sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Legião Urbana - Angra dos Reis




Angra dos Reis
Legião Urbana
Composição: Renato Russo / Renato Rocha / Marcelo Bonfá

Deixa, se fosse sempre assim
Quente, deita aqui perto de mim
Tem dias, que tudo está em paz
E agora os dias são iguais..
Se fosse só sentir saudade
Mas tem sempre algo mais
Seja como for
É uma dor que dói no peito
Pode rir agora
Que estou sozinho
Mas não venha me roubar...
Vamos brincar perto da usina
Deixa pra lá
A Angra é dos Reis
Por que se explicar
Se não existe perigo...
Senti teu coração perfeito
Batendo à toa e isso dói
Seja como for
É uma dor que dói no peito
Pode rir agora
Que estou sozinho
Mas não venha me roubar
Uh! Uh! Uh! Uh!...
Vai ver que não é nada disso
Vai ver que já não sei quem sou
Vai ver que nunca fui o mesmo
A culpa é toda sua e nunca foi...
Mesmo se as estrelas
Começassem a cair
A luz queimasse tudo ao redor
E fosse o fim chegando cedo
Você visse o nosso corpo
Em chamas!
Deixa, pra lá...
Quando as estrelas
Começarem a cair
Me diz, me diz
Pr'onde é
Que a gente vai fugir?

Circuito do Sol

Confira abaixo o calendário completo das provas. Para mais informações e inscrições acesse o site:


Circuito Sol – Rio de Janeiro - 10 de janeiro de 2010
Circuito Sol – São Paulo - 17 de janeiro de 2010
Circuito Sol – Belo Horizonte - 24 de janeiro de 2010
Circuito Sol – Brasília - 31 de janeiro de 2010

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Renato Russo, Camões e Paulo

Camões inpira grandes obras, por séculos e seculos...
Creio que se os clássicos fossem lidos, outras maravilhas nos seriam apresentadas...
Rimas é o título da primeira compilação das poesias líricas de Luís de Camões, publicada em 1595, quinze anos após a morte do autor.
A Bíblia não deixa de ser um clássico - o livro mais lido do mundo.


Rimas, de Camões.
Sonetos
5
Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Primeira epístola de Paulo aos Coríntios, 13

1. Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver amor, serei como bronze que soa
ou como símbalo que retine.

2. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça
 todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha
 tamanha fé, a ponto de transportar
montes, se não tiver amor, nada serei.

3. E ainda que eu distribua todos os meus bens
entre os pobres e ainda que entregue o meu
próprio corpo para ser queimado,
se não tiver amor, nada disso me aproveitará.

4. O amor é paciente, é benigno; o amor não arde
em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece,

5. Não se conduz inconvenientemente, não procura os seus
 interesses, não se exaspera, não se ressente do mal;

6. Não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade;

7. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.

8. O amor jamais acaba; mas, havendo línguas, cessarão;
 havendo ciência, passará;

9. Porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos.

10. Quando, porém, vier o que é perfeito, então,
o que é em parte será aniquilado.

11. Quando eu era menino, falava como menino, sentia
como menino, pensava como menino; quando cheguei
 a ser homem, desisti das coisas próprias de menino.

12. Porque, agora, vemos como em espelho,
obscuramente;  então, veremos face a face.
Agora, conheço em parte; então, conhecerei
como também sou conhecido.

13. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor,
estes três; porém o maior destes é o amor.

 Monte Castelo, Legião Urbana
Composição: Renato Russo
(recortes do Apóstolo Paulo e de Camões)

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal,
Não sente inveja ou se envaidece.

O amor é o fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria.

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.

Tão contrário a si é o mesmo amor.
Estou acordado e todos dormem.
Todos dormem. Todos dormem.

Agora vejo em parte,
Mas então veremos face a face.

É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.

1a. Caminhada do Ano


Meu adorado Pedro - mais uma dica de boa leitura

Meu adorado Pedro é a história da paixão da arquiduquesa Carolina Josefa Leopoldina por dom Pedro I. Filha de Francisco I, imperador da Áustria, em 1817 Leopoldina atravessa o oceano Atlântico para honrar uma aliança de casamento. Junto com ela vieram os naturalistas, entre eles, Mikan, Spix e Martius, além de Thomas Ender, pintor de aquarelas. Esquecida pelos historiadores, que privilegiaram os poderes de sedução da marquesa de Santos; tida como feiarrona e o pior, desleixada, motivo que justificaria as aventuras amorosas de dom Pedro I, no romance de Vera Moll descobrimos em Leopoldina uma mulher culta e de inteligência privilegiada. Uma imperatriz amada pelo povo e extremamente generosa.


Sobre a autora:
Vera Moll é capixaba de Mimoso do Sul, mas reside no Rio desde 1965. Graduou-se em Filosofia em 1968 e lecionou durante os cinco anos que se seguiram ao término do curso, até a chegada de seus cinco filhos. Em 1981, publicou seu primeiro livro, Teias de aranha (Editora Antares), um ensaio autobiográfico pelo qual recebeu elogios da crítica. Não parou mais de escrever e desde 1987 participa de oficinas literárias e de projetos culturais.
Outros livros da autora: Um homem delicado (Editora Uapê, 1996),
premiado em 1999 pela União Brasileira dos Escritores (UBE) e ganhador de menção honrosa na categoria romance do Prêmio Octavio de Faria; Mulher de bandido (Editora Uapê, 1998),
premiado em 2000 pela União Brasileira dos Escritores (UBE) e ganhador de menção honrosa na categoria romance do Prêmio Alejandro J. Cabassa. Participou de diversas antologias de contos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O personagem herói

Lembro de ter assistido ao filme Karatê Kit e saído à rua com a alma renovada: - Tudo posso!
Bastaria lustrar carros e lixar paredes em movimentos circulares que o bem venceria o mal! Otimismo e perserverança!
Na literatura, encontramos personagens inspiradores que têm o mesmo poder de renovar nossas esperanças ou nos dar o poder de heróis.
Pip, protogonista de Grandes Esperanças, é um deles.
O menino é ameaçado por Magwich, um condenado fugitivo: "- Me arrume uma lima. E mantimento. Traga as duas coisas para mim. Ou vou ter que arrancar seu coração e seu fígado."
Magwich fugira de uma presiganga (navio-presídio) e tinha uma bola de ferro no calcanhar e fome. Pip, além do pão com manteiga que deixou de comer naquela noite, levou para aquele que o ameaçara um pedaço de crosta do queijo, cerca de meia panela de carne moída, um pouco de conhaque, um osso de boi, quase em carne e um empadão de porco. *um verdadeiro banquete, convenhamos. Também uma lima.
"Desde aquela época, que agora já vai bem longe, eu costumava sempre pensar que são poucas as pessoas a saber da solidão que existe num menino sob terror. Não importa quão irracional seja, desde que seja terror. eu sentia um terror mortal do sujeito que queria meu coração e meu fígado; sentia um terror mortal do meu interlocutor com a perna acorrentada em ferro; sentia um terror mortal de mim mesmo, de quem fora extraída uma promessa hedionda; de minha todo-poderosa irmã, que sempre me repelia, não via esperança de salvação; tenho medo de pensar no que eu poderia ter feito, se requisitado, na solidão do meu terror."
E veio a culpa... gritos de sua consciência o acompanharam desde então: "Lá vai um menino com o empadão de porco de outra pessoa. Parem-no!", "Eia, ladrãozinho".
Pip enchera a garrafa de conhaque com a bilha de água de alcatrão. * reposição.
"Um pouco de conhaque, tio - ofereceu minha irmã.
Deus do Céu! A hora chegara, afinal! Ele iria descobrir que o conhaque estava fraco, diria que o conhaque estava fraco, e eu estaria perdido! Agarrei-me com força ao pé da mesa, com as duas mãos, e esperei minha sina.

