguna ocasión a un inteligente periodista colombiano. Su respuesta, ingeniosamente evasiva, abrió el compás para la reflexión. "Depende de la cantidad de miel que tenga la luna". Tanto la pregunta como la respuesta ponen en evidencia la necesidad de inventar un sistema métrico útil para determinar cuándo un hombre y una mujer dejan de ser un par de recién casados para convertirse en marido y mujer químicamente puros. He presenciado, hace dos días, un incidente que puede servir para rastrear la clave e este misterio. Desde su primera mañana nupcial, el caballero y la dama demostraron, sin el menor esfuerzo, una extraordinaria capacidad para cometer tonterías. Todas las tonterías consagradas por el clasicismo romántico, además de muchas otras que ellos se encargaron de inventar. Una de esas tonterías, la que tiene por cierto el carácter de toda una institución y que los recién casados repitieron con la maestría con que lo han hecho todos los recién casados del mundo, desde cuando se inventaron el tenedor y la cuchara, es esa de dar la impresión de que todas las mañanas los desayunos se sirven al revés, el de ella, en el puesto de él; el de él, en el puesto de ella. La técnica del recién casado consiste no en poner las cosas en orden sino en tomar el desayuno el uno con los cubiertos del otro. Esto puede no ser muy higiénico, pero es, de todos modos, un síntoma de que los desposados se encuentran en el período más grave de la luna de miel. Ese espectáculo de los desayunos cambiados fue ofrecido, invariablemente, durante los primeros siete días. Pero el octavo, ante la admiración de todos, la dama bajó sola a desayunar. La indiscreta señora que todo lo averigua en los hoteles le preguntó: - ¿Tuvieron ya la primera diferencia? - No – respondió la dama recién casada –. Simplemente, él tenía más sueño que yo. Y yo más hambre que él. En esa forma, sin que hubieran mediado otras circunstancias, se consideró que había terminado para ellos el almibarado período de la luna de miel. Hoy, a la hora del desayuno, alguien ha intentado una definición: “La luna de miel termina cuando el hambre de uno de los recién casados se vuelve más apremiante que la del otro”. La señora de las indiscreciones ha protestado: “Eso es una vulgaridad”. Pero aunque esa protesta interese más a los admiradores de Luis Carlos López que a los científicos del amor, debo confesar que la definición me parece bastante aproximada a la verdad. El amor es muchas cosas a la vez. Pero por encima de todo es un trastorno digestivo. Un hombre frecuenta la amistad de una mujer u la considera como una buena y corriente amiga, mientras no lo coloque en circunstancias de vigilar su estómago. Cuando eso acontece puede estar seguro de que la amistad ha empezado a ser enamoramiento. 

Shakespeare no lo ignoraba. Cuando se quiso saber si Hamlet amaba a Ofelia, se le preguntó: “¿Te comerías por ella un cocodrilo?”. La pregunta, más que encaminada a medir la capacidad de sacrificio del príncipe, pretendía consultar su digestión. Y el amor de Hamlet era tan grande que ya su estómago lo había perdido todo. Hasta la facultad de establecer diferencias entre un cocodrilo y una perdiz.
- Ese es un sofisma estúpido – me ha dicho la señora de las indiscreciones.
Yo le he respondido:
- Sofisma y todo, merece ser verdad. Dos enamorados encuentran el clima perfecto del amor, cuando sus digestiones funcionan como una sola.
- Bueno. Pero ¿todo eso adónde conduce?
- A la prueba de que la luna de miel termina cuando las respectivas digestiones empiezan a funcionar por su propia cuenta.
Entonces la señora, tan indiscreta como de costumbre, me ha dicho riendo:
- Usted es un aprendiz de filósofo oriental. Así de absurdo y así de aburrido.