[...]
Não consegui tirar os olhos dele. Sempre agarrado ao pé da mesa com as mãos e os pés, vi a infeliz criatura, lúdica, dedilhar a taça, erguê-la, sorrir, projetar a cabeça para trás, e, de uma vez, sorver o conhaque. Logo depois, as visitas foram tomadas de consternação indescritível, devida ao salto súbido do sr. Pumblechook, que, numa dança coquelúchica, espasmódica, aterradora, deu diversos rodopios e correu para a porta; pôde-se, então, vê0lo pela janela, em contrações e expectorações violentas, fazendo carecas mais horríveis, e, ao que parece, fora de si.
Segurei-me firme, e a sra. Joe e Joe correram até lá. Eu não sabia como eu o fizera, sabia apenas que, de algum modo, o havia assassinado.
[...]
É um empadão. Um empadão de porco, muito gostoso.
[...]
Minha irmã foi apanhá-la. Ouvi os passos prosseguirem até a dispensa. Vi o sr. Pumblechook agitar a faca. Vi o apetite novamente desperto nas narinas romanas de sr.Wopsle. Ouvi o sr. Hubble observar que 'um pedaço saboroso de um empadão de porco sobrepuja a tudo o que conseguirmos evocar, e não faz mal algum', e ouvi Joe dizer 'Coma um pedaço você também, Pip'. Não estou bem certo se o grito estrepitoso de terror que proferi ocorreu simplesmente em espírito, ou se atingiu a audição corpórea das visitas. Senti que já não poderia suportar mais, e que deveria fugir. Larguei o pé da mesa, e corri para salvar minha vida."

Pip estava com Joe e os soldados no momento da captura dos fugitivos (outro além de Magwich).
"Meu condenado não me olhara, exceto por aquela única vez."
E ele isentou seu salvador: "O homem não consegue viver sem comida; eu, ao menos, não consigo. Apanhei um mantimento na vila do outro lado, lá onde se vê a igreja quase em cima do brejo. Da casa do ferreiro. Foram uns pedaços de mantimento, um gole de bebida e um empadão."

Anos depois, os dois se reencontram - o condenado e o ameaçado.
Pip recebe uma fortuna, deixa sua irmã e Joe e vai vier em Londres, com todas as regalias de um burguês.
Pip descobre que seu benfeitor não é quem imaginava. Ele sonhava que fosse a senhorita Havisham, mas descobre que toda a sua ascensão vinha de Magwitch, o presidiário, que fizera fortuna na América e tinha uma dívida com o menino que um dia o salvara. Esse mesmo homem que gerara sua primeira dúvida moral, segundo a qual ele passara a julgar severamente os próprios atos, era o mesmo que o promovera na vida.

E aí? Ficaram curiosos para conhecerem a obra de Charles Dickens? Boa leitura!

Personagem do Ano - 2010

O herói anarquista
Peter Moon

O hacker australiano Julian Assange, de 39 anos, era um virtual desconhecido até o último dia 5 de abril. Foi quando o site WikiLeaks publicou na internet um vídeo de 39 minutos, batizado Assassinato colateral. Gravado em 2007 num helicóptero americano em missão sobre Bagdá, o vídeo mostra o assassinato de 18 pessoas, entre elas 12 civis inocentes. Até a divulgação do vídeo, o Exército americano sustentava que os mortos na ação eram insurgentes iraquianos. O WikiLeaks revelou a farsa – e seu criador, Julian Assange, se tornou uma celebridade instantânea. Nos meses seguintes, Assange vazou uma enxurrada crescente de documentos. Suas revelações respingaram em todo o mundo. Nunca ninguém colocou tantos líderes mundiais em situação constrangedora quanto Julian Assange.
Assange criou o WikiLeaks em 2006. Seu objetivo, em suas próprias palavras, era “o fim da opressão, pela exposição organizada de seus segredos”. “Chegamos à conclusão de que a criação de um movimento mundial de vazamento maciço (de informações) é a forma de intervenção política de melhor custo-benefício”, afirmou Assange no manifesto de criação do WikiLeaks.
Em julho, o WikiLeaks vazou um conjunto de 90 mil documentos do Pentágono sobre a guerra no Afeganistão, conhecido como Diário afegão. A revelação trazia provas de como o Exército americano violara direitos humanos e planejara a execução de líderes da rede Al-Qaeda. Mas também serviu para que representantes da própria Al-Qaeda e líderes talebans conhecessem o nome dos informantes dos americanos – e os executassem.
Naquele momento, a imagem de Assange começava a adquirir as feições que o tornariam o personagem mais controverso de 2010. De um lado, era visto como paladino virtual da justiça, com a coragem para divulgar segredos de Estado. De outro, como um anarquista irresponsável, incapaz de medir as consequências de seus atos. A secretária de Estado, Hillary Clinton, afirmou que, ao revelar segredos militares, Assange prejudicava as operações no Afeganistão e punha em risco a vida de diplomatas americanos e civis afegãos. Assange tornou o governo americano seu principal alvo.
Sem dar trégua a Washington, em 22 de outubro o WikiLeaks, numa associação com o jornal americano New York Times, com o inglês Guardian e com a revista alemã Der Spiegel, liberou 400 mil documentos do Exército americano produzidos entre 2004 e 2009. Eles detalham a tortura e execução de civis no Iraque por americanos. Em 28 de novembro, deu início ao vazamento de 250 mil despachos diplomáticos americanos. A enxurrada de documentos – publicados de modo bruto, sem nenhum tipo de edição ou checagem das informações – trazia vários fatos constrangedores. Embora não contivesse nenhuma revelação explosiva, ela bastou para levar o nome de Assange às manchetes do mundo todo. Pela primeira vez, o Brasil também foi sacudido pelas revelações do WikiLeaks, com a divulgação da visão dos diplomatas americanos sobre vários ministros do governo Lula, entre eles Dilma Rousseff.
Para seus admiradores, tantas revelações em tão pouco tempo garantiram a Assange a aura de herói. A página do WikiLeaks no Facebook tem 1,4 milhão de amigos. No Twitter, são 560 mil seguidores. Para o governo americano, Assange se tornou uma espécie de inimigo público número um. Graças às pistas deixadas por Assange, Washington descobriu que os vazamentos foram resultado de um furto – e está processando o soldado responsável. Em novembro, a polícia sueca expediu um mandado internacional de prisão contra Assange, acusado de estupro por ter mantido relações sexuais com duas suecas em que o preservativo teria rompido – na Suécia, a pena para isso vai até dois anos de prisão. Para Assange, a acusação da polícia sueca é uma armação. “Há uma ameaça contra minha vida. Minha equipe está ameaçada.” Assange afirma que, caso sofra um atentado, os segredos mais contundentes em poder do WikiLeaks serão revelados no mesmo instante.
Ativistas em manifestação de apoio ao WikiLeaks na Espanha pedem a libertação de Assange, em dezembro. As máscaras do grupo hacker Anonymous são inspiradas no rebelde inglês Guy Fawkes (à esq.)No dia 7 de dezembro, ele se apresentou à polícia londrina e foi preso. Foi solto no dia 14, após o pagamento de uma fiança de 200 mil libras, fornecida por apoiadores. Seu passaporte foi confiscado, e ele permanece na Inglaterra aguardando julgamento. Nesse meio tempo, os vazamentos nunca cessaram. Uma legião de hackers passou a atacar sites de governos e corporações em apoio a Assange. Sob o codinome Anonymous, ou anônimos, um grupo de manifestantes da internet chegou a promover atos públicos, em que apareciam com máscaras inspiradas no rebelde Guy Fawkes, que tentou explodir o Parlamento inglês em 1605, no episódio conhecido como Revolta da Pólvora.
A rebeldia contemporânea, protagonizada por hackers como Assange ou os anônimos, embute uma contradição. Ao atear seus rastilhos digitais, eles acreditam aparentemente contribuir para um mundo mais justo, em que os poderosos não podem mais guardar segredo algum. E é verdade que a sociedade tem a ganhar com a publicação de informações sigilosas de interesse público. Mas é preciso que o tratamento dado a essas informações seja profissional, não ponha vidas em risco e garanta que as fontes sejam preservadas para que possam alimentar investigações futuras.
Nada disso parece preocupar hackers como Assange, cujo comportamento de desafio a qualquer instância de poder assemelha-se a uma defesa velada da anarquia. Em toda sociedade há segredos de potencial explosivo. Alguns são necessários e devem ser protegidos – como dados bancários, fiscais ou médicos. Outros precisam ser divulgados para expôr corruptos ou criminosos. Com o WikiLeaks, Assange revelou que o dilema de separar uns dos outros adquiriu uma escala inédita na era digital. Mas uma coisa não mudou desde os tempos de Guy Fawkes: é preciso ter muito cuidado para lidar com a pólvora.
Época, 22 de dezembro de 2010

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Inspirado em Dickens

Minha primeira curiosidade em relação à Charles Dickens foi: - Teria ele sido órfão? Por que escreveu tanto sobre orfandade? E ao pesquisar, "perguntando ao Google" e relacionando as obras inspiradas neste autor, descobri que Pip, protagonista de Grandes Esperanças, marcou a vida e obra do escritor Lloyd Jones.
(em tempo, Dickens não foi órfão...)

“A literatura ensina a viver”
Luís Antônio Giron

O escritor neo-zelandês Lloyd Jones, de 52 anos ganhou fama intantânea com O Senhor Pip, livro indicado para o Booker Prize este ano, o principal prêmio literário da Comunidade Britânica. O Sr. Pip concorre com pesos-pesados, como Ian McEwan, com seu romance Na Praia. Lloyd Jones falou a ÉPOCA de Berlim, onde trabalha como escritor residente.

ÉPOCA - Qual o balanço entre realidade e fantasia em O Sr. Pip?
Lloyd Jones - Bogainville é uma ilha no sudoeste do Pacífico que faz parte de Papua Nova Guiné. Houve ao bloqueio da ilha ao longo de dez anos, com todo tipo de privações para a população. Mas a premissa do romance é ficcional: o último homem branco dá aulas para um monte de crianças só usando um material, um exemplar do romance Grandes Esperanças, de Charles Dickens. O Sr. Pip é uma fábula que nasce de um local e um evento reais.
ÉPOCA - Até que ponto seu trabalho como jornalista ajudou na criação da narrativa, em termos de assunto e estilo?
Jones - Bom, não existe nada como andar pela paisagem sobre a qual você vai criar uma história.Eu tentei mas falhei em chegar a Bugainville quando o bloqueio foi imposto pela primeira vez. Dez anos depois, quando o bloqueio foi suspenso, graças aos esforços de paz da nova Zelândia, visitei e conversei com muitas pessoas sobre a experiência do bloqueio. Mas eu quero enfatizar que O Sr. Pip é um romance. Não tentei contar a história da ilha durante o bloqueio. Outro vai contar essa história um dia. O conteúdo em geral determina o estilo de uma narrativa. No caso de O Sr. Pip, a narrativa escrita foi inspirada na tradição oral. Não se trata de establecer qual tem mai s autoridade. A tradição oferece um modo de contar uma história mais solto e talvez mais colorido. Isso me liberou dos contrangimentos das abordagens mais tradicionais.
ÉPOCA - A violência e o processo de descolonização retratados em O Sr. Pip ainda estão acontecendo na Oceania?
Jones - Existem tensões em Fiji, Ilhas Salomão e Nova Caledônia. Aumenta a insatisfação em Tonga, com a paorte do rei Tupou, que desencadeau protestos nas ruas, e infelizmente alguns distúrbios no centro da cidade. Mas, até agora, a terrível violência de O Sr. Pip se limitou à ilha de Bougainville.
ÉPOCA - Você considera seu trabalho como parte de uma literatura pós-colonial? Qual o status atual da literatura da Nova Zelândia?
Jones - Eu acho que sim, pelo menos no caso de Sr. Pip. Como a poplação da Nova Zelândia tem mudado através dos anos, ocorreram misturas culturais. A dominação da cultura do inglês pioneiro tem sofrido abalos. Agora a cultura inglesa é um das muitas vertentes, embora importante e poderosa. Ela se vê forçada a competir com a cultura maori, indígena, assim como as demais culturas do Pacífico Sul. Hoje é quase impossível falar de um literatura neo-zelandesa como um corpo homogêneo de trabalhos. Tudo o que posso fazer é apontar para sua abrangência e diversidade. É empolgante, mas também leva a algumas áreas de tensão, como a luta, em Sr. Pip, entre o Sr. Watts e a mãe de Matilda pela mente e alma de Matilda.
ÉPOCA - Como lhe ocorreu a diéia de usar Charles Dickens como símbolo de resistência e liberade?
Jones - Li Grandes Esperanças muito jovem, aos 9 ou 10 anos. Foi a primeira vez que entrei no mundo do livro adulto. Antes disse eu tina rido os contos de Oscar Wilde e Emil e os Detetives, de Eric Kastner. Mas Grandes Esperanças estava fora das prateleiras dos adultos. Li o livro com o espírito de aventura e com o entusiasmo típicos do menino. Fui capturado desde o momento qem que Magwich segura Pip no túmulo e o ameaça lhe arrancar o fígado caso ele não consiga voltar com dinheiro*. E quando Pip é convidado a ir par Lodnres e se tornar alguém (virar um “cavalheiro”) eu fiquei a seu lado. Assim, quando o Sr. Watts tratou de criar uma forma de fuga para as crianças, transportando-as a um outro mundo imaginário, inevitalmente teria de ser Grandes Esperanças. Para mim, como escritor, foi o recurso natural para Watts ensinar.
ÉPOCA - Por que Sr. Watts, reinventou o enredo de Dickens?
Jones - Ele reescreveu Grandes Esperanças duas vezes: a primeira, na versão abreviado para ler em classe. Por quê? Ele talvez quisesse evitar áreas de difícil entendimento e, por isso, eliminou algumas passagens. Na segunda vez, ele é questionado pelos rebeldes e se apresenta como Pip, usando o modelo do personagem de Dickens para descrever a si próprio. Para mim, a segunda versão é mais interessante. Ele se casou com uma nativa da ilha e foi viver lá. Rompeu com sua tribo intencionalmente. Ele buscou uma outra vida e quebrou o molde em que foi criado, exatamente como fez Pip, que escapou do aprendizado de joalheiro para ir para Londres e refazer lá a vida. Não é surpresa Wattw se identificar com Pip. Pip é um órfão. Watts é imigrante. Entre os dois há semelhanças.
ÉPOCA - Como você analisa o Sr. Pip? É um amigo imaginário, símbolo do confronto entre as culturas local e européia?
Jones - Possivelmente, ele é. Um amigo imaginário na vida real é mais trágico que um pacote imaginativo. Eu gosto da idéia de tratar Pip como um ponto de contato entre o mundo imaginário e real - como você o descreveu. Mas para Matilda, a razão é mais direta. Ela encontrou um novo amigo, uma alma parecida, e o busca onde pode encontrá-lo. Não em cima de uma árvore, mas em todos os lugares dentro do livro.
ÉPOCA - Você tem uma definição para você como escritor?
Jones - Não há duas maneiras de descrever um autor. Pode me definir assim: um escritor em oposição a um dentista ou a um cirurgião ou um pedreiro - mesmo que escrever tenha alguns pontos em comum com construir. Palavra a palavra, o edifício vai sendo construído.
ÉPOCA - Como está a literatura neo-zelandesa?
Jones - Está desabrochando. Nunca houve na Nova Zelândia tantos escritores de diversas origens e formações como agora. Também se publicam muitas revistas de pequena circulação, nas quais é possível você mostrar seu trabalho . É uma situação muito saudável.
ÉPOCA - E como anda seu bonito país?
Jones - Chegou a primavera. O país está esperando vencer o campeonato de rugby na Copa da França. Rugby é para os neo-zelandeses o que o futebol é para os brasieliros. Você vai entender o que se passa entre nós, uma curiosa mistura de ansiedade e desejo.
ÉPOCA - A personagem Matilda se apóia na literatura, para ganhar forças diante de uma realidade cruel. Não seria uma atitude escapista? Qual a função da ficção em um mundo conturbado?
Jones - Eu não acho que ler e escrever sejam ações escapistas, de forma alguma. Eu diria o inverso. A literatura nos força a nos confrontar com nós mesmos, como seres humanos. Mais do que isso, acredito que um dos valores mais importantes para o sucesso é a empatia. Sem empatia a gente vai se afastasr de um homem que está morrendo e ignorar os horrores de Ruanda e Darfur. A empatia furça a gente a pensar fora de nós mesmos. E onde a gente aprende pela primeira vez esse truque de abandonar nossa alma para entrar em uma outra? Na literatura. Literatura ensina a viver. Tanto Watts como Matilda ficariam felizes com a síntese que acabei de fazer. Mesmo assim, literatura é muito mais. é uma busca para irmos além de nós mesmos, para entender mais sobre esse mundo por onde a gente passa de forma tão breve. No fim do dia, a liiteratura é uma obra, um objeto para agarrar e admirar, ou ser crítico, como se faz com qualquer obra de arte.
ÉPOCA - Quais são seus projetos literários?
Jones - Graças ao programa de residência para escritores Creative New Zealand, estou morando em Berlim e continuarei por aqui a maior parte do ano que vem. O programa só requer que eu escreva, o que estou fazendo. Espero escrever um bom número de ensaios, ao mesmo tempo em que preparo um projeto ficional maior e mais ambicioso. Não vou falar mais, com medo de estragar a surpresa.
Época, 28/09/2007.

O neozelandês Lloyd Jones presta, na fábula moderna de 'O Sr. Pip', uma bonita homenagem ao poder de transformação da literatura. Ambientado na Papua Nova Guiné nos anos de 1990, em plena guerra civil, o romance, contado sob a perspectiva de Matilda, de 13 anos, mostra como um personagem de um dos grandes escritores do século XIX, Charles Dickens, é capaz de mudar a vida da jovem e de toda a sua comunidade, na fictícia vila de Bougainville. Isolados por um bloqueio político, econômico e militar, os habitantes da ilha vivem com dificuldades e privações. A sorte de todos só mudaria quando o único homem branco que restara na aldeia decide reabrir a esquecida e também única escola do local, iniciando a leitura do clássico de Dickens Grandes esperanças. O impacto das aventuras do protagonista do livro, conhecido pelo apelido de Sr. Pip (nome do personagem principal na obra de Charles Dickens), ilumina de 'grandes esperanças' Matilda e a gente de sua aldeia, sobrevivendo até ao inferno provocado pela guerra.

* Em outro post transcreverei trechos da obra Grandes Esperanças que retratam bem a facilidade de Dickens em escrever sob a ótica de uma criança.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Boa leitura!

Tentei poupar meu novo livro do suor, das orelhas amassadas, da sujeira. Daquelas manchas que aparecem nas laterais do livro - de dedos gordurosos.
Culpar a quem, agora? À mim ou à autora? Até a pág 240 mantinha tudo como planejado, mas... faltavam ainda 377 páginas "eletrizantes"...

Aí, mesmo de pé, dentro do ônibus, lia e lia, sem pausa.
Frances de Pontes Peebles é filha de mãe pernambucana e pai norte-americano; autora do livro A Costureira e o Cangaceiro, Editora Nova Fronteira.
Foram 617 páginas literalmente "devoradas" de uma obra de ficção inspirada em fatos históricos.
A moda e a etiqueta dos anos 1930, a flora e a fauna da caatinga, e os rituais, os métodos de cura naturais, as armas e os trajes dos cangaceiros.
A Revolução de 1930, a seca de 1932 e os acampamentos de refugiados frenológico e a prática comum de se decapitarem os cangaceiros para estudar os seus crânios.

Tem gente que machuca a gente...



Mais uma vez

Legião Urbana

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.
Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
Veja a nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!
Mas é claro que o sol vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem.
Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena
Acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança!

Ultimamente, tenha me culpado até mesmo quando alguém me machuca: - Você permitiu! Você provocou...
Que louca! Por que eu? Se a gente pode escolher com quem conviver, por que não excluir as más?
O sol vai voltar amanhã!
Amanhã terei nova chance, e outra, e outra...
Os meus planos vão dar certo! Eu acredito em mim!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Um de Cada Acessórios

Um de Cada é criação de Paulinha, acredita?! Nossa Paulinha Seabra!
Obras de arte...


sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Flores diretamente de Caeté MG






E, mais uma vez, temos uma formiga no exato momento do clic!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Café Kahlúa

Agora renomeado Café João Caetano..
Rua dos Guajajaras, 413, BH
Rui nos apresenta verdadeiras especiarias bem decoradas!


A cusparada metafísica

Crônica de Nelson Rodrigues - obra À sombra das chuteiras imortais.

Amigos, é óbvio que eu tenho que catar, entre os 22 elementos de Canto de Rio x Flamengo, o meu personagem da semana. Digo "22 elementos" e já retifico: - 23. De fato, seria uma injustiça, e das mais crassas, não incluir o árbito Alberto da Gama Malcher entre as figuras cogitáveis. Ele marcou dois pênaltis e, não satisfeito, determinou uma expulsão. E um juiz que faz tanto está, indubitavelmente, assumindo uma grave responsabilidade, perante Deus e perante os homens. Sim, ele poderia ser meu personagem, se eu não tivesse escolhido outro. E o patético é que, desta vez, não se trata de gente. Insisto: o meu personagem da semana não pertence à triste e miserável condição humana. É, e com escrúpulo e vergonha o confesso, uma cusparada.

A vida dos homens e dos times depende, às vezes, de episódios quase imperceptíveis. Por exemplo: - o jogo Canto do Rio x Flamengo, que foi tão árduo, tão dramático para o rubro-negro. Antes da partida, havia rubro-negros, olhando de esguelha, e como coração pressago, o time da vizinha capital. É certo que o Canto do Rio não esfrega na nossa cara gurandes nomes, grandes cartazes. Mas nós sabemos que está lá, por trás, dispondo, o treinador Zezé Moreira. Convém temer o clarividente métier, a sábia experiência do vencedor do Pan-Americano.
Começa o match e logo se percebe que o Flamengo teria de molhar a camisa. O Canto do Rio fez o jogo que rende, que interessa: - bola no chão, passe rasteiro, penetração, agressividade. Termina a primeira etapa com um escandaloso 1 x 0 a favor do Canto do Rio. Cá fora, vários rubro-negros se entreolhavam, em pânico. Imaginem se o Flamengo cai da liderança, como de um trapézio. Mas vem o tempo final e o rubro-negro consegue, com um gol notabilíssimo de Henrique, o empate. Mas não bastava. Um empate significaria, do mesmo modo, a humilhação de um segundo lugar. Continua a tragédia.
E, de repente, com a bola longe, nos pés de Jairo, se não me engano, há um incidente na área do Canto do Rio. Alguém chuta alguém. Malcher, de uma só cajadada, mata dois coelhos: - expulsa Floriano, que lhe pareceu culpado, e assinala pênalti contra o Canto do Rio, porque o árbitro o punia duas vezes pela mesma falta. Achei que era justiça demais, castigo demais. Vem Moacir e desempata: - Flamengo 2 x 1. Inferiorizado na placar e com dez elementos, lá parte, outra vez, o Canto do Rio. Jogo duro, viril, disputado com gana e, eu quase diria, com ódio.
Faltando quatro ou cinco minutos para acabar a batalha, ocorre contra o Flamengo o pênalti que, para muitos, foi de compensação. Devia ser empate, ou seja: - o resultado que viria pôr abaixo, da ponta, o Flamengo. Foi então que Dida teve uma lembrança maléfica e mesmo diabólica. Estava a bola na marca fatídica. Dida aproxima-se, ajoelha-se, baixa o rosto e vai fazer o que nem todos, na afobação, percebem. Para muitos, ele estaria rezando o couro. Mas eis, na verdade, o que aconteceu: Dida estava cuspindo na bola. Apenas isso e nada mais.

Objetará alguém que este é um detalhe anti-higiênico, antiestético, que não devia ser inserido numa crônica. Mas eu vos direi que, antes de Canto do Rio x Flamengo, já dizia aquele personagem shakespeariano que há mais coisas no céu e na terra do que supõe a nossa vã filosofia. Quem sabe se a cusparada não decidiu tudo? Só sei que lá ficou a saliva, pousada na bola. O que aconteceu depois todos sabem: - Osmar bate a penalidade de uma maneira que envergonharia uma cambaxirra. Atirava o Canto do Rio pela janela a última e desesperada chance de um empate glorioso.
E ninguém desconfiou que o fator decisivo do triunfo fora, talvez, a cusparada metafísica de Dida, que ungiu a bola e a desviou, na hora H.
(Manchete Esportiva, 9/11/1957)

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Nelson Rodrigues

Como é contaminante ouvir Vitório contar sobre um autor, uma obra... Esfuziante!!
Desta vez, ele me apresentou Nelson Rodrigues de maneira inegável - FUTEBOL é o tema do próximo livro!
Eu ?! que só torço para o Brasil em Copas do Mundo e com muuuuito pouco entusiasmo!
Pois é...

À sombra das chuteiras imortais reúne crônicas selecionadas por Ruy Castro. São sessenta textos publicados na extinta Manchete Esportiva e em O Globo entre os anos de 1955 e 1970.


Nelson Rodrigues não enxergava direito. De longe, então, era incapaz de distinguir Fulano de Beltrano. No Maracanã, que deixa o torcedor a léguas do campo, não conseguia ver o jogo sozinho. Tinha que ter alguém soprando no ouvido dele os lances que a vista curta não alcançava. E, no entanto, ninguém jamais retratou um jogo de futebol com a dimensão épica que o leitor vai encontrar neste livro organizado por Ruy Castro com o mesmo rigor e o mesmo encantamento com que se debruçou sobre a vida e a obra desse admirável artista que conheci tão de perto.
Releio, em estado de graça, a prosa poética de Nelson Rodrigues, escrita ao longo de vinte anos. São crônicas da época em que o futebol brasileiro foi mais feliz. O livro apaixona. O estilo é, ao mesmo tempo, lírico e cortante. Nelson adjetiva a vida e os homens com uma audácia exemplar: À sombra das chuteiras imortais é a obra sem igual de um cronista que nunca deu a mínima bola para a frígida aritmética do jogo. Na ótica privilegiada de Nelson, futebol sempre foi e há de ser arrebatamento. Paixão avassaladora. Chuteiras sangrando pela doce abstração de um gol.
O olhar metafórico de Nelson percorria o campo todo, recriando cada passe, cada drible, cada gol, numa secreta tabelinha com parceiros do imponderável. Era nas entrelinhas desse jogo sempre mágico que ele ia buscar seus personagens. A bola que passasse por Castilho não passaria por uma certa alma do outro mundo que o cronista volta e mia escalava para salvar de uma derrota o time do Fluminense ou a seleção nacional. Por suas sagradas paixões, Nelson Rodrigues encarava Deus e o mundo.
Nelson Rodrigues costumava dizer que, como um menino, via o amor pelo buraco do fechadura. Poderia dizer, também, que via o futebol com os olhos de um iluminado. Todo domingo, ele ia ao estádio, para contemplar os anjos e os demônios da sua devoção. Foi assim, no entardecer de cada jogo, que nasceu À sombra das chuteiras imortais, canto primeiro e única à epopéia do futebol brasileiro.
Nelson é o nosso Homero, sem tirar nem pôr.
Armando Nogueira

As crônicas são excelentes!! Postarei algumas delas, na íntegra, para vocês!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Novos amigos!!

Novo site TPM

O Pedal das meninas ganhou novo site.


Minha presença confirmada!!
Próximo final de semana!

Ela entrou pela janela

Provavelmente foi por ali que minha coleguinha entrou...
E me expulsou da minha cama...
Que calor é este??

Ju, aproveitei então, e postei as fotos do amigo oculto para vc! Sem remédio, remediado está!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Um presente!

Obrigada, Emanuel, pelo presente!
Adooooro! :)


Como o presente me remete à travessia de ontem, contarei um pouco mais sobre a aventura:
a sensação de ter aproveitado bem o final de semana é tão marcante que não só eu, mas também outros integrantes do grupo, já saíram em busca do próximo episódio.
Eu fiz contato com alguém que nos levará à Pedra do Sino no Rio...
Peter já fez contato com outro aventureiro para conhecermos o Vale do Peruaçu.
Adoro saber que honrarei o título de Vovó Travessura!

Missão cumprida

Fizemos a travessia! Sabará à Serra da Piedade, em Caetê.
Lucarol foi a surpresa e alegria do nosso grupo - MTB BH!
Só um comentário: se fosse a minha câmera (e não a do Peter, snif), eu teria chorado, esperneado e, enquanto não fosse recuperada, não voltaria para casa...
As fotos fazem parte do pacote - sem fotos, sensação de missão inacabada, incompleta...
Marcelo da Caminhada Mineira, pode contar conosco nas próximas!!



Título de capitalização em substituição ao fiador em contrato locatício

Uma excelente alternativa!
Quando você não tem como comprovar sua renda, é recém chegado na cidade, não tem parentes com patrimônio...  o convite para ser fiador de seu amigo no contrato de aluguel é algo que você não gosta, definitivamente!
Agora, além do seguro-fiança, o mercado imobiliário tem utilizado a alternativa do título de capitalização em substituição à figura do fiador. Fantáástico, em termos. O locatário, além do custo do aluguel e condomínio, é obrigado a poupar! Mas, convenhamos: é melhor receber o dinheiro de volta e ainda concorrer a prêmios mensais do que não receber nada, como é o caso do seguro.
Creio que sou suspeita, pois adooooro um título de capitalização. A liquidez da poupança tem me desvirtuado algumas vezes - pego emprestado e juro devolução, kkkk

Estou aqui ponderando o porquê esta matéria me chamou a atenção... Qual é o assunto que mais me atrai...
Qual a próxima faculdade que vou fazer...
Ah... a matricula para a nova pós graduação foi feita - já "estou" estudante novamente e pago meia entrada em teatros, cinemas!!!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Vou dormir sozinha!

Ebaaaaa!
Peter me disse: - Hoje você vai dormir sozinha!
- Com certeza! Minha coleguinha nem passa pela porta, kkk
E rimos todos...
Depois de uma caminhada de 20km sob sol escaldante de Sabará à Serra da Piedade minha coleguinha Insônia não chega perto de mim hoje!
Dormirei o sono dos justos!!

sábado, 11 de dezembro de 2010

Verticalização da Pampulha

Já ouvi algumas vezes que enquanto o PT comandar Belo Horizonte, não teremos edifícios na Pampulha - o complexo arquitetônico projetado por Oscar Niemeyer continuará em evidência.
Porém, após o divulgado Concurso Fotográfico Olhar Pampulha em junho deste ano, receio pela força do dinheiro... As construtoras são poderosas e os vereadores são políticos...
Este Concurso tem cheiro de saudade...
Cheiro de registro!




* enquanto "conversava com o google" perdi o site de onde extraí estas fotos... reconheço, pois, os devidos direitos autorais...

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

The Corrs - Only When I Sleep



Jamais esquecerei! Banda "Cromossomo X" - Michelle, Lívia, Chynthia, Déborah, Aline e Tiago...
Antes Roberta no bateria de Lívia...
Muuuuito apoio dos amigos Robin, Rô, Brunin, Rodrigo, Xocolat, Arismar, Kadu, Fred...
Bons, excelentes momentos!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Ballet Jovem

Nas noites de 10 e 11 de dezembro o Ballet Jovem Palácio das Artes apresenta coreografias de Tíndaro Silvano e Luis Arrieta, em homenagem aos 40 anos da Fundação Clóvis Salgado. Os jovens bailarinos interpretarão no palco do Grande Teatro Exsultate Jubilate, coreografia que Tíndaro Silvano criou para a Cia. de Dança Palácio das Artes em 1991 e Trindade, coreografia de Luis Arrieta, interpretada em 1987 pela Cia. de Dança Palácio das Artes.
Nos dois trabalhos os bailarinos do Ballet Jovem Palácio das Artes irão dividir o palco com o próprio Luis Arrieta e os bailarinos convidados da Cia de Dança Palácio das Artes, Beatriz Kuguimiya, Karla Couto, Lina Lapertosa, Mariângela Caramati, Lair Assis e Rodrigo Giése. Fechando o programa, o público também poderá conferir CONTRACAPA, de Cassilene Abranches, coreografia mais recente do repertório do Ballet Jovem Palácio das Artes.

Ballet Jovem Palácio das Artes
O Ballet Jovem Palácio das Artes é um projeto da Diretoria de Ensino e Extensão da Fundação Clóvis Salgado que foi criado em 2007 e desde então desenvolve e habilita bailarinos preenchendo a lacuna existente entre a formação e a inserção do artista no mercado de trabalho. O grupo vem preparando nos últimos meses um espetáculo em comemoração aos 40 anos de dança na Fundação Clóvis Salgado, homenageando três fundamentais nomes da dança em Belo Horizonte: professor Carlos Leite, o precursor, Luis Arrieta e Tíndaro Silvano, os coreógrafos mais atuantes nestes 40 anos da Fundação Clóvis Salgado.




Evento: Ballet Jovem Comemora – Homenagem aos 40 anos da Fundação Clóvis Salgado

Data: 10 e 11 de dezembro
Horário: 21h
Local: Grande Teatro
Valor: R$ 10,00 (inteira); R$ 5,00 (*meia-entrada)
Informações: 3236-7400

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Final de ano!


Festa de Confraternização das Meninas! Nem todas podem comparecer, mas, hoje é dia de reunir as amigas para tão famoso "amigo oculto"... Boas risadas, notícias, fofocas!
Alegriiiiia!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Pantufas, caneca e a colega Insônia


Lembrei-se de Islandia por conta das pantufas.
Adooooro canecas e...
Essa cara deformada?!  Parece comigo depois da visita de minha coleguinha...
Vocês acreditam que a Insônia continua invadindo minha vida?! Ela vem chegando, devagarinho e até me põe pra fora da minha próóópria cama! Atrevidíssima ela! Agora, de tão íntima, virou "coleguinha", kkkk

Sem sombra de dúvida...

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Orkut nos Emirados Árabes

Site PROIBIDO, NÃO CONFIÁVEL!
Carlinha nos conta como as coisas funcionam em Dubai...



domingo, 5 de dezembro de 2010

Os dois (ou três) lados da moeda...

Para a Infraero, quanto mais cheio, melhor
Murilo Ramos
Época, 6 dezembro 2010

Com os aeroportos lotados, a Infraero lucra nos aluguéis de lojas. Pode ser um primeiro passo para a abertura de capital

Para os brasileiros que viajam de avião, os aeroportos nacionais lembram problemas. Eles representam filas longas, poucos lugares para sentar, tempo perdido em espera, voos atrasados, voos cancelados. Graças ao bom momento da economia, no ano passado cerca de 60 milhões de pessoas viajaram de avião no país. A infraestrutura deficiente fez com que esse aumento na demanda se tornasse um problema para a Infraero, estatal que administra os 67 aeroportos do país. Se é alvo de queixas por causa disso, a Infraero também tem sabido aproveitar o lado positivo do fenômeno. O aumento na demanda e a perspectiva futura de um crescimento ainda maior, devido à realização da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, têm gerado lucros expressivos à estatal. Há uma corrida em busca de espaço nos aeroportos. Em licitações recentes para alugar espaços a lojas e restaurantes, a Infraero tem visto seu caixa engordar.

Num leilão recente, a rede de lanchonetes McDonald’s ofereceu um aluguel de R$ 654.300 mensais por 600 metros quadrados no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, o maior do país. O preço mínimo era R$ 178 mil, e os outros dois concorrentes não ofereceram nem R$ 300 mil mensais. No aeroporto de Brasília, o terceiro mais movimentado do país, o grupo R.A. concordou em pagar R$ 169 mil mensais para instalar um restaurante da marca Viena. Em Salvador, um franqueado da rede de lanchonetes Bob’s ofereceu R$ 192.300 por 205 metros quadrados. “O faturamento deverá crescer 20% neste ano”, afirma o diretor comercial da empresa, Geraldo Neves. Neste ano, a Infraero acertou 540 novos contratos com concessionários. A expectativa é que haja entre 250 e 350 renovações por ano daqui para a frente.

O recrudescimento da concorrência pelo espaço nos aeroportos tem gerado queixas entre os donos de lojas menores. Eles reclamam que não conseguem acompanhar a alta dos preços nas licitações. “Parece que o objetivo da Infraero é ter de seu lado apenas os grandes grupos”, diz o presidente da Associação dos Concessionários do Aeroporto de Brasília (Ascab), Vinícius Lisboa. “Esquece os micros e pequenos, que sempre estiveram ao lado da empresa, mesmo quando nem se falava em Copa do Mundo e Olimpíadas.” Parte dos pequenos comerciantes tinha contratos de oito anos, com possibilidade de prorrogação por mais cinco – apenas uma opção, de acordo com a Infraero. Nos últimos meses, concessionários menores entraram com ações judiciais para continuar operando suas lojas. Eles afirmam que havia a expectativa de que seus contratos fossem prorrogados e que as novas empresas repassarão o alto valor dos aluguéis a seus preços. A Associação buscou a ajuda de parlamentares, como a deputada Lídice da Mata (PSB-BA), que esteve com o presidente da estatal, Murilo Marques.

DIREÇÃO
A futura ministra do Planejamento, Miriam Belchior, afirma que o governo pode abrir o capital da Infraero a investidores Se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva comemorou o direito de o Brasil sediar a Copa e as Olimpíadas, a presidente eleita, Dilma Rousseff, ficou com a parte difícil. Uma das travas a remover está justamente na Infraero. O plano é retirá-la da esfera do Ministério da Defesa. A Infraero deve passar a fazer parte de uma secretaria ligada diretamente à Presidência da República. Outro plano é abrir o capital da estatal, com a venda de até 49,9% de suas ações. “A presidente eleita analisa com extremo cuidado o assunto, especialmente pela relevância que ele tem para o país no geral e pelos grandes eventos esportivos que vamos realizar”, afirma a futura ministra do Planejamento, Miriam Belchior.

A ideia de abrir o capital da Infraero não é nova no governo. Entre os documentos vazados pelo site Wikileaks (leia a reportagem), uma mensagem enviada a Washington no dia 25 de janeiro de 2008 trata do assunto. O então embaixador americano no Brasil, Clifford Sobel, relata uma conversa com o ministro da Defesa, Nelson Jobim. Na ocasião, Jobim teria dito que os problemas da estatal eram tão grandes que ela ainda não estava preparada para receber aportes financeiros. Convencer investidores a destinar recursos para uma empresa que acumulou demandas ao longo dos anos e sofreu acusações de desvio de dinheiro pode ser uma acrobacia. Atrair investidores exige, portanto, tornar a Infraero um negócio mais promissor. Um dos fatores essenciais seria aumentar sua capacidade de investir. “A Infraero investe cerca de R$ 700 milhões por ano”, diz o diretor Geraldo Neves. “O ideal seria investir pelo menos R$ 1 bilhão.”

Em 2008, o Ministério da Defesa encomendou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) um estudo sobre a possibilidade de contar com investidores privados. Após dois anos, o BNDES entregou um estudo para orientar a abertura de capital. Noutra frente, a Infraero passou por uma limpeza. Durante sua gestão, o brigadeiro Cleonilson Nicácio demitiu quase 100 ocupantes de cargos de confiança por causa de ligações políticas. Entre eles um irmão do senador Romero Jucá (PMDB-RR) e a ex-mulher do deputado federal e líder do PMDB na Câmara Henrique Eduardo Alves (RN).

A caminhada da Infraero até a abertura de capital promete ser longa. A estatal terá de adotar as rígidas regras de transparência exigidas pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e adotar uma gestão profissional. Trata-se de uma oportunidade única para Dilma se distanciar da nefasta interferência política que marca a história da Infraero – e seguir uma rota menos turbulenta até a Copa e as Olimpíadas.

Mandela

“O mito Mandela fica fora de casa”

A mulher do líder sul-africano fala sobre a rotina da família e de sua luta para melhorar a África

A moçambicana Graça Machel ficou conhecida como “a mulher de Nelson Mandela”, com quem se casou em 1998. Sua história, porém, é bem maior do que ser a senhora Mandela. Antes, lutou pela independência de seu país, ex-colônia portuguesa até 1975, e casou-se com o primeiro presidente moçambicano, Samora Machel. Como ministra e depois dirigente de uma ONG, concentrou-se na luta pelos direitos de crianças e mulheres, combatendo o analfabetismo e a aids. Graça esteve no Brasil para um seminário do Centro Ruth Cardoso, a ex-primeira-dama e antropóloga morta em 2008, a quem ela chama de irmã. Nesta entrevista a ÉPOCA, na sede do instituto, em São Paulo, ela fala de como Mandela encara a velhice aos 92 anos e dos desafios para os africanos.

QUEM É Graça Simbine Machel nasceu em Incadine, Moçambique. Aos 65 anos, tem sete filhos e 12 netos. Já viúva do ex-presidente moçambicano Samora Machel, casou-se em 1998 com Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul. Vive em Johannesburgo
O QUE FEZ
Formou-se em filologia da língua alemã pela Universidade de Lisboa. Depois, lutou pela independência de Moçambique. Foi ministra da Educação e Cultura de 1975 a 1989. Em 1994, criou a Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade, ONG com diversos projetos sociais em Moçambique. Ganhou vários prêmios de direitos humanos, como a Medalha Nansen, da ONU, pela defesa de crianças refugiadas

ÉPOCA – A senhora luta há décadas contra a disseminação do HIV na África, mas os números ainda são alarmantes. O que falta para combater a doença?
Graça Machel – Creio que nos primeiros anos, quando fomos confrontados com o vírus HIV, não soubemos traduzir as mensagens (de conscientização) para a cultura das pessoas. Faltou isso para que elas pudessem internalizar os riscos e entender que aquilo era de seu próprio interesse, para proteger sua família e a própria continuidade da linhagem. Fizemos uma transposição das mensagens que haviam sido preparadas em outros lugares. Houve uma dissonância entre aquilo que deveria ser a mudança de comportamento das pessoas e aquilo que eles ouviam, mas que não lhes tocava na consciência. Isso foi um grande problema, reconhecido por muitos de nós. Outro fator que não se deve ignorar é o nível de pobreza das pessoas. Muitas vezes isso lhes dá muitas limitações para fazer as opções certas. Os países onde há uma grande incidência do HIV são os mais pobres. Alguma coisa existe ali. Mas essa relação ainda não foi estudada corretamente.
ÉPOCA – O presidente Lula foi a Moçambique inaugurar uma fábrica de medicamentos para o tratamento da aids, um projeto com dinheiro brasileiro. O que mais o Brasil pode fazer por Moçambique?
Graça – A contribuição para Moçambique poder produzir antirretrovirais já responde a um grande problema, porque os medicamentos ficarão muito mais acessíveis. Estamos longe de cobrir todas as pessoas que precisam de tratamento. E a fábrica vai produzir não só para Moçambique, mas para toda a África Austral, que é a região do mundo mais afetada pela aids. Agora também precisamos saber do Brasil como vocês confeccionaram suas mensagens para conter os índices de infecção. Isso é uma lição muito importante.
ÉPOCA – Em 2008, seu marido, Nelson Mandela, interrompeu um período de reclusão e recebeu Lula. O que eles conversaram nesse encontro? Que impressão a senhora e Mandela tiveram dele?
Graça – Nelson interrompeu suas férias porque ele acreditou que fosse muito importante encontrar com o presidente Lula. Eles são de gerações diferentes e tiveram formas de luta distintas, mas se identificam muito em termos das grandes causas que abraçaram. Ele teve imenso prazer em encontrá-lo. Mas, agora, eu falar o que discutiram? Pergunte ao presidente Lula (risos).
ÉPOCA – A senhora é muito amiga de Fernando Henrique Cardoso. Como definiria o estilo de governar de FHC e de Lula?
Graça – Não vou entrar nessa discussão. Tenho profundo respeito por ambos. Para dizer a verdade, tenho tido muito mais oportunidade de trabalhar com Fernando Henrique. Mas devo dizer que minha relação com o casal Cardoso se deu por meio da Ruth e começou há uns sete ou oito anos. Só recentemente me associei ao Fernando Henrique pelo The Elders (Os Velhos, um grupo de 12 líderes globais que inclui Graça, Mandela, FHC e o ex-presidente americano Jimmy Carter, entre outros). Ruth e eu tivemos uma ligação espontânea e muito profunda. Tratávamo-nos com grande facilidade. Conheci mais a Ruth como pessoa. Com Fernando Henrique, o contato é mais recente.
ÉPOCA – Numa entrevista depois da Copa do Mundo, a senhora disse que Mandela encara com bom humor o envelhecimento. Como é o Mandela do dia a dia?
Graça – Nelson é uma pessoa que está muito tranquila consigo própria. Acho que ele tem o sentimento de dever cumprido. Nas diversas fases da vida dele, não fez coisas perfeitas, mas o que podia. Nelson vê a velhice com serenidade. Fala muitas vezes com os netos, como que os preparando para dizer que um dia ele não estará mais ali. Mas sem dramatizar. E isso tem a ver com a paz de espírito que ele tem. Hoje ele leva uma vida muito simples. Já não vai todo dia ao escritório da fundação (Nelson Mandela, em Johannesburgo), mas pelo menos três vezes por semana. Nos outros dias, fica em casa com os netos, bisnetos. Também passa o tempo com alguns amigos muito especiais. Há dois grupos que o animam muito: os colegas antigos e as crianças. Ponha uma criança diante dele e ele fica feliz, com aquele sorriso largo. Ele ri de verdade. Tento dar a ele um ambiente de conforto, para saborear os anos de vida. Ele já não pode ler muito, cansa-se bastante. Enfim, é uma vida muito comum.
ÉPOCA – Como é ser a mulher de um mito?
Graça – Ser mulher de Nelson é como ser a mulher de qualquer outro marido, quando são pessoas que se amam e se respeitam, naturalmente. Não tem nada de diferente. O mito fica do lado de fora. Em casa, somos o Nelson e a Graça. Ele é o marido, o avô, o amigo. Absolutamente normal. Ele é muito simples. Tem uma grande sensibilidade, até pelo fato de ter sofrido muito em sua vida. Por isso, trata as pessoas com muito cuidado. O Nelson faz questão de apertar a mão de todo mundo e olha nos seus olhos. Ele dá uns segundos a cada pessoa. Isso é algo que me fascina nele, porque tanta gente quer cumprimentá-lo e ele podia fazer isso sem prestar atenção. Ele não faz isso. Às vezes diz: “Tenho muita honra de conhecê-lo”. E as pessoas ficam assustadas.
ÉPOCA – Como Mandela se sentiu ao ir ao estádio antes da final da Copa do Mundo?
Graça – A Copa é um evento que une o mundo. Eu sabia que parte do sucesso de trazer a Copa para a África do Sul se devia à presença de Nelson. Tenho orgulho disso. E provavelmente aquela aparição dele num evento dessa envergadura foi a última. A qual outra coisa ele poderá ir agora? Ele já não vai a encontros internacionais, da ONU, essas coisas. Ali era o momento de ele poder ser parte daquela celebração global. Ele estava muito feliz naquele dia.
ÉPOCA – O que a Copa do Mundo representou para a África do Sul?
Graça – Foi a segunda oportunidade em que o mundo se virou para a África do Sul. A primeira foi quando caiu o apartheid (o regime de segregação racial que dava privilégios aos brancos, cujo fim simbólico foi a posse de Nelson Mandela como presidente, em 1994) e a África do Sul fez o chamado milagre de uma transição pacífica. Agora foi por meio de uma celebração, de grande alegria. A Copa aconteceu numa África do Sul da qual se falava de uma forma muito negativa, principalmente por causa da criminalidade. O país provou que podia oferecer uma das melhores Copas em termos de organização e entusiasmo. Foi uma coisa muito bonita. Mas não foi importante só para a África do Sul, mas para a África. Muitas pessoas não tinham ideia do que era um país africano e viram que era algo igual a outros lugares do mundo. Isso tem um valor que não pode ser medido, mas há coisas concretas. Infra-estrutura, por exemplo. A gora se discute se vamos fazer o uso daqueles estádios, mas estradas, pontes, aeroportos e hotéis ficam. O país cresceu. Claro que depois caiu-se um pouco “na real”. A indústria de construção civil, por exemplo, cresceu demais e agora há desemprego, porque não dava para continuar com aquele ritmo. Mas isso faz parte de um pós-Copa.
ÉPOCA – Como defensora dos direitos das mulheres, o que representou para a senhora a eleição de Dilma Rousseff à Presidência do Brasil?
Graça – A ascensão dela à Presidência de um país da importância do Brasil é uma vitória de todas as mulheres do mundo. Há uma luta que vem de muitas gerações. Mesmo depois do direito ao voto, era impensável três décadas atrás, mesmo neste país, que uma mulher pudesse ser presidente. É uma transformação social muito grande. As pessoas passaram a acreditar que uma mulher pode liderar não só este país, mas também os grandes desafios do mundo. O Brasil faz parte do G20, dos Brics, representa todo o Hemisfério Sul. Acreditar numa mulher como voz deste país lá fora é um avanço considerável.
ÉPOCA – A senhora foi militante da Frente de Libertação de Moçambique, que se assumia marxista-leninista. Qual é sua convicção política hoje?
Graça – Seria útil retirarmos os rótulos. Nos princípios do marxismo, havia o entendimento de pôr as pessoas e seu trabalho como um fator fundamental de transformação da sociedade. Nisso eu continuo acreditando. O resto... não é verdade. Hoje a linguagem mudou. Não se fala mais em operários, mas dos trabalhadores. Temos ainda um grande grupo que se convencionou chamar de “pobres”. Tenho uma grande dificuldade de aceitar isso. As pessoas que podem estar materialmente desprovidas de alguns meios são pessoas com recursos intelectuais, emocionais. Têm capacidade de desafiar a vida e continuam a se desenvolver. Os rótulos complicam muito. Em muitos valores, os ‘pobres” são muitíssimos mais ricos que os outros. Devíamos ter mais cuidado com os rótulos.